quarta-feira, 31 de maio de 2017

Por que luto apaixonadamente pela Prevenção do Suicídio?

"Se a vida de alguém é tão horrível a ponto de querer morrer, por que impedi-lo?"
Muitas vezes me fazem essa pergunta ou alguma variação desta questão. Pois bem, devo já ir dizendo que sou um apaixonado pela prevenção do suicídio. Eu sei que minha posição muitas vezes desencadeia a contrariedade de alguns que pensam que as pessoas deveriam ter o direito de acabar com sua própria vida sem interferência de outros bem-intencionados. Entretanto, em minha opinião, existem muitas razões para impedir alguém de suicídio.
O motivo mais importante para evitar o suicídio é que as crises suicidas, embora terríveis ​​e dolorosas, são quase sempre temporárias. Considere que 90% das pessoas que sobrevivem a uma tentativa de suicídio não morrerão por suicídio. Repito: 90% das pessoas que sobrevivem a uma tentativa de suicídio não virão a morrer por suicídio. Esse número é muito revelador. Mesmo entre as pessoas que desejaram morrer tão fortemente a ponto de tentar acabar com suas vidas, a maioria vai escolher viver.
Enquanto uma pessoa estiver viva, as coisas podem mudar para melhor. As situações mudam. E mesmo que sua situação externa seja imutável, é possível sim descobrir coisas que tornem sua vida digna de ser vivida. Existe sempre a possibilidade de encontrar formas de lidar com essa situação, ou é possível passar a apreciar coisas diferentes na vida. É possível até encontrar um propósito na vida que dê um significado a uma perda ou a um trauma sofrido.
Kevin Hines é um defensor da prevenção do suicídio que, anos atrás, saltou da Ponte Golden Gate, o local em que vem ocorrendo a cada ano a maioria dos suicídios nos Estados Unidos. A morte é quase certa quando se pula da ponte. É sabido que mais de 1.500 pessoas já pularam, e apenas 30 ou mais são conhecidas por terem sobrevivido. Então, quando Kevin pulou da Ponte Golden Gate, ele estava absolutamente decidido a morrer. E, no entanto, mesmo com essa intenção, no momento em que ele pulou da ponte, ele se arrependeu instantaneamente de sua decisão.
Sua experiência é uma das muita que ilustra que o desejo de morrer é fluido. Vem e vai. Vem e vai em graus variados. A grande maioria das pessoas que são salvas do suicídio ficam agradecidas, mais cedo ou mais tarde, por estarem vivas.
Outra razão importante para evitar o suicídio é porque, apesar do que afirmam os defensores do suicídio racional, em quase todos os casos, o suicídio é um ato decididamente irracional. A pesquisa indica consistentemente que 90% das pessoas que morrem por suicídio estavam com uma doença mental diagnosticável e possível de ser tratada no momento da morte. A doença mental distorce o pensamento. O que é ruim pode tornar-se bom e vice-versa. Muitas vezes, mas muitas vezes mesmo, quando a saúde mental de uma pessoa melhora, o desejo de morrer desaparece por completo.
Algumas pessoas contestam as altas estimativas de doenças mentais no suicídio. Mas ainda que presumamos que nem todos os que morrem pelo suicídio tenham uma doença mental, temos que considerar que outras coisas além da doença mental também podem distorcer profundamente o pensamento de alguém, como uso de substâncias, a privação de sono e uma experiência traumática.
Muitas pessoas que abordam essas questões reconhecem que também já consideraram seriamente o suicídio ou fizeram uma tentativa, mas atravessaram essa difícil fase e hoje se juntam, numa comunidade de esperança, para contar sobre isso.





Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste texto, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra.



Texto original:  Why Prevent Suicide? Here Are My Reasons. Written by  Stacey Freedenthal, PhD, LCSW  /  http://www.speakingofsuicide.com/2013/05/19/why-stop-someone-from-suicide/




Texto livremente traduzido e adaptado.



sexta-feira, 19 de maio de 2017

Carta de um psicólogo para uma pessoa suicida



Quando você vem me pedir ajuda, eu quero te ajudar.
E espero que você me deixe.
Eu não posso conhecer seus segredos sem que você me conte.
Espero que você me diga.
Fale pra mim, por favor, sobre seus pensamentos suicidas.

