domingo, 12 de junho de 2016

O Impacto do Suicídio em Alguém com Depressão

Depressão / Autor: Merlinton


Alguém que eu conhecia se matou.

Talvez eu não devesse ter me chocado. O suicídio é a segunda causa mais comum de morte em pessoas jovens. Estatisticamente falando, essa forma de morte não é chocante. Mas fiquei chocada. Acho que eu tenho a sorte de não ter enfrentado isso antes. E eu vou atribuir algo de minha surpresa à ingenuidade juvenil e inexperiência - um lembrete de que apesar de eu me sentir muito velha, eu sou uma jovem. Ele era muito jovem, também.

Eu olho para a situação a partir dos olhos de uma pessoa com depressão que vive pensando em suicídio. Eu sei que ele deve ter sofrido. Eu não consigo pensar em muitas situações em que uma pessoa iria morrer por suicídio e não estar sofrendo. Eu não posso invejá-lo por querer colocar um fim a isso. Eu estive lá. Eu entendo o sofrimento dele. E de certa forma estou feliz que ele não está sofrendo mais.

Mas agora, eu também olho para a situação a partir dos olhos de alguém que foi "deixado para trás." Esta é uma nova perspectiva para mim. Eu estou do lado de fora olhando para dentro agora, e, eu tenho que lhe dizer, a vista não é grandiosa. Alguém postou ao seu perfil no Facebook, "Você não tem ideia do quanto a sua falta será sentida." Há um monte de pessoas em luto agora. Não vou fingir que eu e ele éramos amigos íntimos, mas ele era alguém que eu admirava e era afeiçoada. Eu não acho que ele teria esperado que eu fosse chorar por ele, mas eu chorava e eu estou chorando e eu quase certamente irei chorar mais um pouco.

Na verdade, essa experiência é útil para mim. Ela tem me afetado.  Eu penso na dor que esta perda causou. Ela ficou impressa em mim, mesmo quando eu estou em um período ruim. Eu sei que nunca mais vou ser capaz de considerar me matar sem lembrar as palavras "Você não tem ideia de como a sua falta será sentida” e o sofrimento que todos estão passando. Eu nunca me iludi pensando que os outros não sofrerão se eu morresse por suicídio, mas eu sempre pensei, "Eles vão superar isso." De certa forma, eu acho que é verdade. A dor vai diminuir com o tempo. Mas eu sei que, nesta situação, nunca haverá um momento em que vamos parar de sentir a falta dele, e nós nunca mais seremos os mesmos. Eu tenho que assumir que o mesmo estaria acontecendo se eu estivesse na posição dele.

Eu queria que seu suicídio não fosse o maior impacto da vida dele na minha, mas agora é.

Que saudades de você. Descanse em paz.

By Michelle M

Texto livremente traduzido e adaptado.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

