segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Estes calçados representam crianças que se suicidaram em 2017


226 pares de calçados foram colocados na escadaria deste pavilhão em Liverpool, representando as crianças que se suicidaram em 2017.

Uma instituição de caridade exibiu centenas de calçados de crianças nas escadarias de um salão de eventos com a finalidade de aumentar a conscientização sobre a prevalência do suicídio infantil no Reino Unido.
A Chasing the Stigma é uma instituição de caridade baseada em Liverpool, cujo principal objetivo é combater o estigma que cerca as doenças mentais.

A organização colaborou com a estação de rádio local Radio City Talk para montar um quadro que chamasse a atenção para o grande número de vidas de crianças que são perdidas para o suicídio todos os anos.
Trabalhando ao lado de outras instituições de cuidados em saúde mental, incluindo Papyrus e a Fundação Oscar Phillips, Chasing the Stigma colocou 226 pares de calçados nos degraus do St George's Hall, no centro de Liverpool.
Cada par de calçado representa uma das vidas, de uma criança, que foram perdidas para o suicídio em 2017.
A ação aconteceu na Semana da Saúde Mental Infantil, entre os dias 4 a 10 de fevereiro deste ano.
"As estatísticas são de partir o coração, mas muitas pessoas não estão cientes dos números ou da realidade que esses números implicam", diz Jake Mills, fundador da Chasing the Stigma. "Por trás de toda estatística está uma vida desnecessariamente e tragicamente perdida." 
"Queríamos transmitir isso e decidimos usar os sapatos como uma representação visual dessas vidas."
Todos os calçados usados ​​na exposição foram doados para a instituição. Numerosas pessoas elogiaram a organização por criar essa impactante campanha.
"É algo realmente horrível quando mostrado com tanta nitidez", escreveu uma pessoa no Facebook.
"Isso me deu arrepios. É muito triste que uma criança possa se sentir assim", acrescentou outra pessoa.



Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste texto, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra e ligue para o número do CVV: 188.



Texto original: CHARITY DISPLAYS HUNDREDS OF SHOES TO RAISE AWARENESS OF CHILD SUICIDE. By sabrina Barr    https://www.independent.co.uk/life-style/health-and-families/child-suicide-charity-campaign-shoes-chasing-stigma-radio-city-talk-liverpool-a8767611.html.
 Texto livremente traduzido e adaptado





domingo, 10 de fevereiro de 2019

Por que temos mais suicídios se temos mais psiquiatras e psicólogos?


Têm sido publicados recentemente alguns artigos que levantam muitas questões interessantes e que compartilham a mesma pergunta: Por que o aumento dos serviços de saúde mental não tem reduzido a prevalência de transtornos mentais? Não tenho as respostas para todas essas perguntas, mas posso fazer algumas reflexões sobre os problemas que surgem com base na pesquisa, na experiência clínica e na realidade cotidiana do meu trabalho como psiquiatra.
O primeiro é um pequeno artigo de opinião publicado no Australian & New Zealand Journal of Psychiatry , onde Roger Mulder, Julia Rucklidge e Sam Wilkinson argumentam que os países desenvolvidos enfrentam um dilema: eles têm aumentado os seus recursos direcionados para tratar problemas mentais, mas as taxas referentes ao estresse psicológico da população está piorando. Na Nova Zelândia, por exemplo, o investimento em saúde mental aumentou de 1,1 bilhões de dólares neozelandeses em 2008/2009 para perto de 4 bilhões em 2015/2016. O número de psiquiatras e psicólogos praticamente dobrou de 2005 a 2015 e mais pessoas do que nunca estão recebendo tratamento para seus problemas mentais. As prescrições de antidepressivos e antipsicóticos aumentaram mais de 50% e há mais pessoas medicadas do que nunca.
Mas, apesar desse esforço, certas medidas objetivas de saúde mental não melhoraram, ao contrário, até se agravaram. Segundo as pesquisas, o número de crianças que sofrem de transtornos psiquiátricos mais do que dobrou entre 2008 e 2013. O percentual da população que sofre estresse psicológico passou de 4,5% em 2011 para 6,8% em 2016. Como fator de incapacitação no trabalho as doenças mentais multiplicaram-se por quatro entre 1991 e 2011 e a taxa de suicídio continua alta.

O MODELO BIOMÉDICO ESTÁ ESQUECENDO OUTROS FATORES COMO A DESIGUALDADE ECONÔMICA, DESEMPREGO, PRECONCEITOS E VALORES COMPETITIVOS E MATERIALISTAS QUE AUMENTAM A DOENÇA MENTAL