Você pode sentir medo de me dizer
Quando eu pergunto se você está pensando em suicídio.
Vou tentar te ajudar a se sentir seguro:
Eu não vou julgar você.
Não vou te interrogar.
Não vou entrar em pânico.
Eu escutarei suavemente enquanto você conta sua história
Em suas próprias palavras, no seu próprio tempo,
Do seu próprio modo.

O suicídio pode te dizer para não me dizer nada.
O suicídio pode dizer que eu sou seu inimigo.
O suicídio mente.
O suicídio pode dizer que ninguém poderá te ajudar,
Que morrer é a única maneira de acabar com sua dor.
O suicídio pode até dizer que você é uma pessoa inútil
Com defeitos, não merecendo a vida.
Não merecendo amor, ou esperança, ou compaixão.

Por favor, fale comigo.
Eu não posso ajudá-lo a lutar contra um inimigo
Se você não me falar sobre esse inimigo,
O inimigo que está tentando te matar.
Não confie em seus pensamentos suicidas.
Eles não são racionais.
São um sintoma, um sinal, um grito de dentro.
Algo  dentro de você precisa de cura.
Cura, não autoextermínio.

 Diga-me, por favor, o que o suicídio te diz.
Ele diz apenas o que está errado com sua vida?
Apenas o que há de errado com  você?
O suicídio tenta enganar a verdade,
Dizendo apenas as meias verdades que fazem você querer morrer
Escondendo as verdades que fazem você querer viver:
Os fragmentos de esperança.
Os caminhos para a cura.
As possibilidades.

Fale comigo, por favor.
Ou fale com outra pessoa.
Eu sou apenas uma das muitas pessoas que podem te ajudar.
Mas ninguém pode ajudar se você não falar com alguém.
Obrigado.
Um dia você vai agradecer, também.
Por falar.
Por sobreviver.

Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste texto, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra.

Texto original:  Letter from a Therapist to a Suicidal Person,  by   / http://www.speakingofsuicide.com/2014/05/01/letter/



Texto livremente traduzido e adaptado.

terça-feira, 9 de maio de 2017

O suicídio levou meu avô e meu pai. Por que não me levou também?