-  Observatório da Imprensa  -

MÍDIA & SOCIEDADE

Suicídios

Por Alexandre Marini em 03/02/2015 na edição nº 836
Matt Kowalski (George Clooney) para Ryan Stone (Sandra Bullock), em Gravidade:
“Eu entendo, é confortável aqui. Você poderia desligar todos os sistemas, as luzes, apenas fechar os olhos e fingir que ninguém mais existe. Não tem ninguém aqui que possa te machucar. É seguro. Qual é razão para continuar? Qual é a razão para viver? Seu filho morreu; a vida não fica mais difícil que isso. Mas ainda é uma questão do que você vai fazer agora. Se você decidir voltar, então você precisa ir em frente com isso. Senta, aproveita a viagem, você precisa colocar os dois pés no chão e continuar a viver a vida. Ei, Ryan, é hora de ir para casa.”
Gravidade, de Alfonso Cuarón, é tão cheio de belas imagens e efeitos especiais que é possível terminar de assisti-lo sem se atentar ao óbvio: o filme trata, como um de seus pontos fundamentais, o suicídio. Dia desses deparei com uma crítica que aborda bem essa perspectiva presente no longa-metragem:
“Estamos todos à deriva, em busca de algo a que possamos nos agarrar. A nossa primeira deriva é a gestação, e no centro de nossas barrigas está o primeiro ponto que nos ata. Com o tempo, aquilo à que nos seguramos deixa de ser tão literal, as mãos dadas com os pais se transformam em um vínculo emocional. Passamos a vida coletando novos cordões umbilicais que possam impedir a nossa deriva. Nos casamos. Temos filhos. Escolhemos uma religião, um time de futebol. Compramos bens como casas e carros. Mas assim como a aquisição de tais pontos de referência e estabilidade impedem nossa deriva, a perda brusca desses pontos nos impulsiona para o vazio e sua desorientação. A morte de um ente querido, o abandono, a falência e o fim de uma fase da vida são como pequenos empurrões em nós- que ganham porém um movimento perpétuo pela inércia do espaço vazio, um movimento que só pode ser impedido pela vontade de se agarrar a outro ponto de referência. […] Isso não consiste apenas em divagações de início de crítica – é também o cerne da teoria de Durkheim sobre o suicídio e a deriva social. Quando o homem não tem laços estreitos com algo em sua comunidade, ele corre o risco de que qualquer impulso nessa inércia do espaço vazio o afaste demais da superfície – até que ele se encontre longe demais para o alcance do resgate. É quando a razão de viver se perde, e é onde normalmente acontecem os suicídios, nesse espaço do vácuo” (Ana Clara, no site Ovo de Fantasma).
Bem lá atrás (século 19), Émile Durkheim demonstrou por A+B que aquilo que aparentava ser uma ação de foro íntimo, ou seja, apenas no campo do privado, era um fato social. Toca ele fazer levantamentos de registros e montar tabelas para entender os índices de então. Resultado: percebeu que a taxa de suicídio permanecia constante por longos períodos de tempo, tendo muito menos variação que outros fenômenos demográficos.
Solidariedade e integração social
O que isso quer dizer?
Por mais que o suicídio seja de caráter individual, de natureza própria, é também eminentemente social. Poderiam passar anos ou décadas e a taxa de suicídio permaneceria a mesma, com pouca mudança. Mas encontraríamos diferenças se comparássemos países diferentes. Em outras palavras: Durkheim percebeu que havia povos que se matavam mais do que outros.
Também percebeu que era possível diferenciar grupos mais ou menos propensos a praticar o suicídio: casados se matavam menos que solteiros, protestantes mais que católicos, homens mais que mulheres, por exemplo. Uma clara indicação, portanto, que as sociedades como um todo e os círculos sociais de cada uma possuíam influência nesse tipo de morte. Seria como dizer que as sociedades têm, em cada momento histórico, uma disposição definida para o suicídio.
Mas por que isso acontece? Aí entram dois fatores: integração social e solidariedade. Solidariedade no sentido de “como e por que meios” uma sociedade se mantém coesa (nada a ver com distribuir caridade e responder cartinhas de natal dos correios) e integração social é a medida em que você se sente membro pertencente a um grupo (família ou trabalho, por exemplo). Baixa solidariedade e pouca integração social são grandes influenciadores de suicídios. São nossos cordões umbilicais. Corta-se um, talvez se sobreviva com o outro. Cortam-se os dois, estamos à deriva.
Sociedade e indivíduo
Você pode estar pensando que se ouvimos pouco sobre isso é porque os índices são pequenos. Enganamo-nos. Na verdade, uma pessoa se mata a cada 40 segundos no mundo. Três mil por dia. Sendo numericamente mais claro: 804.000 suicídios no ano de 2012. Destes, 11.821 só no Brasil, o oitavo país com a maior quantidade de suicídios.
E, sim, homens se matam muito mais: 9.918 homens e 2.623 mulheres, tomando como exemplo nós, brasileiros (2012). O número de tentativas pode chegar até 20 vezes mais que o de mortes. Entre jovens de 15 a 29 anos, dar fim à própria vida está entre a segunda maior causa de morte global. Como se matam? Ingerindo pesticidas, enforcamento ou com armas de fogo.
Cerca de metade das mortes (não incluindo acidentes e causas naturais) no mundo são por suicídio, 35% por homicídio e 15% por conflitos armados. Aquele número lá em cima, 804.000 em 2012, representa metade das mortes intencionalmente provocadas naquele ano. Precisamos considerar que há mais gente tirando a própria vida do que a de outros e, mesmo com números tão expressivos, pouco ouvimos falar deles.
A imprensa hoje adota a postura de não publicar sobre essa realidade cotidiana, excetuando-se pessoas famosas. Com o intuito ou pretensão de não incentivar que outros façam o mesmo, acaba por esconder uma realidade que poderia ter um tratamento mais adequado caso fosse socialmente mais perceptível. Afinal, não são assim que as políticas públicas funcionam?
A causa do suicídio, grosseiramente falando, estaria, portanto, na ausência da sociedade na vida do indivíduo. Num coletivo de ações individuais, é algo que afeta fortemente a época e o mundo em que vivemos. E, diga-se de passagem, bem longe da beleza plástica dos efeitos especiais em meio às estrelas, como no filme de Cuarón. De semelhante, nossa ignorância sobre ao passar despercebido.
>> Nota:Atualmente, o serviço 141 (Linha da Vida) funciona 24 horas todos os dias. Também por Skype, chat e e-mail (http://www.cvv.org.br).

observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed836_suicidios
Impresso no site do Observatório da Imprensa  |  www.observatoriodaimprensa.com.br  |  09/02/2015 13:37:15

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Levantamento bibliográfico sobre os temas:
Suicídio, sobreviventes, família.

Trabalho desenvolvido dentro do projeto
“Desenvolvimento e Organização de Sistemas
e Serviços de Saúde” MS/SAS - OPAS/OMS
Projeto ComViver - Atendimento a
Sobreviventes de Suicidio.

http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/levantamentobibliografico.pdf

Ser


Ser

Tornar-se Pessoa é realizar o Ser
do humano.
É desabrochar, revelar o que dentro de si
existe como possibilidade, avanço, doação.
Todo ser humano traz dentro de si
energias latentes, mas que requerem o engajamento em um projeto existencial
para que possam se desvelar, tornarem-se plenas e doarem-se.
Esta energia, porém, está em mim
mas não me pertence.
Vem através de mim, mas não sou eu.
Ela é antes de mim, presente e além de mim
Ela é paz, é beleza, é silêncio.
Mas também é angústia, vício, loucura.
Ela é sempre dupla em seu permanecer, ausente.
Porém é única, totalmente outra, no instante indizível e eterno do Totalmente Outro.
Eu jamais alcanço se me dirijo a Ela.
Ela jamais me vem se permaneço em mim.
Ocorre-me, revela-se e permanece
o instante,
como Graça.

domingo, 25 de maio de 2014

Profissão de Fé.



Profissão de Fé.

Pego-me as vezes pensando como uma pessoa é capaz de suportar tantas dores dentro do si!
Ouvimos histórias de vida tão devastadoramente dramáticas – mesmo com já alguma experiência clínica  em nosso ofício de psicoterapeutas – que diante das quais fico com uma sensação de impotência tão grande que, insistentemente, me pergunto como aquela pessoa conseguiu chegar até aqui e estar, neste exato momento, contando-me sua história de vida e relatando seu infinito sofrimento, sentada à minha frente!
Muitos quebraram, sem dúvida. São os que culminaram sua história dolorosa de vida com o evento trágico e equivocado do suicídio.
São esses os pacientes com quem trabalho. Como, de alguma forma, posso escolher meus próprios pacientes, esses são quase sempre os sobreviventes de traumáticas tentativas de suicídios que não se realizaram ou os desejosos de fazê-lo. No mais, pessoas atormentadas por forças irracionais, estranhas e descontroladas que as dominam.
Entretanto, quando me coloco ali face a face com essas pessoas, no silêncio palpitante do consultório, ouvindo as palavras dolorosamente cálidas que são pronunciadas, o drama de uma alma revelado, numa relação eu-tu que se estabelece entre dois frágeis seres humanos, uma crença fundamental vai me tomando e passa a envolver todo meu trabalho. Uma crença que dia a dia vem crescendo, sem dúvida que, em parte, baseada nos meus estudos acadêmicos e experiência clínica, mas que vai muito além disso: a crença de que –  desde o mais íntimo daquela pessoa que ali se apresenta colocada a minha frente, devastada emocionalmente, sem esperanças, em frangalhos – as forças positivas da Vida estão agindo, e apenas esperando a situação mais adequada para se manifestarem e transformar por inteiro aquela existência, ausente da Graça.