Esses dados levam a uma pergunta óbvia: se as formas atuais de tratamentos são, de fato, eficazes, sua ampliação não deveria diminuir esses índices (estresse psicológico, suicídios, etc.)? Como parece que este não é o caso, é razoável continuar fazendo mais do mesmo? É uma boa ideia capacitar mais pessoal na área de saúde mental, prescrever mais tratamentos e aumentar os serviços? Existem tratamentos que funcionam em estudos controlados, mas não parecem funcionar em nível comunitário. Há quadros sintomáticos que não são doenças e são superdiagnosticados e as doenças mais graves são deixadas sem tratamento, onde será que o tratamento poderia ser mais eficaz? O tratamento é de má qualidade? Os tratamentos são aplicados tarde demais? As coisas ficariam muito piores sem esse crescente investimento em saúde mental?
De acordo com os autores, e eu concordo com eles, esses dados exigem que paremos para pensar e refletir sobre o modelo de serviço que temos e considerar se ele não estará causando danos em determinadas áreas. É possível que obter mais do que precisamos seja fazer menos, não mais. Igualmente, o modelo biomédico está esquecendo outros fatores, como a desigualdade econômica, o desemprego, os preconceitos e os valores competitivos e materialistas que aumentam a doença mental. Segundo os autores, precisaríamos de uma visão que vá além de dar mais tratamento. É preciso prover as necessidades básicas da vida diária e propor a modificação de fatores como comportamento familiar, na escola e no trabalho, na dieta alimentar no e estilo de vida.
Estou de acordo com o que os autores propõem e vou traçar um paralelo com outra doença médica crônica, o diabetes, para nos ajudar a entender que esses dados, que parecem paradoxais, são muito parecidos. Vamos nos fazer a mesma pergunta: o aumento de suprimento de medicamentos antidiabéticos diminuiu a prevalência de diabetes? Esta é a evolução das vendas de antidiabéticos nos EUA:
 De acordo com a Federação Internacional de Diabetes estima-se que a prevalência de diabetes vai passar de 366 milhões em 2011 para 552 milhões de pessoas em 2030. Como vemos o tratamento do diabetes não parece estar diminuindo a prevalência de diabetes.
E qual é a explicação? Gostaria de salientar dois aspectos:
1   1 Nosso estilo de vida é diabetogênico, não nos exercitamos, não seguimos uma dieta adequada, etc.
2    2Os tratamentos não são curativos, mas sim sintomáticos, ou seja, tratam ou melhoram a doença, mas não a curam.
Acontece a mesma coisa nos transtornos mentais? Eu acho que sim:
Nosso estilo de vida é depressogênico.
Os tratamentos psiquiátricos (antidepressivos, antipsicóticos, ansiolíticos ...) são eficazes enquanto são tomados, mas seu efeito desaparece quando são abandonados. Eles tratam, mas não curam.
Por que nosso estilo de vida é depressogênico? Porque, como dizem os autores, há desigualdade econômica, muito estresse e pressão no ambiente de trabalho e em todos os níveis. Nossos valores são competitivos e materialistas e, por outro lado, reduziu o apoio social apreciado no passado pelas pessoas: a família numerosa, o padre da paróquia e a religião, o número de pessoas que vivem sozinhas aumenta aos trancos e barrancos em países desenvolvido, etc.

O PROBLEMA NÃO ESTÁ NA CABEÇA DAS PESSOAS, O PROBLEMA ESTÁ NO MUNDO EM QUE AS PESSOAS ESTÃO VIVENDO

Este estilo de vida diabetogênico e deprimente está levando mais e mais pessoas a procurar os endocrinologistas e psiquiatras e psicólogos. Nem tratamentos psiquiátricos nem psicológicos podem parar essa avalanche, eles podem aliviar e tratar os sintomas, mas eles não podem mudar o mundo lá fora. O problema não está na cabeça das pessoas, o problema está no mundo em que as pessoas estão vivendo (falo dos quadros adaptativos mais leves, não penso o mesmo de doenças psiquiátricas graves).

O segundo artigo é  de Robert Whitaker, autor do livro Anatomia de uma Epidemia, intitulado Suicide in the Age of Prozac . O artigo faz perguntas como se há uma epidemia de suicídio nos Estados Unidos, se as campanhas de prevenção de suicídio funcionam e se os antidepressivos reduzem o risco de suicídio. A resposta para a primeira pergunta é que não há uma epidemia de suicídio nos EUA. Se olharmos para uma longa série histórica, a proporção de suicídios nos EUA em 1950 foi de 13,2 / 100.000 e em 2015 foi de 13,3 / 100.000, então em linhas gerais permaneceu estável. Parece haver uma tendência de queda até o ano 2000 e depois sobe novamente para o mesmo nível. Em relação à eficácia dos programas de prevenção do suicídio, eles começaram aproximadamente no ano 2000 e desde então tem havido um aumento na taxa de suicídio, de modo que parece não haver uma influência. Quanto a se os antidepressivos reduziram os índices de suicídio, isso não é confirmado, embora eu ache que os dados não endossem.


