quinta-feira, 15 de junho de 2017

Como estão agora ?: O destino dos que sobreviveram a uma tentativa de suicídio

Kevin Hines

A Golden Gate Bridge é uma ponte localizada no estado da Califórnia, nos Estados Unidos que se notabilizou pela trágica fama de ser um local que muita gente procura para se suicidar. Pessoas que queiram morrer precisam, definitivamente, estar muito mal a ponto de recorrer a Golden Gate Bridge para saltar. 

Mas e se essas pessoas são impedidas de saltar? O que acontece com elas depois?
Você pode pensar que, uma vez libertos pelas autoridades que impediram seu suicídio na ponte, elas ainda viriam a tentar novamente o suicídio. Afinal, essas pessoas estavam decididas a morrer. Seria lógico então pensar que ser impedido de saltar simplesmente atrasou suas mortes.
O que você acha? Se teve tal suposição você está errado. Isso, errado!
Na década de 1970, um pesquisador chamado Richard Seiden resolveu investigar o que aconteceu com 515 pessoas que chegaram à Golden Gate Bridge para morrer nos 35 anos anteriores, mas que foram detidos pelos policiais da Patrulha Rodoviária da Califórnia. Ele publicou os resultados em um artigo intitulado  Where Are They Now?: A Follow-up Study of Suicide Attempters from the Golden Gate Bridge.”
O que o Dr. Seiden encontrou é um testemunho notável, e esperançoso, do fato de que uma crise suicida é frequentemente - muitas vezes - temporária.
Das 515 pessoas cuja tentativa foi interrompida, 35, de fato, vieram a morrer por suicídio. Considerando os relatos que os pesquisadores não incluíram, o Dr. Seiden afirmou que 90% das pessoas que tentaram saltar do Golden Gate Bridge não morreram por suicídio. 
O que outras pesquisas mostram?
Esta pesquisa, embora com 35 anos, ainda é verdadeira. Apesar de uma tentativa de suicídio anterior aumentar drasticamente o risco de suicídio futuro, os estudos demonstram que a maioria das pessoas que sobrevivem a uma tentativa de suicídio não morre por suicídio:
  • Em um estudo da Finlândia, de 224 pessoas que tentaram suicídio e foram atendidas em um centro de saúde, 8% morreram por suicídio dentro de 12 anos.
  • Pesquisadores da Suécia seguiram 34.219 pessoas que foram hospitalizadas após um ato de automutilação intencional. Durante 3 a 9 anos de seguimento, 3,5% morreram por suicídio.
  • Um estudo seguiu 100 pessoas que sobreviveram a uma tentativa de suicídio por overdose. No final do seguimento de 37 anos, 13% morreram por suicídio. (A taxa de mortalidade deste estudo é maior do que outros, quase certamente por causa do longo período de acompanhamento e da natureza séria da tentativa, o que justificou a admissão em um hospital).
  • No geral, uma revisão recente de 177 estudos de pesquisa em todo o mundo descobriu que 4% das pessoas que sobreviveram a um ferimento ou intoxicação intencionalmente provocados se suicidaram em 10 anos.
Por que eles decidiram ficar vivos?
Existem diferentes possíveis razões pelas quais as pessoas que tentam o suicídio, ou fazem tal tentativa, decidem escolher depois se manterem vivas. A razão mais intuitiva é que as crises suicidas são, por sua natureza, temporárias. Na grande maioria das vezes, a crise passa, e passa a vontade de tirar a própria vida.
Além disso, as pessoas que tentam o suicídio podem receber a ajuda de que precisam depois. Amigos e familiares podem se reunir ao seu lado. Terapeutas e médicos podem ajudar a fornecer alívio. Os motivos da pessoa para morrer podem começar a desaparecer.
Outra possibilidade é que o instinto de viver passa a falar mais alto quando alguém se aproxima realmente da morte. Até então, esse instinto pode ter sido obscurecido e quase que anulado pela depressão, estresse, desesperança ou desespero.
O Instinto de Viver
A história de Kevin Hines demonstra com clareza como a vontade de viver pode aparecer quando a vida de alguém está próximo da morte. Em 2000, ele realmente saltou da Golden Gate Bridge. Poucas pessoas sobrevivem a uma tal queda. A água cerca de 200 metros abaixo age da mesma forma que o concreto quando uma pessoa cai sobre ela em alta velocidade.
Embora a depressão grave por que passava o tenha levado saltar da ponte, Kevin Hines afirmou :
"No segundo momento que eu soltei, eu sabia que cometi um grande erro".
Para Kevin Hines, a vontade de viver surgiu no exato momento em que saltou. Ele conseguiu se endireitar nos poucos segundos que demorou para ele bater na água e desta forma evitou bater de cabeça. Depois que ele foi resgatado, ele continuou a viver, e vive ainda, servindo como um ardoroso defensor da prevenção do suicídio a nível nacional.
Lições de Vida
Obviamente, e infelizmente, a vontade de viver não se reafirma em todos os que tentam morrer. Não podemos ignorar que 10% das pessoas que sobrevivem a uma tentativa de suicídio continuam a morrer por suicídio.  E para mais de metade das pessoas que morrem por suicídio, o ato fatal foi mesmo a primeira tentativa de morte.  
A tragédia do suicídio é indiscutível. A sobrevivência dos que fazem uma tentativa de suicídio nem sempre acontece.
No entanto, me dá grande esperança saber que a grande maioria dos sobreviventes de tentativa de suicídio permaneça sendo apenas isso - sobreviventes.  Este é talvez o melhor argumento para prevenir o suicídio. É verdade que o suicídio às vezes desafia mesmo os melhores esforços para combatê-lo . Mas, em geral, a evidência é que evitar o suicídio e a prevenção não é simplesmente um atraso temporário da morte.
A prevenção do suicídio pode salvar vidas. E para a maioria daqueles cujas vidas foram salvas, a vida continua por muitos e muitos anos.





Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste texto, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra e ligue para o número do CVV: 141.



Texto original:  Where Are They Now?: The Fate of Suicide Attempt Survivors. Escrito por   / http://www.speakingofsuicide.com/2013/07/05/suicide-attempt-survivors/




Texto livremente traduzido e adaptado.


quarta-feira, 31 de maio de 2017

Por que luto apaixonadamente pela Prevenção do Suicídio?

"Se a vida de alguém é tão horrível a ponto de querer morrer, por que impedi-lo?"
Muitas vezes me fazem essa pergunta ou alguma variação desta questão. Pois bem, devo já ir dizendo que sou um apaixonado pela prevenção do suicídio. Eu sei que minha posição muitas vezes desencadeia a contrariedade de alguns que pensam que as pessoas deveriam ter o direito de acabar com sua própria vida sem interferência de outros bem-intencionados. Entretanto, em minha opinião, existem muitas razões para impedir alguém de suicídio.
O motivo mais importante para evitar o suicídio é que as crises suicidas, embora terríveis ​​e dolorosas, são quase sempre temporárias. Considere que 90% das pessoas que sobrevivem a uma tentativa de suicídio não morrerão por suicídio. Repito: 90% das pessoas que sobrevivem a uma tentativa de suicídio não virão a morrer por suicídio. Esse número é muito revelador. Mesmo entre as pessoas que desejaram morrer tão fortemente a ponto de tentar acabar com suas vidas, a maioria vai escolher viver.
Enquanto uma pessoa estiver viva, as coisas podem mudar para melhor. As situações mudam. E mesmo que sua situação externa seja imutável, é possível sim descobrir coisas que tornem sua vida digna de ser vivida. Existe sempre a possibilidade de encontrar formas de lidar com essa situação, ou é possível passar a apreciar coisas diferentes na vida. É possível até encontrar um propósito na vida que dê um significado a uma perda ou a um trauma sofrido.
Kevin Hines é um defensor da prevenção do suicídio que, anos atrás, saltou da Ponte Golden Gate, o local em que vem ocorrendo a cada ano a maioria dos suicídios nos Estados Unidos. A morte é quase certa quando se pula da ponte. É sabido que mais de 1.500 pessoas já pularam, e apenas 30 ou mais são conhecidas por terem sobrevivido. Então, quando Kevin pulou da Ponte Golden Gate, ele estava absolutamente decidido a morrer. E, no entanto, mesmo com essa intenção, no momento em que ele pulou da ponte, ele se arrependeu instantaneamente de sua decisão.
Sua experiência é uma das muita que ilustra que o desejo de morrer é fluido. Vem e vai. Vem e vai em graus variados. A grande maioria das pessoas que são salvas do suicídio ficam agradecidas, mais cedo ou mais tarde, por estarem vivas.
Outra razão importante para evitar o suicídio é porque, apesar do que afirmam os defensores do suicídio racional, em quase todos os casos, o suicídio é um ato decididamente irracional. A pesquisa indica consistentemente que 90% das pessoas que morrem por suicídio estavam com uma doença mental diagnosticável e possível de ser tratada no momento da morte. A doença mental distorce o pensamento. O que é ruim pode tornar-se bom e vice-versa. Muitas vezes, mas muitas vezes mesmo, quando a saúde mental de uma pessoa melhora, o desejo de morrer desaparece por completo.
Algumas pessoas contestam as altas estimativas de doenças mentais no suicídio. Mas ainda que presumamos que nem todos os que morrem pelo suicídio tenham uma doença mental, temos que considerar que outras coisas além da doença mental também podem distorcer profundamente o pensamento de alguém, como uso de substâncias, a privação de sono e uma experiência traumática.
Muitas pessoas que abordam essas questões reconhecem que também já consideraram seriamente o suicídio ou fizeram uma tentativa, mas atravessaram essa difícil fase e hoje se juntam, numa comunidade de esperança, para contar sobre isso.





Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste texto, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra.



Texto original:  Why Prevent Suicide? Here Are My Reasons. Written by  Stacey Freedenthal, PhD, LCSW  /  http://www.speakingofsuicide.com/2013/05/19/why-stop-someone-from-suicide/




Texto livremente traduzido e adaptado.



sexta-feira, 19 de maio de 2017

Carta de um psicólogo para uma pessoa suicida



Quando você vem me pedir ajuda, eu quero te ajudar.
E espero que você me deixe.
Eu não posso conhecer seus segredos sem que você me conte.
Espero que você me diga.
Fale pra mim, por favor, sobre seus pensamentos suicidas.

Você pode sentir medo de me dizer
Quando eu pergunto se você está pensando em suicídio.
Vou tentar te ajudar a se sentir seguro:
Eu não vou julgar você.
Não vou te interrogar.
Não vou entrar em pânico.
Eu escutarei suavemente enquanto você conta sua história
Em suas próprias palavras, no seu próprio tempo,
Do seu próprio modo.

O suicídio pode te dizer para não me dizer nada.
O suicídio pode dizer que eu sou seu inimigo.
O suicídio mente.
O suicídio pode dizer que ninguém poderá te ajudar,
Que morrer é a única maneira de acabar com sua dor.
O suicídio pode até dizer que você é uma pessoa inútil
Com defeitos, não merecendo a vida.
Não merecendo amor, ou esperança, ou compaixão.

Por favor, fale comigo.
Eu não posso ajudá-lo a lutar contra um inimigo
Se você não me falar sobre esse inimigo,
O inimigo que está tentando te matar.
Não confie em seus pensamentos suicidas.
Eles não são racionais.
São um sintoma, um sinal, um grito de dentro.
Algo  dentro de você precisa de cura.
Cura, não autoextermínio.

 Diga-me, por favor, o que o suicídio te diz.
Ele diz apenas o que está errado com sua vida?
Apenas o que há de errado com  você?
O suicídio tenta enganar a verdade,
Dizendo apenas as meias verdades que fazem você querer morrer
Escondendo as verdades que fazem você querer viver:
Os fragmentos de esperança.
Os caminhos para a cura.
As possibilidades.

Fale comigo, por favor.
Ou fale com outra pessoa.
Eu sou apenas uma das muitas pessoas que podem te ajudar.
Mas ninguém pode ajudar se você não falar com alguém.
Obrigado.
Um dia você vai agradecer, também.
Por falar.
Por sobreviver.

Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste texto, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra.

