sábado, 29 de outubro de 2016

Prezada Depressão, Você Não Vai Vencer


Prezada Depressão,
Você não vai vencer. Às vezes você é ardilosa e parece que está vencendo e às vezes você está mesmo vencendo, mas eu sou conhecida por meus retornos e no final eu vou vencer. Você tenta jogar esses jogos de manipulação, procura isolar a todos e cada um de seus "jogadores", fazendo com que se sintam sozinhos e como se cada um de nós fôssemos os únicos neste jogo malicioso seu. Você não nos engana. Nós nos reunimos todos os dias e existe um poder e uma forte resistência que se forma quando as pessoas se reúnem. Nós não estamos jogando este jogo sozinhos, estamos jogando como uma equipe. E como uma pessoa nesta equipe, que chegou muito perto de desistir deste jogo que chamamos de vida, aqui vai o que eu quero dizer aos meus companheiros de equipe:
Eu estava na ponte, muito perto de ser vencida. A depressão não parava de me dizer: "Você está com tanta dor, isso vai fazer tudo desaparecer. Basta saltar. Você não vai conseguir nada tentando lutar por mais tempo. Você nunca vai ficar melhor. Eu sempre vou voltar. Que vida é essa que você está vivendo? Você é inútil, indigna de ser amada e nunca poderá fazer nada direito. Basta saltar. É essa a hora."
Depressão, você acha que eu não sei reconhecer esses pensamentos?
Isso é você falando comigo, não sou eu!
Você é como uma nuvem que desce sobre o meu cérebro e mascara quem eu sou realmente e esconde os meus pensamentos mais autênticos. Meus verdadeiros pensamentos têm lógica. Seus pensamentos são falsos, mesmo que eu acredite neles em alguns momentos. Eu ainda nem sempre acredito que sou digna, que posso ser amada e capaz de cometer erros, porque isso é o que significa ser humano. Mas estou aprendendo.
Eu não sou você, depressão!
Eu sou muito mais do que você. Eu tenho muito potencial. Eu sou bonita. Eu faço a diferença aqui na Terra. A viagem não é fácil. É terrivelmente difícil e às vezes parece insuportável, mas acreditem em mim, outras pessoas estão cientes de você, outras pessoas sabem quem você é, e por causa dessa conexão que temos vamos lutar com você juntas e, não, deixar você nos vencer.
Mais uma coisa, só porque eu luto com você muitas vezes não significa que eu tenha vergonha de você. Eu não estou envergonhada por você ou por me fazer sentir, às vezes, como se eu fosse louca. Você é uma doença. Você é como qualquer doença física, exceto que as pessoas estigmatizam você, porque eles simplesmente não te entendem. Mas para mim e todos os outros que você faz sofrer está certo, OK.
Nós estamos levando um dia de cada vez.
Atenciosamente,
Michelle, a guerreira




Se você ou alguém que você conhece precisa de ajuda, ligue para o número do CVV: 188 e procure ajuda especializada.



Texto original: Dear Depression, You Will Not Win / By  Michelle Janiak
https://themighty.com/2016/10/a-letter-to-depression-you-will-not-win/



Tradução livre e adaptada



sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Compartilhar problemas e sentimentos não te faz uma pessoa fraca