Whitaker analisa se o aumento nos serviços e recursos em saúde mental diminuiram o suicídio. E para isso, concentra-se em três tipos de indicadores:
1. A eficácia das políticas, programas e legislação de saúde: conclui com base nos estudos de Rajklumar et al., que os países com melhores serviços psiquiátricos e um maior número de psiquiatras e leitos psiquiátricos têm uma taxa maior de suicídio.
2. O risco de suicídio em pacientes que recebem tratamento psiquiátrico: conclui que quanto maior o nível de tratamento psiquiátrico, maior o risco de suicídio.
3. O impacto dos antidepressivos.  Aqui ele revisa estudos controlados com placebo, estudos epidemiológicos e estudos ecológicos e conclui que existe uma correlação entre o aumento de suicídios no período 2000-2016 e o ​​aumento na prescrição de antidepressivos.
Finalmente, ele conclui que uma nova conceituação de suicídio é necessária, para além da medicalização do suicídio, o que implicaria uma nova forma de abordá-lo. Segundo Whitaker, o suicídio deve ser visto como algo que surge dentro de um contexto social e essa abordagem deve ter maior respeito pela autonomia da pessoa que tem sentimentos suicidas.
No geral, o artigo é muito interessante e as perguntas são muito válidas, embora as respostas sejam bastante discutíveis. E o artigo tem seus problemas, particularmente dois muito importantes. Em primeiro lugar, tudo o que Whitaker analisa são correlações e a partir daí é impossível extrair causalidade, ele próprio alerta para isso, de passagem. Além disso, Whitaker seleciona certos períodos como 1987-2000 e 2000-2016. Antidepressivos inibidores seletivos da recaptação (SSRIs) surgem em 1987, exato quando começa um declínio nas taxas de suicídios que vão até 2000. Alguns psiquiatras atribuem esse declínio aos SSRIs, algo que Whitaker descarta (provavelmente com razão). Ele atribui esse declínio mais propriamente a fatores sociais como a diminuição do número de armas e a diminuição do desemprego. Como a partir de 2000, as armas e o desemprego não oscilaram, Whitaker atribui o aumento dos suicídios aos antidepressivos. Isso é muito simplista e arriscado. Em um fenômeno tão complexo e observado em longos períodos, literalmente milhares de fatores influenciam e muitos deles são desconhecidos. Desejar explicar essas mudanças com 3-4 fatores é uma tarefa arriscada (por exemplo, em outros países, o aumento de suicídios não ocorreu nos anos 2000-2016, como nos EUA, apesar de aumentos similares na prescrição de antidepressivos).
O segundo problema que o artigo é confuso, como no ponto 2) e, em parte, no ponto 3) quando afirma que maior intensidade de tratamento produz aumento do risco de suicídio. Isso é óbvio. Onde as pessoas mais morrem, em um hospital ou em uma empresa? Evidentemente, em um hospital, porque os pacientes com doenças graves que chegam a ele apresentam um risco maior de mortalidade. Pacientes psiquiátricos que foram internados têm um risco maior de suicídio, diz Whitaker, e culpa o trauma da internação pelo suicídio. Mas os pacientes não são admitidos aleatoriamente, mas com base nos sintomas e sinais clínicos de maior gravidade, que estão relacionados a um aumento do risco de suicídio.
Em todo caso, embora seja possível aceitar que os antidepressivos possam levar ao suicídio em alguns casos, eu não acho que as provas apresentadas por Whitaker mostram que os antidepressivos são a causa do aumento da taxa de suicídio nos Estados Unidos. Entretanto, eu acredito sim que os dados apoiam que os antidepressivos não reduzem o risco de suicídio globalmente, no nível da comunidade. Com o grande aumento na prescrição e venda de antidepressivos, se eles estão sendo prescritos para as pessoas certas, para aqueles que sofrem sintomas relacionados ao risco de suicídio, acho que a taxa de suicídio deveria ter, como resultado, uma importante diminuição. Também concordo com Whitaker sobre a necessidade de reconceituar o suicídio e os transtornos mentais comuns de outra maneira e que a medicalização pode não ser a resposta apropriada.

Mas me pareceu também que o estudo de Whitaker é um pouco limitado, concentrando-se apenas em psiquiatria e antidepressivos. Quando o li, me perguntava: E as psicoterapias? Muitas pessoas, tomando ou não medicamentos, também fazem algum tipo de psicoterapia. Podemos fazer correlações entre o número de pessoas fazendo psicoterapia e as taxas de suicídio ou medidas de saúde mental em geral?

É NECESSÁRIA UMA NOVA CONCEITUAÇÃO DO SUICÍDIO, QUE NÃO SEJA A DA MEDICALIZAÇÃO, E UMA NOVA FORMA DE RESPONDER AO SUICÍDIO

Pesquisei por publicações científicas na Internet e não encontrei absolutamente nada sobre o número de pessoas que fazem psicoterapia e sobre a evolução histórica deste número, ou seja, o que aconteceu nas últimas décadas, se houve um aumento ou não. Minha intuição é que esse número provavelmente tem aumentado, tanto a procura por psicoterapias "formais", como a terapia cognitivo-comportamental (acho que diminuíram as de orientação psicanalítica) como a procura por terapias mais informais como mindfulness, coaching, etc., e provavelmente também muitas outras assim chamadas "alternativas". De qualquer forma, não encontrei dados.
Mas encontrei informações de um programa muito interessante que foi publicado pelo NHS britânico (Serviço Nacional de Saúde inglês, tipo o SUS brasileiro) na Inglaterra em 2008, Melhorando o Acesso às Terapias Psicológicas (IAPT). Em 2010, o programa foi estendido a crianças e adolescentes.
O IAPT é um programa para oferecer psicoterapia (principalmente cognitiva) na atenção primária à saúde lançado em 2008 pelo economista Richard Layard e pelo psicólogo clínico David Clark, que obtiveram apoio político para implementá-lo. Nos 10 anos em que está em operação, estima-se que sido tenha investido um bilhão de libras. O programa vem atendendo cada vez mais pessoas. Em 2014-2015, 1,3 milhões de pessoas foram encaminhadas ao programa, das quais 815.665 foram tratadas. Em 2017, ao IAPT foram encaminhados 960.000 pessoas, e tratadas de cerca de 560.000. O objetivo é recrutar 10.500 terapeutas até o ano 2021, embora pareça difícil que essa quantidade venha a ser atingida e que os terapeutas do programa estejam bastante sobrecarregados com o excesso de trabalho.
O programa tem dois tipos de intervenções, uma de baixa intensidade e outra de alta intensidade:

 Atualmente há muita polêmica sobre a real efetividade deste programa e sobre seu custo real, que de acordo com alguns é maior do que o declarado oficialmente. O discurso oficial diz que melhoram 50% dos pacientes tratados, mas alguns estudos têm sido publicados, como o de Michael Scott, que entrevistou de forma estruturada a 90 pacientes, mostrando que melhoram apenas 9,2%.
E além das dúvidas sobre sua eficácia, há alguns fatos interessantes: as vendas de antidepressivos continuaram a aumentar na Inglaterra e as incapacitações por depressão - e transtornos mentais em geral - também. Quanto aos índices de suicídio, coloquei no gráfico abaixo. Não parece haver nenhuma mudança significativa desde 2008. Ele já havia descido e estagnado e aumentou um pouco:


Eu quero voltar para a ideia, que eu expressei acima, de que nosso estilo de vida é deprimente ou estressante ou o que quer que chamemos, uma ideia que eu acho que explica muito de tudo o que temos discutido neste artigo.
Nosso modelo atual assume que os transtornos mentais comuns são devidos a mecanismos ou processos defeituosos de algum tipo que ocorrem dentro do indivíduo. Isso coincide tanto com o modelo médico / psiquiátrico quanto com a terapia cognitivo-comportamental, a mais utilizada no IAPT. No modelo médico é uma falha nos transmissores e no modelo cognitivo é uma falha nas cognições do indivíduo. De acordo com este modelo, existem tratamentos corretos para esses transtornos - que são descritos em diretrizes – e são aplicados e espera-se que os transtornos sejam resolvidos. Mas, como vimos, as prescrições de antidepressivos não diminuem as depressões e nem, tampouco, outras formas de incapacitação devido à doença mental. Nosso modelo atual diz que o problema está na cabeça das pessoas e não no contexto em que as pessoas vivem, no mundo lá fora.
Minha experiência profissional não corresponde a este modelo. Boa parte das consultas que atendemos em um centro de saúde mental são desordens adaptativas aos problemas que as pessoas têm em seu ambiente, principalmente no ambiente de trabalho. Para ilustrá-lo com um exemplo superficial, sem muitos detalhes, uma pessoa que trabalha como operador de telemarketing, em um supermercado, na administração de um serviço de emergência, como um técnico em computação, etc. No trabalho dessa pessoa, em um determinado momento, há uma mudança de chefe e ele ou ela começa a estressá-lo com exigências, mudanças, pressões, etc. A angústia da pessoa vai aumentando e começa a ter medo de ir trabalhar, passa a dormir mal, ele não para de pensar na sua situação e a qualquer momento acaba sofrendo um ataque de pânico em seu trabalho: angústia, choro, palpitações.

MUITAS DAS CONSULTAS QUE FAZEMOS EM UM CENTRO DE SAÚDE MENTAL SÃO DESORDENS ADAPTATIVAS PARA PROBLEMAS QUE AS PESSOAS TÊM EM SEU AMBIENTE, PRINCIPALMENTE NO LOCAL DE TRABALHO

Podemos discutir se esses tipos de casos constituem um transtorno mental ou se são problemas de vida. Mas gostaria de dizer duas coisas. A primeira é que esses casos não são banais. Por conta dessas questões a pessoa passa a ter pensamentos de suicídio e acaba na Internet procurando maneiras de acabar com sua vida. Estamos falando de pessoas que se sentem aprisionadas, que têm hipotecas, contas a pagar, filhos, e que não conseguem encontrar uma saída para a sua situação, porque vêem que não podem trabalhar e ao mesmo tempo vêem que não conseguem trabalhar. Essas questões não são coisas menores e sem importância. Em segundo lugar, não há abordagens e tratamentos alternativos para esses problemas "sociais". Se eles acabam em psicólogos e psiquiatras, é porque o sistema não tem outras soluções.
Vou usar um exemplo do próprio IATP para apoiar o que estou dizendo. Os terapeutas do programa IAPT veem apresentando um alto nível de bournout profissional ou síndrome de bournout. Como discutido acima, o tratamento com IAPT é administrado em dois níveis: um baixo nível de intensidade e um alto nível de intensidade. Aqueles que administram o nível de baixa intensidade são chamados PWP (praticantes de bem-estar psicológico), enquanto aqueles que administram o nível de maior intensidade são geralmente terapeutas cognitivos. Bem, os PWP têm 68,6% de taxas de desgaste emocional e as taxas dos terapeutas cognitivos são de 50%. As causas são as altas cargas de trabalho e parece que, em particular, o uso do telefone. Os PWPs usam mais o telefone para atendimento terapêutico do que os terapeutas de alta intensidade, que só o usam para informar sobre as consultas.
Mas o que me interessa neste artigo são as soluções que propõem:
1. Redução da carga de trabalho (menos horas) e, principalmente, redução do uso do telefone.
2. Aumentar a supervisão clínica recebida, ou seja, oferecer mais apoio.
O que essas duas medidas têm em comum? Prestem atenção, isso é muito importante: São medidas que afetam o mundo exterior, o ambiente de trabalho da pessoa, e não a cabeça. Não se propõe a dar-lhes antidepressivos ou fazer terapia cognitiva em si ... curioso, não é?
Eu também gostaria de ter este tipo de medida com meus pacientes, para poder afetar suas condições de trabalho e suas condições de vida em geral. Mas isso não é possível. E a mesma impossibilidade acontece com os psicólogos e psiquiatras. Podemos dar aos nossos pacientes sedativos para dormir melhor, ansiolíticos e antidepressivos, para que fiquem menos ansiosos, para que deem menos atenção aos seus problemas e toquem a vida o melhor possível, mas não posso mudar o mundo que eles têm de enfrentar. Acho que isso explica muitos dos dados que manipulamos neste artigo: Nós criamos uma cultura competitiva que avança em um ritmo diabólico e mais e mais pessoas são deixadas para trás e não podem segui-lo. Psiquiatras e psicólogos o que fazemos, no fundo, é ajudar as pessoas a reajustarem-se ao mundo exterior quando tenham esgotadas a sua força mas, na verdade, talvez, seria preciso é mudar o mundo exterior e não as suas cabeças.
Whitaker menciona o artigo de Rajkumar que encontra uma relação entre países com melhores serviços psiquiátricos e uma taxa mais alta de suicídio. Mas os países com melhores serviços psiquiátricos são também os mais ricos e, portanto, os mais afetados por um estilo de vida estressante.
O fato é que os centros de saúde mental e os consultórios seguirão recebendo mais e mais pessoas a cada dia e os dados que conseguimos indicam que mais psiquiatras, mais psicólogos e mais leitos psiquiátricos não são a solução. O que é conclusivo é que há um problema lá fora e não na cabeça das pessoas.




Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste texto, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra e ligue para o número do CVV: 188.


Texto original: ¿A más psiquiatría peor salud mental? 
Por
 Pablo Malo Ocejo / 
https://www.psyciencia.com/mas-psiquiatria-peor-salud-mental/?fbclid=IwAR0HZsMgbc3wnzA73cw8_YYEaDj3huyOcbDr4Y3FnC_LImz5cA8VxBcQRtc

Texto livremente traduzido e adaptado.

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quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Afaste-se de seu psicólogo se ele aplaude o decreto de ampliação da posse de armas

Se você tem pensamentos suicidas e o seu psicólogo está aplaudindo o decreto recém publicado que facilita a aquisição de armas no Brasil, afaste-se desse psicólogo!
Sinceramente, de uma página que tem por objetivo um trabalho educativo de conscientização para a prevenção do suicídio, que posição se esperaria? Apoio para essa medida? Se assim fosse feito, no mínimo, o administrador da página estaria faltando com a verdade aos seguidores, por não encarar com rigor e seriedade o que diz a ciência.
A ciência, entendem?
Prevenção do suicídio não é opinião com viés político-ideológico de esquerda, de centro ou de direita ou o que um indivíduo acha ou deixa de achar. Uma das opiniões mais recorrentes é a que ‘Ah, mas se não tivessem armas fariam de outra maneira'. Ou, ainda, “vamos proibir a venda de corda, remédio e produtos tóxicos, então”. O que acontece é que prevenção do suicídio se pauta no que dizem os estudos sistemáticos e as evidências científicas sobre o tema e, por conseguinte, os resultados de inúmeros estudos são categóricos em concluir sobre a ligação entre uma maior presença de armas de fogo no ambiente familiar com um maior número de suicídios. Novamente, a ciência, entendem?
Não vamos entrar aqui na questão dos principais métodos utilizados no Brasil e no mundo, apenas ressalvar que esses métodos mais frequentemente usados para o suicídio variam segundo a cultura e segundo o acesso que se tem a eles, e, embora o uso de armas de fogo possa ainda não ser o principal meio de acometimento de suicídios no Brasil, (por conta da legislação restritiva que vigorava) é, no entanto, o mais letal. Por isso, o fato de uma política de redução de acesso a armas de fogo ocupar um lugar de destaque entre as recomendações da Organização Mundial da Saúde para a prevenção do suicídio. Recomendações que consideram a restrição de acesso a meios utilizáveis, como limitar o acesso a pesticidas e a colocação de barreiras em pontes como um elemento-chave na prevenção suicídio. https://www.who.int/mental_health/suicide-prevention/exe_summary_spanish.pdf?ua=1
Qualquer psicólogo quando recebe em seu consultório uma pessoa que traga como conflito a intenção do suicídio, sabe que uma das primeiras providências a serem tomadas consiste em buscar o apoio dos familiares para retirar do acesso os meios para que o suicídio se concretize: remédios, facas, produtos de limpeza, etc, e o que é uma tarefa extremamente delicada e difícil para o profissional e para a família. Mas é exatamente esse um dos desafios que enfrentam os profissionais que se dão a tarefa da prevenção do suicídio.
Segundo Botega, no Brasil, a própria casa é o cenário mais frequente de suicídios. Temos assistido, em nosso país e no mundo o aumento dramático nas taxas de suicídios em jovens, meninos e meninas de 10, 12, 14 anos tirando a vida. De acordo com vários estudos discutidos pelo Dr. David A. Brent da Universidade de Pittsburgh, e co-fundador e diretor do Serviço para Adolescentes de Risco na Pennsylvania, “existe um risco 30 vezes maior de suicídio em adolescentes se existe uma arma de fogo em casa. Uma arma em casa se mostrou como o maior fator de risco de suicídio para menores de 16 anos, comparados com aqueles maiores de 16, mesmo para aqueles sem doença mental identificável.”
Estudos sistemáticos citam que, por exemplo, nos EUA, regiões que adotaram leis mais duras quanto à compra de uma arma de fogo ajudaram consideravelmente a frear os índices de suicídio nessas regiões. “Já um estudo publicado em setembro de 2018 no Journal of Health Economics mostrou que a diminuição da prevalência de armas de fogo entre a população na Suíça está diretamente associada à diminuição nas taxas de suicídio por armas de fogo e total. Para uma diminuição de 1000 armas de fogo para cada 100 mil habitantes, os autores do estudo encontraram que houve uma diminuição de 9% nas taxas de suicídio via essas armas, mas nenhuma variação no número de suicídios via outros métodos.” https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0167629618301346
Conclusão, não é o nosso propósito debater se a disseminação da posse de armas de fogo é uma estratégia correta ou não de segurança pública. Nossa questão é outra. Trata-se de trabalharmos a fim de prevenir e evitar que a epidemia do suicídio que já ceifa 32 vidas diariamente no Brasil, se transforme numa tragédia ainda maior. E na medida que as inúmeras pesquisas mostram a prevalência de armas de fogo nos lares com o maior número de suicídios, isso indica que o Brasil fez uma escolha de caminhar na contramão da prevenção do suicídio.
Infelizmente o decreto já está posto, assinado. O que é possível, então, fazermos? Uma orientação: se você tem pensamentos suicidas e o seu psicólogo está aplaudindo o decreto que facilita a aquisição de armas no Brasil, afaste-se desse psicólogo, pois a posição desse especialista será, no mínimo, ambígua e vacilante – quando precisa ser firme e categoricamente contrário – caso você ou algum familiar tiver uma arma de fogo em casa ou considerar comprar uma para segurança pessoal; pois, afinal, ele é favorável a essa medida.
Quanto as opiniões sobre o tema, repetindo um autor desconhecido: todos têm o direito de ter a sua própria opinião, mas ninguém tem o direito de ter seus próprios fatos. Portanto, que cada um fique com a sua. A página fica com a ciência.








terça-feira, 17 de julho de 2018

Não É Sobre Querer Morrer

O suicídio é um acontecimento doloroso e complexo e, parece, que a única maneira de realmente entender por que alguém quer tirar a sua própria vida é ser também suicida ou passar pela experiência de vivenciar pensamentos suicidas.
Infelizmente, quem tentou se matar, mas sobreviveu, passa também a ser vítima de um forte, e inaceitável, preconceito: "Como você pode ser tão egoísta!" "Como pôde fazer isso conosco?" “Foi só para chamar a atenção”. “Só pode ser louco para ter feito isso”. “Criatura sem Deus no coração!”. Entretanto, se as pessoas pudessem entender genuinamente o que acontece na cabeça de alguém que tenta o suicídio, os julgamentos não viriam tão rapidamente. A crítica poderia diminuir. E, ao promover a verdadeira compreensão e empatia, poderíamos tomar medidas mais acertadas para ajudar os que ainda estão lutando.
Por isso, perguntamos aos sobreviventes de tentativas de suicídio o que eles gostariam que os outros entendessem sobre suas experiências. Suas respostas são sinceras e difíceis de ler, mas são importantes. Aqui está o que eles têm a dizer:
1. “Na mente da pessoa que pensa em se matar o que acontece é completamente oposto de uma decisão egoísta. Naquele momento, nós realmente sentimos que o mundo seria um lugar melhor sem a gente. É interessante que, por um lado, eu me sinta feliz por algumas pessoas não entenderem isso, porque significa que elas nunca sentiram ou experimentaram esses sentimentos apavorantes, mas, por outro lado não deveriam ser tão rápidas em julgar. ”- Jen D.
2. “Para mim, é menos sobre a morte e mais sobre acabar com a dor. É difícil explicar como a morte faria você se sentir mais vivo do que nunca. Eu não estava fugindo dos meus problemas. Eu estava desesperadamente procurando uma maneira de superá-los, agora sei que equivocadamente, pela morte. ”- Kacie S.
3. “Nunca dê as costas para os seus pensamentos mais profundos e medonhos. Em dias de depressão, eles virão te visitar. Pode aguardar. Eles têm seus próprios olhos, ouvidos e voz. Eles tentarão te seduzir. Você tem que ser forte o suficiente para reconhecer que [em alguns casos], esses pensamentos estarão contigo por toda a vida. Não deixe que eles cumpram sua missão perversa de te destruir. ”- Andrew G.
4. “Não foi realmente sobre querer morrer. Era sobre escapar de uma dor insuportável quando eu não conseguia ver nenhuma outra opção. E eu estava convencido de que todos ficariam mais felizes se eu fosse embora, que eu estava fazendo um favor a eles. Eu não embarco mais em pensamentos de culpa tipo "pense no mal que você está fazendo para seus entes queridos". Eu sou muito grato por ainda estar vivo hoje. A dor se desvaneceu. Eu encontrei outras opções. E eu quero ficar por aqui, para ver como esta minha vida vai se desenrolar. ”- Erin L.
5. “Você é capaz de entender o quanto dói ser criticado por ter feito uma tentativa de suicídio? Você sabe o quanto dói ser chamado de "egoísta", "idiota" e ser visto como "louco"? Se você nunca teve ideação suicida, por favor, não julgue, não critique, porque está claro que isso não faz sentido para você ... também não faz sentido para a maioria das pessoas. Mas, infelizmente está acontecendo com muita gente, e nós merecemos ajuda, não ódio. ”- Kerri S.
6. “Quando conto a minha história, não é por atenção. É uma maneira de eu chegar e fazer a outros, que vivenciam esses mesmos sentimentos de morte, perceberem que não estão sozinhos. Eu quero que minha história inspire os outros a continuar, a continuar lutando e a dar os passos em direção a uma vida mais feliz e saudável. ”- Megan D.
7. Não critique os que estão passando por isso. Pergunte o que você pode fazer para ajudar. Tente entender que eles podem não saber porque pensamentos de autodestruição passaram a dominar suas mentes. Apenas esteja lá para apoiá-los quando necessário. ”- Solana C.
8. “Eu realmente não quero morrer. Eu só quero matar o jeito que eu sinto as coisas, calar a tagarelice incessante em meu cérebro, ter uma pausa em me sentir como a pior criatura mais indigna e desprezível do mundo. Não é sobre ser egoísta nem covarde. Não é para ferir ninguém. É puro desespero. ”- Andrea T.
9. “Minha depressão, minha ansiedade, meu TEPT são tão sérios e devastadores quanto uma deficiência física. Suicídio não é a saída do covarde. A dor, as emoções, a devastação. Eu sou abençoada por ter sobrevivido a minha tentativa, mas eu ainda luto contra os demônios na minha cabeça. Eu não acho que possa haver algo mais devastador do que ter duas lindas crianças incríveis e ainda pensar que o suicídio possa ser a única saída. A dor é real, e é algo que eu lido diariamente. ”- Lindsey J.
10. “Não é um grito por atenção. É a dor interminável de tentar viver em um mundo em que você acredita não pertencer. ”- Abbie M.
11. “Eu queria desesperadamente que a dor esmagadora cessasse, e naquele momento eu estava focado apenas em fazer parar a dor. Eu não estava pensando nas consequências do meu suicídio. ”- Mary Z.
12. “Você nunca esquece, e nunca será o mesmo de antes da tentativa. Você passa a carregar um peso em seus ombros. Alguns dias são mais difíceis do que outros, mas nem sempre você precisa carregar o peso sozinho. Muitos são rápidos em julgar, mas se não falarmos sobre nossas experiências, como podemos esperar que os outros entendam? A educação é a única coisa que pode combater a ignorância. ”- Rebecca R.
13. “Eu queria deixar de ser um fardo para as pessoas ao meu redor e silenciar a dor dentro de mim. Eu me sentia cansado de me sentir como um fracasso ou uma peste para os outros, mesmo que não fosse. É uma coisa séria. Por favor, leve a sério quem já tentou. Você não conhece as batalhas constantes que enfrentamos no dia-a-dia. ”- Liza G.
14. “Tentativa de suicídio não é fraqueza. Pode ser sim um pedido de ajuda. É uma confusão geral quando você constantemente se sente como um fracasso. É uma solução permanente para um sentimento temporário que, na hora, não parece nada temporário. É muito mais do que uma mera fuga do sofrimento, e às vezes é a única conclusão que nossos cérebros com doenças podem fazer por nós mesmos quando não sabemos mais o que fazer. ”- Sami S.
15. “Eu carrego comigo todos os dias a culpa de tentar deixar meus entes queridos. Quando eles dizem "você quis ir embora" - isso me machuca mais do que qualquer coisa porque não era "eu". Foi a minha doença ultrapassando o meu ser ...  ”- Alexis B.
16. “Nada sobre suicídio é egoísmo. Todos nós temos que cuidar de cada um de nós. E o suicídio tornou-se a única opção para me livrar completamente da dor que sinto a cada momento de todos os dias ... Precisamos de compaixão, compreensão, cuidado e carinho. ”- Marco O.
17. “É errado presumir que eu tinha um controle preciso sobre meus pensamentos e sabia exatamente o que estava fazendo. Eu não sabia. Eu ainda não sei. Toda vez que eu me recordo, há uma nova explicação, uma nova peça a ser encaixada. Sempre haverá novas peças, e isso me deixa muito cansada. Mas quando você tenta esquecer, os pensamentos voltam de outra maneira, sempre, todos os dias. Nada e ninguém pode pará-los, então você precisa aprender a acalmá-los .... É a coisa mais difícil e confusa que já fiz. ”- Keisha F
18. “Foi um arrependimento instantâneo. Eu estava com tanta dor e queria que ela parasse, mas assim que tomei todas aquelas pílulas, pensei: 'Meu Deus, o que eu fiz?' Eu quero que as pessoas saibam que não é tudo sobre morrer. Estamos todos apenas tentando acabar com nossa dor emocional.” - Teresa A.
19. “Eu não quero morrer. Eu só queria que a dor parasse. E ela parou. Lenta, mas seguramente, com a terapia e o tempo, a dor parou.” – Jeniffer W.
20. “Eu desejo que os outros entendam que eu não sou um perigo para eles. Depois da minha tentativa, meus amigos me mantiveram a distância ao invés de se aproximarem de mim, porque tinham medo que eu os machucasse também. Isso me deixou mais isolada e rejeitada do que nunca. Eu também gostaria que as pessoas entendessem o poder do que parece ser algo muito simples. Um abraço. Uma mensagem. Um telefonema. Pequenas coisas que são realmente enormes porque dizem: "Eu quero você aqui, quero ajudá-la a lutar". - Jennifer K.

 Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste texto, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra e ligue para o número gratuito do CVV: 188.


 Texto original: 41 Secrets of Suicide Attempt Survivors by Megan Griffo  /  https://themighty.com/2016/09/what-its-like-to-try-to-kill-yourself/


 Texto livremente traduzido e adaptado.


sábado, 9 de junho de 2018

Então, você acha que suicídio é frescura? Sente-se aí, vamos conversar



É surpreendente percebermos o quanto somos produtos do momento histórico em que nascemos e da cultura em que somos criados.
Um mínimo contato com a maneira de ser de outros povos, buscando e obtendo informações sobre hábitos, valores, crenças, como pensam, em que acreditam, como se relacionam, nos remete a algo que não parece tão óbvio: o quanto somos condicionados na nossa maneira de pensar, de ser e viver pelo meio em que vivemos.
Se tivéssemos nascido durante o período histórico do Brasil Colonial, enxergaríamos a escravidão com a mais absoluta naturalidade, algo que hoje achamos um absoluto crime. O Brasil ocupa um lugar de destaque em população total de animais de estimação, sobretudo de cachorros, alguns países pelo mundo consomem carnes de cachorro na alimentação. Não consideramos minimamente a possibilidade de nossos familiares escolherem nossos futuros parceiros de casamento, mas grande parte de jovens hindus e muçulmanos no planeta outorgam a seus pais essa decisão. Homens heterossexuais no Ocidente não admitem andar de mãos dadas com outro homem pelas ruas, em Abu Dhabi só os homens podem andar de mãos dadas... são amigos, os homens não têm vergonha de demonstrar carinho um pelo outro.
Até mesmo a nossa fisiologia é determinada pela influência cultural, um exemplo é o sotaque. Não o percebia até mudar-me do Rio de Janeiro para Brasília e, como professor de História em uma escola particular, entrar numa sala de aula da 7ª série do ensino fundamental e ver os alunos solicitarem, várias vezes, que eu repetisse o tema da aula – naquele dia iniciávamos o estudo dos povos pré-colombianos: O Astecas, Os Incas e ao Maias. A cada vez que eu repetia, abaixavam a cabeça e riam gostoso à pronúncia acentuada do sotaque carioca, marcada pelo chiado do ‘s’ como se fosse ‘x’. Sotaque que continua dominante e é sempre reconhecido, embora já há tantos anos morando fora.
Mas o que tem isso a ver com a questão do suicídio? Tem a ver que permanecemos presos a uma maneira equivocada de abordar esse fenômeno, porque é perversa, contaminada de preconceitos e estereótipos a forma como o atual momento histórico em que nascemos e a sociedade em que estamos sendo criados concebe e enxerga o suicídio. E como somos produtos do meio é exatamente assim que encaramos as pessoas que têm pensamentos, que fazem tentativas e que se suicidam. De qual forma?
É fraqueza
É covardia
É para chamar a atenção
É falta de Deus no coração
Se é pra se matar porque não faz direito
É falta de ter o que fazer
Olhe ao seu redor… existem muitas pessoas em situações piores que estão lutando pra viver e você aí querendo morrer.
É coisa de gente maluca
Em nosso dia a dia repetimos e reproduzimos expressões como estas, porque é como fomos aculturados pelo meio em que crescemos a conceber o suicídio. Gritamos pula! Pula! Pula! Quando vemos alguém desejando (e não desejando, é imperioso que se saiba, pois, que a pessoa está num estado de ambivalência e o grito é sempre um estímulo cruel) saltar de um prédio. Até mesmo agentes de saúde, médicos e enfermeiros, dirigem-se com essas expressões a suicidas em convalescença em leitos hospitalares. Agentes cujo dever seria de auxiliá-los.
Veja! Ainda que eu sendo um psicólogo que lida com pessoas suicidas e constate o quanto essas observações os maltratem a ponto de se tornarem mesmo um fator indutor de suicídio, sobretudo quando pronunciadas por familiares ou outras pessoas significativas,  não considero que se deve apontar o dedo, quase que criminalizando aqueles que mantêm essas concepções sobre o suicídio. Como eu disse, somos produtos do meio. Reproduzimos os valores, as crenças, as verdades e as opiniões correntes da sociedade em que somos criados.
Porém, isso não quer dizer que não possamos mudar nossas concepções. Podemos, devemos e precisamos. Vejamos esses dados.

O suicídio mata mais do que muitas patologias e guerras

 A Organização Mundial da Saúde revela que o suicídio é a segunda maior causa de óbitos entre pessoas de 15 a 29 anos. Para muitos especialistas, o suicídio de jovens já ganhou os contornos de uma epidemia.

Esses números, 800 mil suicídios anuais, e,  considerando que para cada vítima cerca de 10 a 20 tentativas foram feitas ... podem ser muito maiores, segundo alguns pesquisadores. Há fatores como a  subnotificação e o problema dos suicídios que “se escondem” sob outras denominações de causa de morte, como, por exemplo, acidente automobilístico, afogamento, envenenamento acidental, overdose de drogas  e “morte de causa indeterminada” que indicam, muito provavelmente, que as estatísticas oficiais sejam bastante inferiores aos dados reais.
Estima-se que a depressão que afeta hoje 322 milhões de pessoas no mundo, até 2030 se torne a doença mais comum do mundo, sendo que a mesma é considerada a principal causa de suicídio no mundo.
Então, confrontados com a força assombrosa desses dados, você não acha que são números absurdamente grandes de mortes para receberem na certidão de óbito, como determinação de causa morte: frescura? 
Ao contrário, não estamos é diante de um fenômeno altamente complexo, um grande problema da psique individual, um desafio para a sociedade – o suicídio – a exigir de nós muito mais do que a resposta rápida, rasteira e preconceituosa que nos (de)ensinou a sociedade?
Não se afigura incoerente continuarmos a pensar e agir com as pessoas que têm pensamentos, que fazem tentativas e que se suicidam mantendo "aquela velha opinião formada sobre tudo"?
Se a resposta for SIM este texto alcançou a sua finalidade: a de começarmos a refletir, nos conscientizarmos e nos reeducarmos sobre o problema avassalador do suicídio  – pois bem diferente de outros problemas igualmente trágicos e avassaladores para a humanidade como o são as catástrofes naturais, as guerras e as epidemias, que acontecem, que vêm e que vão – o suicídio veio para ficar.


Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste texto, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra e ligue para o número do CVV: 188 ou 141.


sábado, 19 de maio de 2018

Os suicidas são loucos?


NÃO, ter pensamentos suicidas ou fazer uma tentativa não implica ser “louco”, nem necessariamente ser um doente mental. Normalmente o suicídio é equacionado como forma de acabar com uma dor emocional insuportável causada por variados problemas. De um modo geral as pessoas que tentam o suicídio estão seriamente aflitas e profundamente deprimidas. Esta depressão pode ser reativa (quando é desencadeada por uma situação traumática ou estressante que a pessoa esteja vivenciando), situação que é perfeitamente normal para os que atravessam circunstâncias de vida difíceis; ou pode ser uma depressão endógena (em que o indivíduo sente uma tristeza profunda e mesmo desejo de morrer, sem motivo aparente) que é o resultado de uma doença mental diagnosticável com outras causas subjacentes. Também pode ser uma combinação das duas. 
A questão da doença mental é difícil porque ambos os tipos de depressão podem ter sintomas e efeitos semelhantes. Pensamentos e atos suicidas podem ser o resultado de problemas, tensões e perdas com as quais não se está conseguindo lidar. Numa sociedade onde o preconceito e a ignorância acerca da doença mental são muito grandes, a pessoa que experimenta comportamento suicida pode ter medo que os outros a considerem "louca" se revelarem os seus sentimentos e pensamentos, tornando-se relutante em pedir ajuda durante a crise que atravessam. De qualquer forma, descrever alguém como "louco", com fortes conotações negativas, não é, provavelmente, útil e o mais provável é dissuadir alguém de procurar ajuda adequada, independentemente da pessoa ter ou não uma doença mental.
As pessoas que sofrem de uma doença mental tal como o transtorno bipolar ou uma depressão endógena têm índices significativamente mais altos de suicídio, embora sejam ainda uma minoria os que tentam tal ato. Para estas pessoas, ter a sua doença corretamente diagnosticada, com um tratamento apropriado, é a melhor forma de impedir o ato de suicídio.


Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste texto, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra e ligue para o número do CVV: 188 ou 141.


Texto livremente traduzido e adaptado.