Em algumas famílias, um relógio é passado de pai para filho. Em outros, é a calvície que é passada. No caso de Josh Rivedal, foi o suicídio: seu avô tirou sua própria vida na década de 1960, embora isso nunca tenha sido conversado abertamente na família, e seu pai fez o mesmo em 2009. Dois anos mais tarde, o próprio Rivedal, agora com 30 anos, quase seguiu o mesmo destino.
Mas, embora triste e incomum, a história de Rivedal não é única. Vários estudos têm mostrado que aqueles cujos membros da família, particularmente os pais, se mataram são mais propensos a morrer da mesma maneira. Os homens também estão em risco muito maior de suicídio do que as mulheres: os números mostram, por exemplo, que 78% por cento de todos os suicídios na Inglaterra e no País de Gales são do sexo masculino e que o suicídio é hoje a principal causa de morte para homens entre 20-45 anos.
O que aconteceu para que Rivedal não tivesse o mesmo fim? O que fez para não sucumbir ao suicídio que levou seu avô e seu pai? Ele procurou ajuda! 
"Não foi muito tempo depois que meu pai morreu e as coisas ficarem realmente difíceis com minha mãe - ela estava tentando processar a mim e a meus irmãos por causa de nossa herança - e minha namorada de vários anos me deixou", disse Rivedal, que cresceu em Trenton, Nova Jersey, lembrando do ocorrido.
"Eu senti como se tivesse perdido três pessoas ao mesmo tempo e comecei a pensar em morrer."
Sempre que o assunto da morte de seu avô - um norueguês chamado Haakon que emigrou no início da Primeira Guerra Mundial e serviu na Royal Air Force na Segunda – surgia em casa, o pai de Rivedal dizia que tinha sido causado por ferimentos de estilhaços. Foi somente quando ele era um adolescente que sua mãe revelou que seu avô tinha tirado sua própria vida 20 anos após o fim da guerra, perto de seu aniversário de 50 anos.
"Eu me lembro de fazer os cálculos e pensar - que deveria ter sido algum estilhaço muito estranho, para matá-lo 20 anos depois. Acho que ele estava sofrendo de transtorno de estresse pós-traumático, mas nunca foi educado para procurar ajuda por causa de todo esse estigma de que homem não fala de seus problemas emocionais."
O pai de Rivedal tirou a própria vida pouco depois que sua esposa decidiu terminar seu casamento de 30 anos. "Quando eu perdi meu pai, acho que ele estava lidando com a perda de seu próprio pai, e o fato de nunca ter falado sobre isso."
A decisão de procurar ajuda, em vez de seguir o caminho do suicídio, foi parcialmente, diz Rivedal, devido à sua personalidade: uma rebeldia que o empurrou para longe de seguir o caminho previsto para ele por seus antecessores do sexo masculino.
Como diz o Dr. Max Mackay James, de 63 anos de idade, um médico britânico aposentado e fundador de uma organização para a saúde masculina, The Conscious Ageing Trust, cujo trabalho está sendo divulgado por Rivedal, essa diferença de comportamento reflete uma diferença de gerações:
"Para nossos avós e pais era impossível conversar sobre problemas emocionais, mas no mundo de Rivedal e no mundo de meus filhos não deve haver nenhuma vergonha em falar sobre depressão e suicídio."
O Dr. Mackay James tem também sua própria história familiar de suicídio: tanto seu avô, um veterano da Primeira Guerra Mundial, e seu irmão tiraram suas próprias vidas. "Meu avô, Fred, se matou em 1940, mas nunca falamos sobre isso, fomos informados de que ele era um herói de guerra. Meu irmão nasceu três anos depois e também foi chamado Fred.
"Quando você é um garoto, você pode sentir quando algo está errado, quando as pessoas estão se comportando estranhamente. Nós não sabíamos o que era, mas sabíamos que havia algo assustador em torno da morte de nosso avô. Havia um silêncio à sua volta, nenhuma capacidade de comunicar. Não sabíamos nada sobre depressão. Então, quando meu irmão morreu por suicídio - quando eu tinha 21 anos e ele tinha 28 anos - nenhum de nós sabia o que dizer. ”
Ele sugere que o suicídio ocorre em famílias principalmente por causa de "modelagem emocional", em vez de genética. "Os homens com os quais você cresce são o seu modelo para a masculinidade. Você aprende que tem que ser tudo ou nada. Você ou é um homem forte ou é um fracasso total. Se você está falhando, então você não é nada, essa é a mensagem. Que mensagem de merda. "
Rivedal concorda: por causa do exemplo estabelecido por seu pai e avô, ele chegou a pensar no suicídio como um "método de enfrentamento de problemas - mas certamente não é".
O Conscious Ageing Trust incentiva os homens acima da idade de 50 anos a falar sobre temas relacionados à morte, incluindo o suicídio. O recém-publicado livro de Rivedal, The Gospel According to Josh , e uma peça de teatro do mesmo nome, têm objetivos semelhantes , mas têm encontrado maior audiência entre estudantes e homens com idade em torno dos 20 anos.
"Você realmente não precisa ser um especialista para falar sobre isso", diz Mackay James. "Você apenas tem que dizer como isso está afetando você. Um dos grandes mitos é que falar sobre suicídio pode incentivar a morrer. Não! É exatamente o contrário, falar sobre suicídio te ajudará a superar uma situação de crise. "



Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste texto, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra e ligue para o número do CVV: 141.





Texto original: 'Suicide claimed my father and grandfather, and almost took me' By Theo Merz / http://www.telegraph.co.uk/men/thinking-man/11240273/Suicide-claimed-my-father-and-grandfather-and-almost-took-me.html



Texto livremente traduzido e adaptado.