Eu sinto que há esse enorme equívoco de que compartilhar seus sentimentos e problemas faz de você uma pessoa fraca, e manter tudo guardado te faz forte.
Sinto muito, mas eu tenho que discordar.
Não estou dizendo que se você é alguém que mantém suas emoções e pensamentos só prá você, que você não seja forte. Pelo contrário, eu estou dizendo que não há nada de errado em compartilhar como você se sente. Eu já ouvi isso antes, e eu tenho certeza que você também. As pessoas chegam e dizem coisas como: "Uau, eu nem sabia que você tinha (insira um problema de saúde mental ou física aqui)." Elas acham que dizendo isso para uma pessoa que esconde seus problemas é como se estivessem fazendo um elogio, dizendo o quanto ela é forte.
Agora, não me interpretem mal. Concordo: há muita gente por aí que não compartilha seus sentimentos ou emoções e que são fortes. No entanto, observamos pessoas que compartilham os seus sentimentos e suas lutas e que são fortes, também. Talvez eu esteja errada, mas parece que as pessoas tendem a dar mais crédito para aqueles que guardam para si seus sentimentos do que para aqueles que não o fazem. Eu acho que essa atitude é errada, muito errada e também triste. 
Eu acho que as pessoas precisam saber que o certo é compartilhar seus problemas e sentimentos, porque ao fazê-lo, não estão ajudando somente a si próprios, mas estão ajudando os outros que sofrem e lutam também. Pense nisso!
Ao falar, abrir nosso coração, compartilhar o que passamos, nós informamos aos outros que lutam a mesma luta que eles não estão sozinhos. Especialmente quando se trata de lidar com a saúde mental, compartilhar como se sente é extremamente importante. Já é muito difícil e dura a luta diária para quem é portador de um distúrbio mental, então, ao compartilharmos os nossos sentimentos e lutas, estamos abrindo-nos ao poder de cura e de apoio – de conexão.
Talvez, eu esteja sendo um pouco tendenciosa. Eu sempre fui o tipo de pessoa que fala sobre os próprios problemas (é claro, para aqueles que eu possa confiar). Às vezes, eu sinto que o mundo quer isso e aprecia esta característica, e outras vezes, nem tanto. Há toneladas de pessoas lá fora que, infelizmente, não querem e não sabem ouvir. No entanto, temos de perceber o quanto é importante compartilhar nossos sentimentos e, como eu disse, o quanto é benéfico para nós e os para os outros. Portanto, não tenha medo. Compartilhe seus sentimentos e lutas com aqueles que você confia! Você perceberá que ao compartilhar os seus problemas, sentimentos e emoções, vai conhecer pessoas maravilhosas que também compartilham como se sentem e pessoas que estão dispostos a ajudar de formas e maneiras que você jamais poderia ter imaginado!



Se você ou alguém que você conhece precisa de ajuda, ligue para o número do CVV: 141 e procure ajuda especializada.



Texto original: What We Can't Forget When We Praise People Who Hide Their Feelings /By  B.G.
 https://themighty.com/2016/10/sharing-your-feelings-doesnt-make-you-weak/

Tradução livre e adaptada







sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Por que eu não quero que as pessoas entendam a minha depressão


A depressão é uma doença detestável. Destina-se a te isolar e levar você, emocionalmente, para baixo. Costumo discutir a minha doença com outras pessoas e tentar explicá-la, mas, outro dia, eu percebi uma coisa.
Eu realmente não desejo que ninguém consiga entender o que eu atravesso por sofrer de depressão.
Para entender alguém é preciso saber como ele se sente. Imaginar-se no lugar dessa pessoa. Ter experimentado os mesmos sentimentos em algum momento de sua vida.
Eu não quero que alguém entenda o que só eu sei o que estou sentindo, mesmo quando em uma sala com pessoas que me amam e se importam comigo.
Eu não quero que qualquer um entenda os sentimentos de ódio que tenho por mim mesma, quando sua cabeça fica te repetindo que você não é uma pessoa boa o suficiente e que o mundo seria um lugar bem melhor se você não existisse.
Eu não quero que qualquer um entenda o quanto é horrível ficar em um sofá ou numa cama o dia todo, pensando que deveria me levantar e sair para fazer uma caminhada.
Eu não quero que qualquer um entenda o esgotamento que você sente no final de cada dia. A batalha que você trava para ficar acordada durante todo o dia, todos os dias.        
Eu não quero que qualquer um entenda a sensação de impotência de não ser capaz de ajudar a si mesma.
Eu não quero que qualquer um entenda como é se sentir tão irritada e desanimada, e não ter uma única boa razão a respeito do porque você se sentir assim.
Eu não quero que ninguém entenda o que estou passando, porque eu sei como me sinto, e meu desejo é que ninguém se sinta do mesmo jeito.

Tudo que eu quero, de verdade, tudo que eu quero é a aceitação de que estou fazendo o meu melhor para ficar melhor. E, às vezes, que vou precisar de alguma ajuda e amor enquanto eu estiver passando por isso.


Se você ou alguém que você conhece precisa de ajuda, ligue para o número do CVV: 141 e procure ajuda especializada.


Texto original: Why I Don't Want People to Understand My Depression By Jenny Bromfield
https://themighty.com/2016/10/why-i-dont-want-people-to-understand-my-depression/


Tradução livre e adaptada






quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Evangélicos, Vocês Estão Errados Sobre Suicídio e Doença Mental



Por Emy Simpson, cristã e autora do livro Troubled Minds: Mental Illness and the Church's Mission, sobre cristãos portadores de doenças mentais.
 Como tenho escrito sobre as doenças mentais e a igreja ao longo dos últimos anos, eu tenho me dirigido a igreja em geral. Mas hoje, particularmente, quero me dirigir aos meus companheiros evangélicos.
Uma pesquisa recente da Life Way Research produziu algumas estatísticas interessantes relacionados com a doença mental, entre eles duas estatísticas que revelam um contraste chocante. Entre os evangélicos pesquisados, 64% acreditam que as igrejas devem fazer mais para prevenir o suicídio. Ao mesmo tempo, 48% acreditam que a doença mental grave pode ser curada somente pela oração.
Pois bem, aqui está o que eu acho chocante: Essa segunda estatística revela uma atitude que realmente contradiz o que 64% alegam sobre o que eles querem que a igreja faça. 
Aqui vai uma dica: Se você acredita que as igrejas devem fazer mais para ajudar a prevenir o suicídio, aqui está uma forma tangível e rápida para ajudar agora: Pare de dizer às pessoas que elas podem curar a doença mental apenas com oração.
Concordo, só porque as pessoas dizem que a doença mental pode ser superada com o estudo da Bíblia e oração não significa que essas mesmas pessoas iriam desencorajar o tratamento médico e a psicoterapia para alguém com doença mental.
Mas em inúmeras igrejas, tais crenças são amplamente sustentadas e disseminadas. E, em outras, embora a procura de tratamento não seja abertamente condenada, a oração e estudo da Bíblia continuam prescritos como o primeiro passo para tentar evitar o tratamento e isso, para muitas pessoas, tem o mesmo efeito de desencorajar essa procura. Isso, certamente, tem o efeito de retardar o tratamento e esse atraso aumenta a probabilidade de que a doença mental venha a se tornar mais grave, podendo causar graves perturbações ao funcionamento da pessoa e, potencialmente, custar sua própria vida.
Enquanto a maioria das pessoas que são portadoras de uma doença mental (mais de 25% da população adulta americana) não morrem por suicídio, a maioria dos especialistas afirmam que pelo menos 90% das pessoas que morrem por suicídio tem um transtorno mental diagnosticável, que pode muito bem ser tratado E muitas dessas pessoas não recebem tratamento para a sua saúde mental. Obviamente é o tratamento e a gestão adequada da doença mental que são a forma – possivelmente a forma mais importante – de prevenir o suicídio. E a oração por si só, embora sendo útil, não é o tratamento adequado da doença mental. Na verdade, a maneira mais segura de conduzir as pessoas para mais perto do abismo do desespero consiste em dizer-lhes que a sua doença mental é simplesmente um problema espiritual; diga-lhes em seguida para orar e, em seguida, quando a oração não funcionar, basta dizer-lhes para orar com mais fé. 
Colocar uma carga espiritual pesada sobre as pessoas que sofrem de uma doença mental grave é uma forma de incentivar o suicídio, não de impedi-lo.
 É fácil para a maioria de nós compreendermos que se você diz a alguém com câncer, diabetes ou insuficiência renal que a oração é a melhor maneira de tratar a sua doença com risco de vida, e por causa de seu conselho essa pessoa recusa o tratamento médico, você está contribuindo para a sua morte. 
Você sabe que uma doença mental grave é também uma condição que coloca a vida em risco? Você sabe disso? De acordo com a Organização das Nações Unidas e do Instituto Nacional de Saúde Mental, em média, os americanos com doença mental grave morrem 14 a 32 anos antes do que a população em geral. A esperança média de vida para as pessoas portadoras de uma doença mental grave variam de 49 a 60 anos de idade. Compare isso com a expectativa de vida média nos Estados Unidos: 78,6 anos. O suicídio é apenas uma pequena razão para esta diminuição na esperança de vida, mas é significativa. Pessoas com esquizofrenia são 50 vezes mais propensos a tentar o suicídio do que a população em geral. Entre as pessoas com diagnóstico de transtorno bipolar, pelo menos, 25 a 50% fazem uma tentativa de suicídio. Entre as pessoas com depressão maior, a taxa de suicídio é 8 vezes superior à da população em geral. Portanto, para qualquer um que, hipocritamente, disser a essas pessoas que elas não têm uma condição médica que requer tratamento e que uma atividade religiosa mais cheia de fé e entrega à Deus é tudo que eles precisam, eu digo que essa é uma atitude indesculpável.
Considere o que acontece quando, apesar de orações sinceras e frequentes das pessoas, esta receita simplesmente não funcione, como inevitavelmente é o que acontece com a maioria das pessoas. Seu conselho equivocado condenou-as a sofrer ainda mais, pois acrescentou em cima de sintomas da doença mental grave, sentimentos de inadequação espiritual ou abandono. A que outra conclusão chega essa pessoa, senão que suas orações não são boas o suficiente ou que Deus se afastou delas?
Acredite: se só a oração fosse a cura padrão para a doença mental, minha mãe seria saudável e completa, ao invés de uma pessoa devastada pelos sintomas da esquizofrenia. Na verdade, se a fé fosse uma vacina eficaz para distúrbios cerebrais, ela nunca teria desenvolvido essa doença. Se ir a uma reunião de oração evangélica assegurasse saúde mental, nenhuma das pessoas sobre as quais eu escrevi em meu livro (Troubled Minds) teriam algo a dizer. Eu entrevistei fiéis cristãos que tomam medicação, se envolvem em terapia, participam de grupos de apoio, e sim, com certeza, oram regularmente.
Deus pode curar qualquer um, e às vezes ele faz isso milagrosamente. Mas na maioria das vezes, ele não o faz. Tal reconhecimento não põe em causa a grandeza de Deus ou de sua bondade. Ele nos colocou em um mundo onde vivemos dentro dos limites das leis naturais que ele criou e com a presença de doença, decadência e morte. Doença mental, como outras doenças, é uma realidade da vida em um mundo onde partes do nosso corpo, incluindo o cérebro, ficam doentes e passam a apresentar um mau funcionamento. Veja! Nós não consideraríamos aceitável, de forma nenhuma, prescrever exclusivamente a oração, sozinha, para o tratamento de fígados doentes, corações e pâncreas; porque prescrevê-lo para cérebros desordenados? A oração é fundamental para uma vida espiritual saudável, se estamos ou não estamos sofrendo de doença grave. Mas isso não é um substituto para o tratamento médico responsável.
Eu amo a igreja, e eu sou um grande fã das muitas maneiras que Deus vem usando o povo cristão como uma força para o bem deste mundo. Mas, às vezes, na nossa ignorância, equívoco, teimosia, preguiça, medo ou desejo muito humano de acreditar que como cristãos merecemos uma vida melhor do que outros, em nada estamos ajudando, mas somente fazendo aumentar o problema. Para os cristãos que acreditam que oração e o estudo da Bíblia são as substituições corretas para o tratamento dos distúrbios mentais, esta é a hora.
É a hora de todos nós aprendermos e falarmos a verdade: e ajudarmos a salvar vidas.


Se você ou alguém que você conhece precisa de ajuda, ligue para o telefone do CVV: 188 e procure ajuda especializada de um psicólogo ou psiquiatra.




Texto original: Evangelicals, You’re Wrong about Mental Illness Published September 20, 2013 by Amy in ChurchMental HealthMental Illness
http://amysimpsononline.com/2013/09/evangelicals-youre-wrong-about-mental-illness/
  

 Tradução livre e adaptada




quarta-feira, 21 de setembro de 2016

A Fábula da Semente de Mostarda


 O sofrimento é uma realidade para todos nós. Independente de idade, sexo, classe social, raça, etc, o sofrimento, definitivamente atinge a cada um de nós. Sofrer é inerente à condição humana!
Em seu texto O Mal-Estar na Civilização, Freud destaca que o sofrimento nos ameaça a partir de três fontes:
1) A partir do mundo externo, que nos ameaça com suas forças esmagadoras e impiedosas: é o caso das tragédias naturais;
2) A partir do corpo, que destinado à ruína, não pode evitar a dor e a angústia: é o caso da morte e das mais diversas doenças;
3) A partir dos vínculos com os outros seres humanos: esse conhecemos bem, pois é o caso das “tragédias” provocadas pela multidão de nossos relacionamentos disfuncionais, no ambiente de trabalho, nas relações amorosas, no casamento, com os filhos, com a mãe, com o pai, com outros seres humanos e de toda ordem.
Como psicólogos, parece que estamos mais diretamente metidos no ofício de tratar, amenizar e, quem sabe, resolver, os sofrimentos oriundos das segunda e terceira fontes. Constitui-se na nossa tarefa um combate diário, árduo, contra os relacionamentos disfuncionais e os consequentes transtornos que causam nos sujeitos; e um combate contra as desordens/doenças mentais, na forma das mais diversas psicopatologias tais como as catalogam os manuais. É a nossa rotina. Psicoterapia e fármacos tem sido as nossas mais potentes e principais armas.
Entretanto, cabe interrogar se essa estratégia de combate focada no sofrimento não tem sido uma estratégia equivocada. Diante do sofrimento o nosso foco não deveria se voltar não para o combate ao sofrimento, mas para a promoção da saúde e o desenvolvimento da sabedoria, como uma nova estratégia? Com essa nova estratégia, talvez, não alcançaríamos melhores resultados?
Bem, tenho pensado...

“A jovem esposa de uma próspera família, de nome Kisa Gotami, perdeu o juízo em consequência da morte de seu bebê. Apertando o corpinho frio em seus braços, Kisa Gotami vagava pelas ruas, suplicando a todos os que encontrava que recuperassem a saúde de seu filho que ela julgava “doente”.
- Por favor, me dê um remédio para curar o meu filhinho!
Ela tocava nas casas e era humilhada: As pessoas, impacientes, batiam a porta em sua cara. Depois riam e comentavam:
- Que mulher louca! Ela não está vendo que a criança está morta!
A jovem ouvia o que lhe diziam, mas não queria acreditar.
- Por que você não se mexe, meu filho? Eu quero você de novo andando e brincando – pensava ela.
 – Por favor, me dê um remédio para o meu filho, ele não se mexe! Continuava em suas súplicas desesperadas.
Um homem sensato se compadeceu da dor da mãe que não queria aceitar a morte do filho e disse:
- Eu não tenho esse remédio que você procura, mas eu posso indicar quem o tem.
-E eu te suplico: me diga quem é!
-Você precisa falar com Sakyamuni, o Buda.
A mulher à beira da loucura foi ver o Iluminado e exclamou, chorando:
- Senhor, meu filho estava brincando entre as flores e tropeçou numa serpente que se enroscou no seu braço. Depois ficou pálido e silencioso. Não posso aceitar que ele deixe o meu colo assim. Senhor, meu mestre, dá-me um remédio que cure o meu filho.
O Iluminado respondeu:
-Sim irmãzinha, há uma coisa que pode curar teu filho e a ti, se puderes consegui-la, porque os que consultam os médicos tomam o que lhes é receitado. Procura uma simples semente de mostarda preta, porém só deves recebê-la de uma casa onde nunca tenha entrado a Morte.
Aflita, a magra Gotami foi de casa em casa pedindo o grão de mostarda. As pessoas se compadeciam dela e lhe davam a semente, porém, quando ela perguntava se já tinha morrido alguém naquela casa, lhe respondiam:
-Ah! São muitos as pessoas queridas que já morreram nesta família. Não nos lembre da nossa dor.
Agradecida, ela lhes devolvia a semente de mostarda que não serviria para preparar o remédio e dirigia-se a outros que diziam a ela:
-Aqui está a semente, porém já morreu minha esposa.
-Aqui está a semente, porém o semeador morreu entre a estação chuvosa e a colheita.
- Pode levar esta semente, mas saiba a morte levou a nossa filha antes da hora.
E assim foi, o dia todo procurou, mas não encontrou nenhuma casa onde a Morte já não tivesse passado. Nenhuma semente serviria para trazer o seu filho de volta. No começo, achou que ninguém entendia a sua dor. No decorrer do dia, percebeu que a dor da morte não era só sua. Muitos sofreram com ela e ela sofreu ao ouvir histórias de pessoas que se foram, avôs, avós, pais, mães, filhos, filhas, irmãos, irmãs, empregados, amigos, parentes e até animais queridos.
Ela entendeu a mensagem do Iluminado. Enterrou sozinha o seu filho, mas sabia que era como se estivesse ao lado de muitos conhecidos e desconhecidos, dando o último adeus ao menino.
Kisa Gotami voltou até Buda, o Desperto, que lhe perguntou:
- Encontrou a semente?
- Não, Mestre.
- Mas procurando o que não poderia encontrar, achaste um amargo bálsamo.... Enterraste o teu filho?
- Sim. Sobre o meu seio, o meu menininho dormiu hoje o sono da morte. E eu só pude chorar sozinha.... De manhã estava sozinha, no fim da tarde, ainda sozinha, percebi que havia uma multidão comigo.
- Agora sabes que, cedo ou tarde, todo mundo chora uma dor ou uma dor semelhante à tua. ”

Nesse pungente exemplo de um encontro transformador entre a figura do Buda e a atormentada Kisa Gotami, vemos como uma profunda sabedoria é posta em ação na instrução aparentemente simples que o Mestre lhe propõe.  Ação que vai empurrando a jovem, lentamente, indiretamente e com perfeita delicadeza à um movimento de necessária descoberta e aceitação de uma situação que é comum a todos – a dor, a perda, a Morte – dissipando o seu delírio e transformando o seu sofrimento.



Se você ou alguém que você conhece precisa de ajuda, ligue para o número do CVV: 141 e procure ajuda especializada.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

A Um Ausente

 
Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.

Carlos Drummond de Andrade , "Farewell". Rio de Janeiro: Editora Record, 1996.




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quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O “Setembro Amarelo” Visto Por Quem Teve Uma Perda Para o Suicídio


Setembro foi e sempre será um dos meses mais difíceis do ano para mim. É o mês destinado à campanha Setembro Amarelo, que tem como principal objetivo a prevenção ao suicídio. Eu sou uma sobrevivente de uma perda para suicídio. Eu perdi meu pai ao suicídio em 20 de janeiro de 2000. Lembro-me daquele dia vividamente e, desde então, sua falta nunca permitiu eu me tornar uma pessoa completa.

Quando a minha sobrinha fez 8 anos, em junho, eu chorei. Eu chorei sabendo que ela havia chegado à mesma idade que eu tinha quando perdi meu pai. Ela é uma menina cheia de vida e amor. Certa vez eu fui aquela menina, tão inocente, mas com a partida de meu pai aquela menina desapareceu dentro de mim rapidamente.

Por muito tempo eu tenho me depreciado e venho me fazendo muito mal, por me sentir ainda traumatizada e esmagada pelo acontecimento. Assistir minha sobrinha, por sua vez, comemorar seus oito anos de aniversário foi difícil, mas ao mesmo tempo, era quase como se eu tivesse tido um despertar.

Foi então que eu finalmente percebi a força que tenho, a coragem que eu ganhei. Comecei a me dar créditos por estar atravessando essa tumultuosa tempestade da perda de alguém tão amado. Embora eu esteja ainda cheia de ansiedade e pânico, sofrendo até hoje os efeitos duradouros do trauma e muitas inseguranças, eu continuo a colocar um pé na frente do outro.

Eu sou um trabalho em progresso. Levei 16 anos para compreender como o trauma do suicídio de meu pai marcou-me de forma tão dura e tão difícil. Eu comecei a me dar crédito, porque no final de cada dia eu retorno para casa, e para mim. Já quanto à tempestade, eu pretendo continuar nadando através de suas ondas, não importa quão pesada elas sejam ou quão grande elas fiquem tentando me engolir por inteira.

Através de minha jornada de perder meu pai ao suicídio, descobri que muitas pessoas giram em torno do tema do suicídio. É grande o estigma do suicídio; é tabu falar sobre, e as pessoas muitas vezes se sentem desconfortáveis ​​quando se torna um tema de conversa. Mas o suicídio precisa sim ser um tema de conversas porque ele é uma epidemia; as taxas de suicídio subiram substancialmente nos últimos anos, e elas vão continuar a subir se aqueles que tem necessidade de ajuda não conseguem, por uma razão o outra, obterem a ajuda de que necessitam.

Vivemos em um mundo onde o julgamento é um tema comum, onde pessoas podem ser odiosas e maldosas umas com as outras e não sentirem nenhum remorso com isso. É difícil viver em um mundo onde as pessoas vomitam veneno e ódio. Por isso, preste atenção, quando você perguntar a alguém como está passando, quero dizer, na conversa comum do dia a dia: "Como você está?" "Como vai você?" Saiba que essas três palavras podem fazer uma diferença profunda na vida de uma pessoa que está presa numa grande batalha consigo mesma. Você pode não acreditar nisso, mas compaixão e bondade sempre triunfam sobre o ódio.

É muito importante abrir um diálogo que nos desperte para uma maior conscientização sobre o suicídio e sua prevenção. Não permaneça em silêncio sobre esse assunto. Recentemente, li um livro chamado "Razões Para Estar Vivo", de Matt Haig. Ele escreve: "A vida está esperando por você. Você pode se sentir preso aqui por um tempo, mas o mundo não vai a lugar nenhum. Vá se segurando. A vida sempre vale a pena. " O Mês da Prevenção do Suicídio é para nos ajudar a ir segurando as pontas e para pensarmos juntos sobre aquelas razões pelas quais a vida vale a pena, se você vem achando que ela não vale mais.

É um mês para as pessoas manterem um diálogo sobre o suicídio, para compartilhar suas histórias, para que os que vivenciam esse problema saibam que não estão sozinhos. Para ter certeza de que é possível encontrar ajuda. É só quando o diálogo começa, que é quando a verdadeira mudança ocorre.

Lembre-se sempre, não importa o quão escuro fique, não importa quanto tempo a travessia do túnel possa durar, você nunca está sozinho.




Se você ou alguém que você conhece precisa de ajuda, ligue para o número do CVV: 141 e procure ajuda especializada.



Texto original: A Suicide Loss Survivor's Challenge for Suicide Prevention Month By Kaley Brown / https://themighty.com/2016/09/september-suicide-prevention-month-and-what-it-means-to-me/

Tradução livre e adaptada