Texto original:  Letter from a Therapist to a Suicidal Person,  by   / http://www.speakingofsuicide.com/2014/05/01/letter/



Texto livremente traduzido e adaptado.

terça-feira, 9 de maio de 2017

O suicídio levou meu avô e meu pai. Por que não me levou também?

Em algumas famílias, um relógio é passado de pai para filho. Em outros, é a calvície que é passada. No caso de Josh Rivedal, foi o suicídio: seu avô tirou sua própria vida na década de 1960, embora isso nunca tenha sido conversado abertamente na família, e seu pai fez o mesmo em 2009. Dois anos mais tarde, o próprio Rivedal, agora com 30 anos, quase seguiu o mesmo destino.
Mas, embora triste e incomum, a história de Rivedal não é única. Vários estudos têm mostrado que aqueles cujos membros da família, particularmente os pais, se mataram são mais propensos a morrer da mesma maneira. Os homens também estão em risco muito maior de suicídio do que as mulheres: os números mostram, por exemplo, que 78% por cento de todos os suicídios na Inglaterra e no País de Gales são do sexo masculino e que o suicídio é hoje a principal causa de morte para homens entre 20-45 anos.
O que aconteceu para que Rivedal não tivesse o mesmo fim? O que fez para não sucumbir ao suicídio que levou seu avô e seu pai? Ele procurou ajuda! 
"Não foi muito tempo depois que meu pai morreu e as coisas ficarem realmente difíceis com minha mãe - ela estava tentando processar a mim e a meus irmãos por causa de nossa herança - e minha namorada de vários anos me deixou", disse Rivedal, que cresceu em Trenton, Nova Jersey, lembrando do ocorrido.
"Eu senti como se tivesse perdido três pessoas ao mesmo tempo e comecei a pensar em morrer."
Sempre que o assunto da morte de seu avô - um norueguês chamado Haakon que emigrou no início da Primeira Guerra Mundial e serviu na Royal Air Force na Segunda – surgia em casa, o pai de Rivedal dizia que tinha sido causado por ferimentos de estilhaços. Foi somente quando ele era um adolescente que sua mãe revelou que seu avô tinha tirado sua própria vida 20 anos após o fim da guerra, perto de seu aniversário de 50 anos.
"Eu me lembro de fazer os cálculos e pensar - que deveria ter sido algum estilhaço muito estranho, para matá-lo 20 anos depois. Acho que ele estava sofrendo de transtorno de estresse pós-traumático, mas nunca foi educado para procurar ajuda por causa de todo esse estigma de que homem não fala de seus problemas emocionais."
O pai de Rivedal tirou a própria vida pouco depois que sua esposa decidiu terminar seu casamento de 30 anos. "Quando eu perdi meu pai, acho que ele estava lidando com a perda de seu próprio pai, e o fato de nunca ter falado sobre isso."
A decisão de procurar ajuda, em vez de seguir o caminho do suicídio, foi parcialmente, diz Rivedal, devido à sua personalidade: uma rebeldia que o empurrou para longe de seguir o caminho previsto para ele por seus antecessores do sexo masculino.
Como diz o Dr. Max Mackay James, de 63 anos de idade, um médico britânico aposentado e fundador de uma organização para a saúde masculina, The Conscious Ageing Trust, cujo trabalho está sendo divulgado por Rivedal, essa diferença de comportamento reflete uma diferença de gerações:
"Para nossos avós e pais era impossível conversar sobre problemas emocionais, mas no mundo de Rivedal e no mundo de meus filhos não deve haver nenhuma vergonha em falar sobre depressão e suicídio."
O Dr. Mackay James tem também sua própria história familiar de suicídio: tanto seu avô, um veterano da Primeira Guerra Mundial, e seu irmão tiraram suas próprias vidas. "Meu avô, Fred, se matou em 1940, mas nunca falamos sobre isso, fomos informados de que ele era um herói de guerra. Meu irmão nasceu três anos depois e também foi chamado Fred.
"Quando você é um garoto, você pode sentir quando algo está errado, quando as pessoas estão se comportando estranhamente. Nós não sabíamos o que era, mas sabíamos que havia algo assustador em torno da morte de nosso avô. Havia um silêncio à sua volta, nenhuma capacidade de comunicar. Não sabíamos nada sobre depressão. Então, quando meu irmão morreu por suicídio - quando eu tinha 21 anos e ele tinha 28 anos - nenhum de nós sabia o que dizer. ”
Ele sugere que o suicídio ocorre em famílias principalmente por causa de "modelagem emocional", em vez de genética. "Os homens com os quais você cresce são o seu modelo para a masculinidade. Você aprende que tem que ser tudo ou nada. Você ou é um homem forte ou é um fracasso total. Se você está falhando, então você não é nada, essa é a mensagem. Que mensagem de merda. "
Rivedal concorda: por causa do exemplo estabelecido por seu pai e avô, ele chegou a pensar no suicídio como um "método de enfrentamento de problemas - mas certamente não é".
O Conscious Ageing Trust incentiva os homens acima da idade de 50 anos a falar sobre temas relacionados à morte, incluindo o suicídio. O recém-publicado livro de Rivedal, The Gospel According to Josh , e uma peça de teatro do mesmo nome, têm objetivos semelhantes , mas têm encontrado maior audiência entre estudantes e homens com idade em torno dos 20 anos.
"Você realmente não precisa ser um especialista para falar sobre isso", diz Mackay James. "Você apenas tem que dizer como isso está afetando você. Um dos grandes mitos é que falar sobre suicídio pode incentivar a morrer. Não! É exatamente o contrário, falar sobre suicídio te ajudará a superar uma situação de crise. "



Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste texto, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra e ligue para o número do CVV: 141.





Texto original: 'Suicide claimed my father and grandfather, and almost took me' By Theo Merz / http://www.telegraph.co.uk/men/thinking-man/11240273/Suicide-claimed-my-father-and-grandfather-and-almost-took-me.html



Texto livremente traduzido e adaptado.









sexta-feira, 14 de abril de 2017

Eu assisti '13 Reasons Why' e recomendo que você assista


A exibição pelo canal Netflix do seriado ‘13 Reasons Why’, já amplamente divulgado pelos meios de comunicação, gerou intensa polêmica com uma quase avalanche de artigos com opiniões de especialistas, ou não, sobre a validade da exibição, na forma como foi produzido e abordado o tema central da série: o suicídio de uma adolescente. E outra avalanche de comentários seguiram a publicação desses artigos, com pontos de vistas favoráveis ou contrários aos argumentos apresentados e defendidos nesses artigos.
Esse texto também defende um ponto de vista e me vi na obrigação de escrevê-lo para contrapor as ideias dos que foram contrários à exibição da série. Como um estudioso do tema do suicídio, como um psicólogo que em consultório atende preferencialmente pacientes com histórico de suicídio, por tentativas feitas ou mesmo ideação, por ser um dos administradores de uma página do facebook (https://www.facebook.com/PrevencaoDoSuicidioBrasil/) para onde convergimos a publicação de vários artigos sobre a série e recebemos inúmeros comentários e mensagens, nos caberia tomar uma posição.
Os contrários à exibição se baseiam num argumento central: o efeito Werter e a ideia de que pode funcionar como um gatilho para adolescentes, ou qualquer pessoa, mais fragilizados e que estejam vivenciando as questões abordadas na série. Enfim, a série teria o efeito de um perigoso e trágico contágio, estimulando outros ao suicídio e agudizando um problema que já é tão extremamente grave.
Meu Deus! Eu pergunto: O que pode ser mais grave do que está acontecendo hoje, aqui, agora? O que pode ser mais trágico do que um suicídio ocorrendo a cada 40 segundos e uma tentativa de suicídio a cada 3 segundos, no mundo? Isso se não levarmos em conta que as estatísticas que indicam causa morte de suicídio são bastante subestimadas. O que pode ser pior do que o suicídio ser a segunda causa de morte entre adolescentes e jovens na idade de 15 a 29 anos e a terceira causa de morte entre crianças de 10 a 14 anos?
Veja bem, são mães, pais, irmãos e irmãs, filhos e filhas, tios e tias, avós, amigos e amigas, pessoas, pessoas e pessoas e não números frios que se somam diariamente às estatísticas de suicídio. Ora, como podemos achar que a exibição de uma série de TV que cruamente, concordo, aborda o tema possa exercer o papel de tornar essa tragédia pior? Como podemos aceitar que essa situação possa ficar pior? COMO PODEMOS ACHAR QUE AINDA NÃO ESTAMOS NA PIOR?
Sim, é somente considerando que já estamos no fundo do poço e que já estamos no pior mundo possível quando se trata do problema do suicídio é que podemos partir para um outro enfrentamento da questão.
Até aqui todas as estratégias utilizadas mostram-se limitadas. “De fato, algum tipo de depressão é quase ubíquo naqueles que se matam. Cerca de 30 a 70% de pessoas que se matam são vítimas de distúrbio de ânimo. A taxa é até mesmo mais alta quando a depressão coexiste com o abuso de álcool e drogas. ” (Jamison, K. R., Quando a noite cai: entendendo o suicídio, Rio de Janeiro: Gryphus, 2002). Então, para um indivíduo com um diagnóstico de transtorno depressivo maior, apresentando alta ideação suicida, que chega ao psiquiatra e ao psicólogo para tratamento, como podemos resgatar novamente sua vontade de viver e ativar suas potencialidades de saúde?
Nossos arsenais de guerra montados com a artilharia clínica da medicação pesada e da psicoterapia, infelizmente, não têm tido grande alcance, e as estatísticas não negam essa afirmação. Então, se a guerra está sendo perdida não seria mais inteligente modificarmos essas estratégias de combate focada no tratamento, para uma outra focada mais intensamente na promoção e prevenção?
O dicionário Aurélio da língua portuguesa define a palavra promoção como: ato ou efeito de promover; elevação ou acesso a cargo ou categoria superior; e o termo promover: do latim, pro-movere, ir mais além, ir para a frente; impulsionar; acionar; dar impulso a; trabalhar a favor de; favorecer o progresso de; fazer avançar; fomentar.
Já a palavra saúde à compreenderemos de acordo como foi estabelecido pela Organização Mundial da Saúde em seu documento de criação, que definiu saúde como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não simplesmente como ausência de doenças ou enfermidades”. Unificando estas duas definições poderíamos conceituar, então, promoção da saúde como um processo de capacitação individual, que enfatiza o fomento dos recursos físicos, psicológicos, sociais e espirituais da pessoa em direção à integralidade de sua saúde.
O que quero dizer é que séries, filmes, vídeos, livros, páginas do facebook, campanhas na televisão, documentários, notícias, artigos que divulguem a temática do suicídio – sempre dentro da lógica expressa pela OMS que esclarece como o assunto deve ser veiculado na mídia, com bom senso ou com a consultoria de profissionais de saúde – devem ser sim sempre comemorados e bem-vindos. Séries com ‘13 Reasons Why’ podem funcionar muito bem dentro de uma estratégia de promoção da saúde e de fomento à prevenção do suicídio. É urgente que campanhas de conscientização, sensibilização e prevenção como é feito com assuntos como o abuso sexual infantil, acidentes de trânsito ou violência doméstica se façam também para o suicídio, e se multipliquem, ampliando o debate e conferindo maior visibilidade ao assunto.
"Essa série coloca o problema na sala de visita das famílias", diz Neury Botega, professor da Unicamp e um dos maiores estudiosos do assunto, embora tecendo algumas críticas, em uma entrevista para o jornal Folha de São Paulo. Ou seja, metaforicamente, retira o problema do suicídio do quarto sombrio onde se isolam os que sofrem para a conversa da sala de visitas. E isso é muito positivo.
Nós podemos criticar a série ’13 Reasons Why’ por suas falhas, que evidentemente existem. Nós podemos silenciar e podemos desviar o olhar. Podemos desviar o olhar e solicitar que outros também o desviem. Não assistam! Mas o suicídio que está lá sendo abordado não é apenas o enredo de uma ficção exibida numa série de televisão, é um enredo trágico que vem sendo repetido por pessoas reais, na vida real. E para o que acontece na vida real em nada contribuímos ou modificamos, desviando o nosso olhar.



Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste texto, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra e ligue para o número do CVV: 141.