sexta-feira, 14 de abril de 2017

Eu assisti '13 Reasons Why' e recomendo que você assista


A exibição pelo canal Netflix do seriado ‘13 Reasons Why’, já amplamente divulgado pelos meios de comunicação, gerou intensa polêmica com uma quase avalanche de artigos com opiniões de especialistas, ou não, sobre a validade da exibição, na forma como foi produzido e abordado o tema central da série: o suicídio de uma adolescente. E outra avalanche de comentários seguiram a publicação desses artigos, com pontos de vistas favoráveis ou contrários aos argumentos apresentados e defendidos nesses artigos.
Esse texto também defende um ponto de vista e me vi na obrigação de escrevê-lo para contrapor as ideias dos que foram contrários à exibição da série. Como um estudioso do tema do suicídio, como um psicólogo que em consultório atende preferencialmente pacientes com histórico de suicídio, por tentativas feitas ou mesmo ideação, por ser um dos administradores de uma página do facebook (https://www.facebook.com/PrevencaoDoSuicidioBrasil/) para onde convergimos a publicação de vários artigos sobre a série e recebemos inúmeros comentários e mensagens, nos caberia tomar uma posição.
Os contrários à exibição se baseiam num argumento central: o efeito Werter e a ideia de que pode funcionar como um gatilho para adolescentes, ou qualquer pessoa, mais fragilizados e que estejam vivenciando as questões abordadas na série. Enfim, a série teria o efeito de um perigoso e trágico contágio, estimulando outros ao suicídio e agudizando um problema que já é tão extremamente grave.
Meu Deus! Eu pergunto: O que pode ser mais grave do que está acontecendo hoje, aqui, agora? O que pode ser mais trágico do que um suicídio ocorrendo a cada 40 segundos e uma tentativa de suicídio a cada 3 segundos, no mundo? Isso se não levarmos em conta que as estatísticas que indicam causa morte de suicídio são bastante subestimadas. O que pode ser pior do que o suicídio ser a segunda causa de morte entre adolescentes e jovens na idade de 15 a 29 anos e a terceira causa de morte entre crianças de 10 a 14 anos?
Veja bem, são mães, pais, irmãos e irmãs, filhos e filhas, tios e tias, avós, amigos e amigas, pessoas, pessoas e pessoas e não números frios que se somam diariamente às estatísticas de suicídio. Ora, como podemos achar que a exibição de uma série de TV que cruamente, concordo, aborda o tema possa exercer o papel de tornar essa tragédia pior? Como podemos aceitar que essa situação possa ficar pior? COMO PODEMOS ACHAR QUE AINDA NÃO ESTAMOS NA PIOR?
Sim, é somente considerando que já estamos no fundo do poço e que já estamos no pior mundo possível quando se trata do problema do suicídio é que podemos partir para um outro enfrentamento da questão.
Até aqui todas as estratégias utilizadas mostram-se limitadas. “De fato, algum tipo de depressão é quase ubíquo naqueles que se matam. Cerca de 30 a 70% de pessoas que se matam são vítimas de distúrbio de ânimo. A taxa é até mesmo mais alta quando a depressão coexiste com o abuso de álcool e drogas. ” (Jamison, K. R., Quando a noite cai: entendendo o suicídio, Rio de Janeiro: Gryphus, 2002). Então, para um indivíduo com um diagnóstico de transtorno depressivo maior, apresentando alta ideação suicida, que chega ao psiquiatra e ao psicólogo para tratamento, como podemos resgatar novamente sua vontade de viver e ativar suas potencialidades de saúde?
Nossos arsenais de guerra montados com a artilharia clínica da medicação pesada e da psicoterapia, infelizmente, não têm tido grande alcance, e as estatísticas não negam essa afirmação. Então, se a guerra está sendo perdida não seria mais inteligente modificarmos essas estratégias de combate focada no tratamento, para uma outra focada mais intensamente na promoção e prevenção?
O dicionário Aurélio da língua portuguesa define a palavra promoção como: ato ou efeito de promover; elevação ou acesso a cargo ou categoria superior; e o termo promover: do latim, pro-movere, ir mais além, ir para a frente; impulsionar; acionar; dar impulso a; trabalhar a favor de; favorecer o progresso de; fazer avançar; fomentar.
Já a palavra saúde à compreenderemos de acordo como foi estabelecido pela Organização Mundial da Saúde em seu documento de criação, que definiu saúde como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não simplesmente como ausência de doenças ou enfermidades”. Unificando estas duas definições poderíamos conceituar, então, promoção da saúde como um processo de capacitação individual, que enfatiza o fomento dos recursos físicos, psicológicos, sociais e espirituais da pessoa em direção à integralidade de sua saúde.
O que quero dizer é que séries, filmes, vídeos, livros, páginas do facebook, campanhas na televisão, documentários, notícias, artigos que divulguem a temática do suicídio – sempre dentro da lógica expressa pela OMS que esclarece como o assunto deve ser veiculado na mídia, com bom senso ou com a consultoria de profissionais de saúde – devem ser sim sempre comemorados e bem-vindos. Séries com ‘13 Reasons Why’ podem funcionar muito bem dentro de uma estratégia de promoção da saúde e de fomento à prevenção do suicídio. É urgente que campanhas de conscientização, sensibilização e prevenção como é feito com assuntos como o abuso sexual infantil, acidentes de trânsito ou violência doméstica se façam também para o suicídio, e se multipliquem, ampliando o debate e conferindo maior visibilidade ao assunto.
"Essa série coloca o problema na sala de visita das famílias", diz Neury Botega, professor da Unicamp e um dos maiores estudiosos do assunto, embora tecendo algumas críticas, em uma entrevista para o jornal Folha de São Paulo. Ou seja, metaforicamente, retira o problema do suicídio do quarto sombrio onde se isolam os que sofrem para a conversa da sala de visitas. E isso é muito positivo.
Nós podemos criticar a série ’13 Reasons Why’ por suas falhas, que evidentemente existem. Nós podemos silenciar e podemos desviar o olhar. Podemos desviar o olhar e solicitar que outros também o desviem. Não assistam! Mas o suicídio que está lá sendo abordado não é apenas o enredo de uma ficção exibida numa série de televisão, é um enredo trágico que vem sendo repetido por pessoas reais, na vida real. E para o que acontece na vida real em nada contribuímos ou modificamos, desviando o nosso olhar.



Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste texto, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra e ligue para o número do CVV: 141.



sábado, 8 de abril de 2017

6 Razões porque não sou uma fã de '13 Reasons Why'


Para início de conversa devo dizer que sou alguém portadora de uma doença mental e uma sobrevivente de tentativa de suicídio. Atualmente, eu sou uma advogada atuante na área de saúde mental e futura clínica. Eu li o livro “Thirteen Reasons Why”, agora transformado em filme, quando tinha em torno de 14 anos, no começo do agravamento de meus quadros de depressão e pensamentos suicidas. Eu realmente não gostei da leitura naquela época e do filme também, agora.
Eu reconheço que essa história tem tocado muita gente e que tem fornecido conforto e consolo para alguns. Sei que muitas pessoas estão realmente apreciando a Série e incentivando outros a assisti-la e a ler o livro também. Compreendam que eu não quero desencorajar aos que estão encontrando no filme elementos que possam ajudá-los com seus próprios problemas, eu quero apenas esclarecer alguns pontos negativos que a Série contém.
1. Ele simplifica o suicídio e perpetua a ideia de que o suicídio de alguém tem um culpado.
Veja, todos nós somos afetados pelo que fazemos e pelo que nos acontece. E às vezes, o que nos acontece realmente é injusto, doloroso ou mesmo traumatizante. Não estou dizendo que essas coisas não importam, porque elas nos afetam sim. Quando confrontados com as coisas abordadas em '13 Reasons Why', como bullying, boatos maldosos e estupro, elas afetam violentamente a nossa saúde mental. Mas não podemos perpetuar a ideia de que há uma conexão direta e linear para o porquê de um suicídio acontecer, apontando os dedos para os colegas, pais ou outros indivíduos como diretamente responsáveis. Isso é prejudicial. O suicídio é uma questão complexa e não pode ser compreendido colocando o ônus exclusivamente sobre alguém. Às vezes, o suicídio não tem outra razão senão a depressão intensa ou outra doença mental como a esquizofrenia, transtorno de personalidade limítrofe ou transtorno bipolar. É perturbador ver um suicídio retratado querendo que os outros se sintam culpados, em vez de se concentrar nas emoções e pensamentos da pessoa e que a levaram a tirar sua vida.
2. Ele acrescenta combustível para a fogueira dos mitos suicidas, como "todo suicida é um egoísta".
As pessoas que acreditam nos mitos nocivos sobre o suicídio podem olhar para este filme e dizer que ele confirma ou é uma "prova” do seu ponto de vista. O fato de que Hannah, a garota que morre por suicídio na história, enviar fitas pré-gravadas detalhando as razões (tanto os eventos quanto as ações das pessoas) que a levaram ao suicídio são desconfortáveis. E deve ser. A moral da história é que precisamos reconhecer que a forma como tratamos as pessoas as afeta de maneiras que nem sequer sabemos. Isso é verdade. Mas o que é desconfortável é o suicídio de Hannah ser visto como uma maneira de expor o que as pessoas fizeram com ela. Isso é bastante prejudicial para ser feito postumamente, sugerindo que o suicídio era a única maneira de fazer sua voz ser ouvida.
3. Desvaloriza experiências de suicídio e intimidação.
Nós temos visto repetidamente histórias sobre bullying que conduzem ao suicídio, mas como exatamente isso ocorre? E qual mensagem essas histórias nos enviam? Experimentar bullying é traumático e cada indivíduo lida com a intimidação a sua própria maneira. Como diz a advogada de saúde mental e palestrante Alicia Raimundo: "sua experiência de bullying é válida mesmo se você nunca tivesse sido suicida e seus sentimentos de suicídio são válidos mesmo que você nunca tenha sofrido bullying". O bullying não causa suicídio diretamente. E a Série perpetua a falsa ideia de que o resultado normal para bullying pode ser o suicídio - o que simplesmente não é verdade. Isto não quer dizer que o bullying não afeta a saúde mental ou não tenha uma grande influência sobre alguém se tornar suicida.
 4. Desconsidera as diretrizes oficiais sobre informações seguras e responsáveis ​​sobre o suicídio.
Nós sabemos que Hannah morre por suicídio. É a premissa da história e revelada desde o início. A Série seria igualmente eficaz e impactante mesmo evitando mostrar o retrato gráfico e detalhado do suicídio de Hannah, no último capítulo. O que é uma violação direta do arco de pesquisas conduzido pela Fundação Americana para a Prevenção do Suicídio e outras organizações de prevenção do suicídio, quando eles consideram que: “O risco de suicídios adicionais aumenta quando a história descreve explicitamente o método do suicídio, usa manchetes dramáticas / gráficas ou imagens e a cobertura repetida / extensa sensacionalista ou glamoriza a morte".
 5. Não aborda a doença mental na adolescência.
Nem todos os que morrem por suicídio têm doença mental, mas um transtorno mental e / ou abuso de substâncias é encontrado em 90% das mortes por suicídio. E quando se trata de adolescentes, um em cada cinco tem (ou terá) uma grave doença mental. Com essas estatísticas em mente, não é de admirar que o suicídio seja a terceira causa de morte entre crianças de 10 a 14 anos de idade e a segunda entre jovens de 15 a 34 anos. Claramente, estas são questões importantes e que precisam ser abordadas. '13 Reasons Why' é um dos primeiros e mais populares retratos da mídia sobre o tema do suicídio na adolescência e não abordou em nenhum momento a questão da doença mental. Com isso se perdeu uma oportunidade crucial para discutir um assunto que afeta a vida de tantas crianças e adolescentes.
 6. Não há exemplo de busca de ajuda bem-sucedida.
Um tema em toda a história é o silêncio. Nenhum dos adolescentes fala com seus pais, professores, funcionários ou qualquer um, nem um ao outro sobre seus sentimentos. Quando Hannah estava contemplando o suicídio e preparando as fitas, ela fez "uma tentativa" para pedir ajuda. Procurou o conselheiro da escola e como ele não apresentou habilidade e sensibilidade para compreender o que estava acontecendo com ela, deixando-a ir embora sem ajuda, ficou a mensagem de que uma ajuda efetiva é inalcançável. Que há uma coisa como "tarde demais" para ser ajudado. Depois de seu suicídio, seus colegas também não receberam ajuda. Vários personagens experimentam uma grande dificuldade emocional em lidar com as fitas, mas quando os pais e professores pedem que se abram, eles se negam.
 Bem mais útil numa Série que aborda o suicídio, e para os adolescentes, seria mostrar como pedir ajuda, como tratamento e aconselhamento para suas questões emocionais estão disponíveis - não que todos venham a aceitar. "Estou bem" é a frase com que os adolescentes marcam o fim de suas conversas.
Queria que um único personagem permitisse alguém intervir para brilhar alguma luz, para ser uma imagem de esperança, o que poderia ajudar a transformar uma narrativa de desespero e silêncio para uma que encorajasse a conversa e busca de ajuda. E não precisaria ser um exemplo do que fazer, mas apenas do que não fazer. Quando apresentamos uma situação cheia de falhas sem que apontemos os devidos caminhos para a mudança, em nada estamos ajudando para que a situação se modifique.
Não interpretem que eu considere a Série e o livro como ruins. A história age como um poderoso aviso de que devemos sempre estar cientes de como nossas palavras e ações afetam os outros. É histórias como estas que me lembram do trabalho que precisa ser feito na mídia envolvendo advogados, especialistas e pessoas com experiência para garantir que estaremos apresentando histórias que precisam ser contadas da maneira mais responsável e eficaz possível, junto com uma clara representação de que é possível obter ajuda e como obter ajuda.

Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste texto, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra e ligue para o número do CVV: 141.

Texto original: 6 Reasons I'm Not a Fan of '13 Reasons Why' / https://themighty.com/2017/04/thirteen-reasons-why-jay-asher-suicide-problematic/ By Alyse Ruriani

 Texto livremente traduzido e adaptado.

domingo, 19 de março de 2017

A batalha de um psicólogo sobrevivente de tentativa de suicídio


O Dr. Bart Andrews tem uma das histórias mais empolgantes de alguém que eu conheço na luta pela prevenção do suicídio. Ele é um psicólogo talentoso, um batalhador enérgico de campanhas para a prevenção do suicídio e um sobrevivente de tentativa de suicídio.
Dr. Andrews e Sheila Hamilton, autores de “All the Things We Never Knew, Chasing the Chaos of Mental Illness, ” explicam os resultados de um novo relatório cujos dados demonstram aumentos das taxas de suicídio nos EUA ao longo de um período de 15 anos e que se acumulam para um aumento global indicando que o suicídio tem subido para os mais altos níveis nesses últimos 30 anos.
As taxas têm particularmente aumentado entre as mulheres e entre os americanos de meia-idade.
A taxa de suicídio de mulheres de meia-idade, entre 45 e 64 anos, saltou 63% durante o período do estudo (1999 -2014), enquanto aumentou 43% por cento para os homens nessa faixa etária, o maior aumento para os homens de qualquer idade. A taxa global de suicídio aumentou 24% entre 1999 e 2014, de acordo com o National Center for Health Statistics, que lançou o estudo.
A National Action Alliance for Suicide está desenvolvendo parcerias com líderes em todo o país para implementar estratégias de prevenção do suicídio. Muitos esforços de prevenção estão em curso para reduzir o suicídio através de contatos com as comunidades como de forma on-line também. 
 A Action Alliance nos lembra: Para cada pessoa que morre por suicídio, há aproximadamente 278 pessoas que tiveram pensamentos sérios sobre matar-se, e quase 60 que sobreviveram a uma tentativa de suicídio. Qual a mensagem mais importante desses números: A esmagadora maioria dos sobreviventes dão seguimento a suas vidas. Eles experimentam aterradores pensamentos suicidas e se recuperam e passam a viver suas vidas, muitas vezes de forma mais rica e gratificante. Precisamos nos concentrar mais nas histórias não contadas de recuperação e superação. Este é o trabalho do Dr. Bart Andrews e tantos defensores dedicados à prevenção do suicídio.


Para maiores informações:
http://actionallianceforsuicideprevention.org/sites/actionallianceforsuicideprevention.org/files/Action-Alliance-Response-to-CDC-Report-Final-2016-04-22.pdf
https://www.nytimes.com/2016/04/22/health/us-suicide-rate-surges-to-a-30-year- high.html?_r=1&utm_source=huffingtonpost.com&utm_medium=referral&utm_campaign=pubexchange_article


Texto original: A Psychologist/Suicide Attempt Survivor Reacts to New U.S. Suicide Stats. Disponível em: http://www.huffingtonpost.com/sheila-hamilton/a-psychologist-and-suicid_b_9769338.html


Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste texto, ligue para o número do CVV: 141 e, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra.