segunda-feira, 20 de abril de 2020

Por que os suicídios estão diminuindo durante a pandemia de coronavírus?



Um quarto da população mundial permanece em casa devido a uma pandemia causada por um coronavírus, que já causou mais de 150.000 mortes em três meses. Um drama de dimensões que a humanidade não enfrentava há décadas. A magnitude do problema é tal que muitos dos nossos problemas anteriores tornaram-se menores e sem importância. E isso, que ocorre no nível social, também ocorre no nível individual e, segundo especialistas, tem impacto direto nos suicídios: os suicídios diminuíram.
Javier Jiménez, psicólogo clínico da Associação de Pesquisa, Prevenção e Intervenção do Suicídio (na Espanha) garante que todos os psicólogos e especialistas em urgências, emergências e catástrofes estão convencidos de que os suicídios diminuíram nesses três meses, embora também reconheçam que, assim que essa situação acabar, eles vão subir novamente. Segundo esse especialista - com as informações que ele gerencia dos institutos de medicina legal que consulta e as informações de sua organização - os casos registrados apontam sim para uma diminuição:
 “Na Associação, toda semana temos três, quatro ou cinco casos de pessoas que nos comunicam da Espanha ou mesmo do exterior, nos dizendo que alguém próximo cometeu suicídio ou tentou. Agora temos uma ou nenhuma ligação por semana, nem de ideação suicida [pensamentos suicidas], nem de intenção, nem de suicídio consumado”.
Embora esses dados se refiram à sua experiência e à de seus colegas, ainda não se tem pesquisas evidenciando esse fenômeno. Para falar sobre os dados completos sobre suicídio durante esse período de pandemia, será preciso esperar anos para que o INE os publique.
Esse psicólogo que monitora os suicídios que ocorrem no mundo garante que, em relação direta com coronavírus, houve 8 em todo o mundo. Dois deles na Espanha, duas pessoas que cometeram suicídio em hospitais quando diagnosticadas com coronavírus. "Para essas pessoas, provavelmente, foi a gota que encheu o copo, porque não conhecemos a situação anterior delas, então não podemos fazer uma relação de causa e efeito. O coronavírus seria mais um fator nesses suicídios, não a causa determinante.”
EFEITO DE GUERRA
E qual a explicação, ainda que provisória, para esse diminuição de suicídios? "Agora que estamos comparando essa situação a uma guerra, é exatamente isso que acontece durante um período de guerra: os suicídios diminuem significativamente", explica o psicólogo. O motivo é que as prioridades da vida mudam: “Quem realmente se importa agora se você comprou o iPhone mais recente ou os sapatos de uma marca famosa? Agora, o importante são álcool gel, máscaras, comida...  e ninguém está louco pra sair de casa e comprar o último modelo de iPhone”.
É claro que as causas são bem mais complexas, porém "alguns problemas de pessoas que não sabem muito bem por que alimentavam tantos conflitos, quando são confrontadas com uma ameaça concreta muito maior, percebem que o que estava acontecendo com elas não era assim tão sério. Assim, essa situação pode até favorecer mudanças positivas pra algumas pessoas."
Entretanto, como nas guerras, o medo dos especialistas está no que vem a seguir, com o fim do confinamento.
PROBLEMAS FAMILIARES
Mais graves, nesse momento, têm se mostrado os problemas familiares. José Luis Perrinó, presidente do Telefone da Esperança de Madri (Tlf.717100371), garante que, em seu serviço, as ligações relacionadas a problemas de solidão aumentaram, mas eles também não perceberam um aumento nas ligações de pessoas com pensamentos suicidas. “Tivemos um aumento de 20% no número de ligações e, nesse momento, prevalecem as questões relacionadas à solidão, a ansiedade sobre o confinamento e os problemas entre casais e filhos”, explica ele.
Jiménez lembra que depois das férias é a época do ano em que ocorrem mais divórcios, após uma convivência mais próxima. "Mas o que está acontecendo nesse período de confinamento é mais intenso, é um teste decisivo para casais.  Essa experiência não é como férias, agora você está preso em casa, fazendo comida, não em um hotel com restaurante, com problemas no trabalho e sem poder escapar " A experiência chinesa de confinamento parece dar razão a esse psicólogo, já que em Wuhan os pedidos de divórcio explodiram após meses de confinamento.
Quando o confinamento terminar é quando tudo vai explodir ", diz o psicólogo.

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 Texto livremente traduzido e adaptado




quarta-feira, 1 de abril de 2020

GUIA para superar o impacto emocional do coronavírus


                       

O coronavírus nesse momento é uma grande ameaça a todos nós. Somos confrontados com emoções desconfortáveis, somos dominados pelo medo, ficamos chocados ao ouvirmos os profissionais de saúde relatando as situações que estão enfrentando, e não parece que as coisas vão melhorar num curto prazo. No entanto, há uma verdade inquestionável: tudo passa. E essa pandemia também vai passar, exatamente como aconteceu com outras pandemias. Por isso, precisamos enfrentar esse problema com uma mentalidade positiva e, para isso, precisamos conhecer mais sobre as fases e as emoções que vamos enfrentar. Reconhecer as emoções que inevitavelmente já surgem ou surgirão nos ajudará a enfrentar essa situação de maneira mais realista e tranquila. Desenvolver uma mentalidade positiva, apesar das circunstâncias. Tal atitude nos permitirá entender que em qualquer mudança, por mais difícil que seja, sempre há oportunidades para continuar aprendendo e avançando como indivíduos e como sociedade.
Este GUIA nos servirá como um roteiro indicando quais que as emoções que passaremos a vivenciar nesse momento:

1.     RECONHECIMENTO DO PROBLEMA
"Existe um vírus na China". Esse foi o começo. Todo grande desafio que acontece em nossa vida pode ser resumido em dois tipos, como a medicina tradicional chinesa diz: desafio do céu, quando é algo desejado, ou desafio do trovão, quando não o procuramos e ao se impor quase sempre arrebenta com nossos planos. Para a grande maioria o coronavírus é um desafio que pertence ao trovão. Poucos esperavam que isso acontecesse.

2.     NEGAÇÃO:
"Isso não vai acontecer aqui." A negação é uma fase comum em quase todos os acontecimentos não desejados. É muito difícil mesmo pra gente assimilar. Nesse caso do coronavírus, nunca acreditamos que iria nos afetar. Nos enchemos de desculpas, como a de que a China estava longe ou de ser apenas mais uma gripe, e esquecemos as evidências: que o mundo é globalizado, inclusive para as doenças e que elas podem ser tão contagiosas a ponto de desorganizar e até mesmo colapsar a própria sociedade como um todo. Durante a fase de negação e quando percebemos o quanto essa situação já nos afeta e pode afetar muito mais, quase sempre passamos a sentir muita raiva. Ficamos furiosos com o sistema, com a falta de medidas tomadas pelas autoridades, com manifestações ou reuniões que amplifiquem o contágio; raiva de pessoas ou grupos que não enxergam a gravidade do momento. A raiva deve ser experimentada, sim, mas também superada. Se permanecermos nessa fase, estaremos perdidos, porque perderemos a oportunidade de aprendizado que existe diante de qualquer crise.

3.     MEDO
“O que vai acontecer comigo, com meus familiares, sobretudo os que estão nos grupos de risco? E a população mais pobre, mais desprotegida? E os resultados econômicos de tudo isso, afetará o meu emprego? O que vai acontecer? Medo, preocupação: essa é a emoção mais profunda e incapacitante que existe. Existe um medo saudável, que é a prudência, que nos obriga a nos proteger e a ficar em casa. E há outro medo tóxico, que nos leva à histeria coletiva, às compras compulsivas ou a não dormir à noite. O medo é outra fase pela qual temos que passar rapidamente. É inútil se deixar levar por essa emoção, que em muitas ocasiões se torna mais contagiosa do que a própria doença. O medo nos causa um profundo dano emocional e paralisa nossa capacidade de enfrentar a crise com realismo e força e com um senso positivo de que tudo isso vai passar.

4.     ATRAVESSANDO O DESERTO
"Estou triste e vulnerável”. Não há mais medo ou raiva, nessa fase o que mais sinto é angústia e tristeza em sua forma mais pura. Estamos abatidos pelo número de doentes e mortos, conhecemos algumas vítimas ou a vítima sou eu mesmo. Essa é uma fase de pura aceitação da realidade. Tomamos consciência de que não está em nossas mãos um completo e absoluto controle da situação. NA CRISE DO CORONAVÍRUS, A JORNADA PELO DESERTO DEVE SER REALISTICAMENTE ENCARADA. A mentalidade positiva que precisamos desenvolver, sem encarar o deserto é falsa e temporária. A boa notícia é que os desertos também são atravessados.

5.     NOVA ATITUDE E CONFIANÇA.
Uma vez que a realidade é compreendida e assimilada, uma nova atitude e uma sensação de autoconfiança começam a nascer. Aceitamos a realidade. Se estamos isolados, encontramos os aspectos positivos dessa situação. Nós nos oferecemos para ajudar os outros por serena solidariedade e não por medo. Embora conscientes da gravidade, somos capazes de brincar e rir da situação e, mais importante, nos abrimos para o aprendizado. Quanto mais procurarmos enxergar o que essa nova crise pode nos ensinar, mais rápido podemos atravessar a curva da mudança.

6.     FIM DA AVENTURA
O coronavírus passou e eu saí dessa situação mais forte. Essa crise entrará para a História, sem dúvida. Outras virão, virão novos problemas, e isso significa que estamos vivos. Se conhecemos o processo e aprendemos como indivíduos e como sociedade, valerá a pena, apesar das muitas perdas que tivermos ao longo do caminho.

Veja bem. As fases descritas não são lineares, mas são progressivas. Ou seja, podemos estar na travessia do deserto e recair às vezes sentindo raiva ou muito medo. Podemos aceitar a realidade adquirindo confiança de que essa crise vai passar e voltar a sentir uma profunda tristeza por tudo o que está acontecendo. Podemos rir de um meme engraçado na internet sobre a situação e daqui a pouco sentir muito medo de perder alguém que amamos. É o que quase sempre acontece, mas você não precisa se sentir culpado por isso. Quanto mais consciência tivermos e mais sincero formos, mais rápido podemos passar por cada fase e mais capacidade teremos de despertar os valores e as potencialidades positivas que cada um carrega dentro de si.



RECONHECIMENTO DO PROBLEMA: "Existe um novo vírus na China”
NEGAÇÃO: "Isso não vai acontecer aqui."
RAIVA: “Por que não tomaram providências antes?”
MEDO: “O que vai nos acontecer? “Eu conheço pessoas próximas com coronavírus!” “E se eu ficar doente e não tiver assistência?
     ATRAVESSANDO O DESERTO:  "Estou triste e vulnerável”
NOVA ATITUDE E CONFIANÇA: “Cuido de mim e me protejo” “Enxergo a oportunidade de aprendizado” “Ajudo os outros” “Apoio-me também no bom humor” “Confio”
O CORONAVÍRUS PASSOU: “Aprendi com essa experiência e estou mais forte”



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 Texto livremente traduzido e adaptado

domingo, 26 de janeiro de 2020

Por que o país do samba e da alegria é o campeão latino-americano em suicídios?


Ele tinha 23 anos e uma carreira consolidada como rapper. Mesmo assim, ele decidiu tirar a vida ao vivo, durante uma transmissão em streaming em suas redes sociais e na frente de seus 11.000 seguidores. Aconteceu no dia 15 de dezembro em São Paulo, capital econômica e cultural do Brasil. MC Mineiro escreveu poemas sobre morte e tristeza e em uma de suas publicações ele disse: "Você vai esperar que eu morra para me amar?"

No Brasil, cerca de 13.500 pessoas cometem suicídio a cada ano. A grande maioria são homens (cerca de 10.000). Entre 2010 e 2016, a taxa de suicídios aumentou 7% no país tropical, atingindo 6,1 casos por 100.000 habitantes. Esses dados contrastam com a tendência global, que acumula queda de 9,8%, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Esses índices revelam que todos os anos cerca de 800.000 pessoas causam sua própria morte, o que equivale a um suicídio a cada 40 segundos.
"O número de suicídios aumentou e o crescimento mais consistente foi registrado entre os jovens, algo considerado uma tendência mundial. A desigualdade social pode ser um fator importante. Hoje não podemos apenas olhar para a depressão. Vários estudos internacionais sugerem que as questões sociais podem ter um impacto 40% maior no número de suicídios do que os transtornos mentais ”, diz Karen Scavacini, psicóloga e fundadora do Instituto Vita Alere de Prevenção e Prevenção de Suicídio, com sede em São Paulo.
O país do carnaval, famoso por suas festas intermináveis ​​e pela alegria de seu povo, morre de tristeza e depressão, com 12 milhões de casos diagnosticados. Ele lidera as estatísticas da América Latina sobre suicídios e ocupa o oitavo lugar no mundo, de acordo com dados da OMS relativos a 2014, que foram divulgados dois anos depois e ainda são citados por especialistas.
O Brasil passou de 35 para 8 no ranking mundial de suicídios em alguns anos
O que aconteceu com o Brasil em poucos anos, passando do 35º ao 8º lugar no ranking mundial? Estudos de instituições nacionais e internacionais de prestígio apontam para vários fatores: exclusão social, racismo institucional, crescente isolamento, discriminação, especialmente nos casos do coletivo LGBTI, crise econômica e insegurança no emprego. No entanto, o problema é muito mais complexo, diz a psicóloga Ana Maria Feijoo. Essa professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) dirige um programa de prevenção ao suicídio, que oferece atendimento clínico direto e especializado a pessoas que estão prestes a tirar suas vidas.
"A região do Brasil onde há mais suicídios é o sul, especificamente o Rio Grande do Sul e Santa Catarina. São dois estados majoritariamente brancos, com forte descendência alemã, maior distribuição de renda e menor presença de favelas. Geralmente, relacionamos o suicídio a questões de raça, pressão social ou exigência escolar, mas a realidade é que o suicídio ocorre em todas as classes sociais e em todos os níveis culturais. Portanto, é muito difícil estabelecer as causas e entender o fenômeno completamente ”, explica ela.
Uso excessivo de antidepressivos
uso excessivo de antidepressivos, especialmente entre os mais jovens, pode ser uma explicação para esse aumento gradual, mas constante, dos suicídios. Um estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) revela que, entre 2006 e 2015, a taxa de suicídios aumentou 24% entre os adolescentes que moram nas grandes cidades brasileiras, enquanto caem no resto do mundo. O mesmo relatório mostra que os meninos têm três vezes mais riscos de se matar do que as meninas. "Há jovens que atendo que dizem: 'Por que tenho que permanecer vivo? É muito chato viver, é ruim, é triste'", diz Karen Scavacini .
"A sociedade, o desempenho e a expectativa de sucesso exigem das pessoas, especialmente as crianças que estão na fase pré-adolescente e os adolescentes, muito mais do que possam dar. A automutilação e o suicídio aparecem como um caminho". Muitos entram em uma experiência que a psiquiatria, fora do interesse e do poder do mercado, diagnostica como depressão. Por isso, acabam produzindo uma depressão real, medicada com antidepressivos. A relação desses medicamentos com o suicídio precisa ser investigada " , alerta o psiquiatra, Paulo Amarante, uma das principais referências em saúde mental no Brasil.
Indústria farmacêutica maciça
Paradoxalmente, a mesma indústria farmacêutica que tenta impedir o suicídio poderia encorajá-lo com os produtos químicos que injeta maciçamente no mercado. "Eu estudei bastante esse assunto, porque geralmente se afirma que a maioria dos suicídios é registrada entre as pessoas diagnosticadas com depressão, mas essa estatística também não é confirmada. Entre as pessoas sem diagnóstico, a porcentagem é semelhante. A relação entre antidepressivos e o aumento do suicídio precisa ser estudado ", insiste a psicóloga Ana Maria Feijoó.
Os suicídios cada vez mais frequentes entre policiais, sem dúvida, representam uma peculiaridade no Brasil, que tem as forças de segurança que mais matam e mais morrem no mundo. Somente em 2018, 104 policiais brasileiros deram fim a suas vidas, excedendo o número de policiais mortos durante o horário de trabalho (87). A violência à qual os agentes estão permanentemente expostos causa sérios danos psicológicos.
"O número de suicídios aumentou porque a pressão que sofremos é muito grande. Não temos condições dignas de salário ou material bélico. Nossos turnos de trabalho são muito apertados e os agentes têm pouco tempo para descansar, ficar com a família e relaxar. Muitos policiais sofrem atentados a caminho do trabalho. O número de agentes assassinados cresceu muito, então o que pensamos é: 'Quando será a minha vez?' "diz Flavia Louzada, sargento da Polícia Militar do Rio de Janeiro.
Polícia SOS
"O outro problema é que a corporação no Rio de Janeiro tem apenas três psiquiatras. Ou seja, não há condições de tratar os policiais que começam a apresentar transtornos psiquiátricos. Então o agente, com seu salário baixo, é obrigado a pagar para um psiquiatra em particular, se ele quiser ser tratado. Tudo isso significa que os policiais ficam doentes. Sem esquecer que, por si só, os policiais têm alguma resistência a serem tratados por psiquiatras, especialmente homens ", acrescenta Louzada.
Nilton da Silva, tenente da Polícia Militar e fundador de uma associação chamada Polícia SOS, também aponta as condições de trabalho como a principal causa. “Os suicídios são causados ​​pelo estresse. Os agentes têm turnos muito exaustivos e são forçados a realizar outros trabalhos no campo da segurança para aumentar o salário. Muitos policiais trabalham horas extras dentro e fora da corporação e esse esforço compromete seu lado psicológico. Muitos desses problemas seriam resolvidos com um salário justo ”, enfatiza.
Deve-se notar também que homossexuais e transexuais têm uma maior tendência ao suicídio.
"Mas, novamente, é difícil estabelecer se é devido à insatisfação com seu corpo ou à discriminação e até hostilidade que eles sofrem. Temos um grupo de estudo na Uerj dedicado a esse grupo e detectamos que muitos transexuais continuam insatisfeitos após a operação, porque eles não têm o corpo que queriam ", diz a psicóloga Ana Maria Feijoo.
O Brasil, onde a cada 19 horas uma pessoa LGBTI é morta, lidera o ranking latino-americano de violência contra esse grupo. "Quanto mais preconceitos existem contra LGBTIs, mais casos de suicídio são registrados", diz Karen Scavacini.
A situação no Brasil é ainda mais preocupante se considerarmos que os dados não são confiáveis. Quase nunca o suicídio é indicado como causa no atestado de óbito, devido à relutância das famílias em serem estigmatizadas. "Nos nossos grupos de luto, por exemplo, de cada 10 membros da família que assistem, apenas um ou dois têm suicídio como causa de morte no atestado", lembra Scavacini.
Apesar desses dados, os especialistas entrevistados por este jornal acreditam que o futuro pode ser animador devido a vários fatores. Em 2019, foi aprovada a Lei de Prevenção ao Suicídio, que instituiu um Plano Nacional para evitar mortes autoinfligidas. Além disso, em dezembro foi aprovada outra lei que qualifica como crime a instigação de suicídio e automutilação. "Esses fatores mostram que o Brasil começa a ver o suicídio como um problema de saúde pública e a tratá-lo sob a forma de lei. Esses são avanços importantes", diz Scavacini.
Para Feijoo, campanhas nacionais como 'Janeiro Branco' e 'Setembro Amarelo' também são essenciais para aumentar a conscientização do público sobre problemas relacionados à saúde mental. “Graças a eles, as pessoas têm coragem de procurar serviços públicos de saúde e admitem que estão pensando em cometer suicídio. Quanto mais oportunidades para verbalizar e ouvir essas pessoas, mais possibilidades temos de prevenção. Acho que em alguns anos as taxas de suicídio poderão cair significativamente se continuarmos prestando atenção a essas questões ”, prevê.


Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste texto, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra e ligue para o número do CVV: 188.


Texto original: ¿Por qué el país de la samba y la alegría es el campeón latinoamericano en suicidios? https://www.elconfidencial.com/mundo/2020-01-15/brasil-suicidio-samba-alegria_2404500/?fbclid=IwAR3TWhxemzZLJ3PPPmWyxQWeGyb638lpUA0yJVg5fDzK9ZCYVtm2ptEhzRQ









segunda-feira, 7 de outubro de 2019

A cara da depressão profunda e do suicídio é não ter cara


Qual é a “cara” de uma pessoa que está pensando em acabar com a própria vida? Qual é a “cara” de uma pessoa em depressão profunda e extrema?
Muitas vezes, é a cara de alguém triste, abatido, ansioso. Mas, muitas outras, é a cara de alguém que parece perfeitamente normal. Até feliz.
A necessidade dolorosa de ajuda e de apoio não tem uma cara. Tem sinais, muito mais sutis, que exigem atenção e verdadeira empatia para serem descobertos enquanto há tempo.

Chocantes, comoventes, reveladoras: 14 pessoas que pensaram ou tentaram se matar, em fotos tiradas pouco antes ou depois, e sua lição para nós: observar















Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste texto, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra e ligue para o número do CVV: 188.


Texto original: EM IMAGENS: A cara da depressão profunda e do suicídio é não ter cara / https://pt.aleteia.org/2018/06/14/a-cara-da-depressao-profunda-e-do-suicidio-e-nao-ter-cara/

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Estes calçados representam crianças que se suicidaram em 2017


226 pares de calçados foram colocados na escadaria deste pavilhão em Liverpool, representando as crianças que se suicidaram em 2017.

Uma instituição de caridade exibiu centenas de calçados de crianças nas escadarias de um salão de eventos com a finalidade de aumentar a conscientização sobre a prevalência do suicídio infantil no Reino Unido.
A Chasing the Stigma é uma instituição de caridade baseada em Liverpool, cujo principal objetivo é combater o estigma que cerca as doenças mentais.

A organização colaborou com a estação de rádio local Radio City Talk para montar um quadro que chamasse a atenção para o grande número de vidas de crianças que são perdidas para o suicídio todos os anos.
Trabalhando ao lado de outras instituições de cuidados em saúde mental, incluindo Papyrus e a Fundação Oscar Phillips, Chasing the Stigma colocou 226 pares de calçados nos degraus do St George's Hall, no centro de Liverpool.
Cada par de calçado representa uma das vidas, de uma criança, que foram perdidas para o suicídio em 2017.
A ação aconteceu na Semana da Saúde Mental Infantil, entre os dias 4 a 10 de fevereiro deste ano.
"As estatísticas são de partir o coração, mas muitas pessoas não estão cientes dos números ou da realidade que esses números implicam", diz Jake Mills, fundador da Chasing the Stigma. "Por trás de toda estatística está uma vida desnecessariamente e tragicamente perdida." 
"Queríamos transmitir isso e decidimos usar os sapatos como uma representação visual dessas vidas."
Todos os calçados usados ​​na exposição foram doados para a instituição. Numerosas pessoas elogiaram a organização por criar essa impactante campanha.
"É algo realmente horrível quando mostrado com tanta nitidez", escreveu uma pessoa no Facebook.
"Isso me deu arrepios. É muito triste que uma criança possa se sentir assim", acrescentou outra pessoa.



Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste texto, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra e ligue para o número do CVV: 188.



Texto original: CHARITY DISPLAYS HUNDREDS OF SHOES TO RAISE AWARENESS OF CHILD SUICIDE. By sabrina Barr    https://www.independent.co.uk/life-style/health-and-families/child-suicide-charity-campaign-shoes-chasing-stigma-radio-city-talk-liverpool-a8767611.html.
 Texto livremente traduzido e adaptado





domingo, 10 de fevereiro de 2019

Por que temos mais suicídios se temos mais psiquiatras e psicólogos?


Têm sido publicados recentemente alguns artigos que levantam muitas questões interessantes e que compartilham a mesma pergunta: Por que o aumento dos serviços de saúde mental não tem reduzido a prevalência de transtornos mentais? Não tenho as respostas para todas essas perguntas, mas posso fazer algumas reflexões sobre os problemas que surgem com base na pesquisa, na experiência clínica e na realidade cotidiana do meu trabalho como psiquiatra.
O primeiro é um pequeno artigo de opinião publicado no Australian & New Zealand Journal of Psychiatry , onde Roger Mulder, Julia Rucklidge e Sam Wilkinson argumentam que os países desenvolvidos enfrentam um dilema: eles têm aumentado os seus recursos direcionados para tratar problemas mentais, mas as taxas referentes ao estresse psicológico da população está piorando. Na Nova Zelândia, por exemplo, o investimento em saúde mental aumentou de 1,1 bilhões de dólares neozelandeses em 2008/2009 para perto de 4 bilhões em 2015/2016. O número de psiquiatras e psicólogos praticamente dobrou de 2005 a 2015 e mais pessoas do que nunca estão recebendo tratamento para seus problemas mentais. As prescrições de antidepressivos e antipsicóticos aumentaram mais de 50% e há mais pessoas medicadas do que nunca.
Mas, apesar desse esforço, certas medidas objetivas de saúde mental não melhoraram, ao contrário, até se agravaram. Segundo as pesquisas, o número de crianças que sofrem de transtornos psiquiátricos mais do que dobrou entre 2008 e 2013. O percentual da população que sofre estresse psicológico passou de 4,5% em 2011 para 6,8% em 2016. Como fator de incapacitação no trabalho as doenças mentais multiplicaram-se por quatro entre 1991 e 2011 e a taxa de suicídio continua alta.

O MODELO BIOMÉDICO ESTÁ ESQUECENDO OUTROS FATORES COMO A DESIGUALDADE ECONÔMICA, DESEMPREGO, PRECONCEITOS E VALORES COMPETITIVOS E MATERIALISTAS QUE AUMENTAM A DOENÇA MENTAL

Esses dados levam a uma pergunta óbvia: se as formas atuais de tratamentos são, de fato, eficazes, sua ampliação não deveria diminuir esses índices (estresse psicológico, suicídios, etc.)? Como parece que este não é o caso, é razoável continuar fazendo mais do mesmo? É uma boa ideia capacitar mais pessoal na área de saúde mental, prescrever mais tratamentos e aumentar os serviços? Existem tratamentos que funcionam em estudos controlados, mas não parecem funcionar em nível comunitário. Há quadros sintomáticos que não são doenças e são superdiagnosticados e as doenças mais graves são deixadas sem tratamento, onde será que o tratamento poderia ser mais eficaz? O tratamento é de má qualidade? Os tratamentos são aplicados tarde demais? As coisas ficariam muito piores sem esse crescente investimento em saúde mental?
De acordo com os autores, e eu concordo com eles, esses dados exigem que paremos para pensar e refletir sobre o modelo de serviço que temos e considerar se ele não estará causando danos em determinadas áreas. É possível que obter mais do que precisamos seja fazer menos, não mais. Igualmente, o modelo biomédico está esquecendo outros fatores, como a desigualdade econômica, o desemprego, os preconceitos e os valores competitivos e materialistas que aumentam a doença mental. Segundo os autores, precisaríamos de uma visão que vá além de dar mais tratamento. É preciso prover as necessidades básicas da vida diária e propor a modificação de fatores como comportamento familiar, na escola e no trabalho, na dieta alimentar no e estilo de vida.
Estou de acordo com o que os autores propõem e vou traçar um paralelo com outra doença médica crônica, o diabetes, para nos ajudar a entender que esses dados, que parecem paradoxais, são muito parecidos. Vamos nos fazer a mesma pergunta: o aumento de suprimento de medicamentos antidiabéticos diminuiu a prevalência de diabetes? Esta é a evolução das vendas de antidiabéticos nos EUA:
 De acordo com a Federação Internacional de Diabetes estima-se que a prevalência de diabetes vai passar de 366 milhões em 2011 para 552 milhões de pessoas em 2030. Como vemos o tratamento do diabetes não parece estar diminuindo a prevalência de diabetes.
E qual é a explicação? Gostaria de salientar dois aspectos:
1   1 Nosso estilo de vida é diabetogênico, não nos exercitamos, não seguimos uma dieta adequada, etc.
2    2Os tratamentos não são curativos, mas sim sintomáticos, ou seja, tratam ou melhoram a doença, mas não a curam.
Acontece a mesma coisa nos transtornos mentais? Eu acho que sim:
Nosso estilo de vida é depressogênico.
Os tratamentos psiquiátricos (antidepressivos, antipsicóticos, ansiolíticos ...) são eficazes enquanto são tomados, mas seu efeito desaparece quando são abandonados. Eles tratam, mas não curam.
Por que nosso estilo de vida é depressogênico? Porque, como dizem os autores, há desigualdade econômica, muito estresse e pressão no ambiente de trabalho e em todos os níveis. Nossos valores são competitivos e materialistas e, por outro lado, reduziu o apoio social apreciado no passado pelas pessoas: a família numerosa, o padre da paróquia e a religião, o número de pessoas que vivem sozinhas aumenta aos trancos e barrancos em países desenvolvido, etc.

O PROBLEMA NÃO ESTÁ NA CABEÇA DAS PESSOAS, O PROBLEMA ESTÁ NO MUNDO EM QUE AS PESSOAS ESTÃO VIVENDO

Este estilo de vida diabetogênico e deprimente está levando mais e mais pessoas a procurar os endocrinologistas e psiquiatras e psicólogos. Nem tratamentos psiquiátricos nem psicológicos podem parar essa avalanche, eles podem aliviar e tratar os sintomas, mas eles não podem mudar o mundo lá fora. O problema não está na cabeça das pessoas, o problema está no mundo em que as pessoas estão vivendo (falo dos quadros adaptativos mais leves, não penso o mesmo de doenças psiquiátricas graves).

O segundo artigo é  de Robert Whitaker, autor do livro Anatomia de uma Epidemia, intitulado Suicide in the Age of Prozac . O artigo faz perguntas como se há uma epidemia de suicídio nos Estados Unidos, se as campanhas de prevenção de suicídio funcionam e se os antidepressivos reduzem o risco de suicídio. A resposta para a primeira pergunta é que não há uma epidemia de suicídio nos EUA. Se olharmos para uma longa série histórica, a proporção de suicídios nos EUA em 1950 foi de 13,2 / 100.000 e em 2015 foi de 13,3 / 100.000, então em linhas gerais permaneceu estável. Parece haver uma tendência de queda até o ano 2000 e depois sobe novamente para o mesmo nível. Em relação à eficácia dos programas de prevenção do suicídio, eles começaram aproximadamente no ano 2000 e desde então tem havido um aumento na taxa de suicídio, de modo que parece não haver uma influência. Quanto a se os antidepressivos reduziram os índices de suicídio, isso não é confirmado, embora eu ache que os dados não endossem.


Whitaker analisa se o aumento nos serviços e recursos em saúde mental diminuiram o suicídio. E para isso, concentra-se em três tipos de indicadores:
1. A eficácia das políticas, programas e legislação de saúde: conclui com base nos estudos de Rajklumar et al., que os países com melhores serviços psiquiátricos e um maior número de psiquiatras e leitos psiquiátricos têm uma taxa maior de suicídio.
2. O risco de suicídio em pacientes que recebem tratamento psiquiátrico: conclui que quanto maior o nível de tratamento psiquiátrico, maior o risco de suicídio.
3. O impacto dos antidepressivos.  Aqui ele revisa estudos controlados com placebo, estudos epidemiológicos e estudos ecológicos e conclui que existe uma correlação entre o aumento de suicídios no período 2000-2016 e o ​​aumento na prescrição de antidepressivos.
Finalmente, ele conclui que uma nova conceituação de suicídio é necessária, para além da medicalização do suicídio, o que implicaria uma nova forma de abordá-lo. Segundo Whitaker, o suicídio deve ser visto como algo que surge dentro de um contexto social e essa abordagem deve ter maior respeito pela autonomia da pessoa que tem sentimentos suicidas.
No geral, o artigo é muito interessante e as perguntas são muito válidas, embora as respostas sejam bastante discutíveis. E o artigo tem seus problemas, particularmente dois muito importantes. Em primeiro lugar, tudo o que Whitaker analisa são correlações e a partir daí é impossível extrair causalidade, ele próprio alerta para isso, de passagem. Além disso, Whitaker seleciona certos períodos como 1987-2000 e 2000-2016. Antidepressivos inibidores seletivos da recaptação (SSRIs) surgem em 1987, exato quando começa um declínio nas taxas de suicídios que vão até 2000. Alguns psiquiatras atribuem esse declínio aos SSRIs, algo que Whitaker descarta (provavelmente com razão). Ele atribui esse declínio mais propriamente a fatores sociais como a diminuição do número de armas e a diminuição do desemprego. Como a partir de 2000, as armas e o desemprego não oscilaram, Whitaker atribui o aumento dos suicídios aos antidepressivos. Isso é muito simplista e arriscado. Em um fenômeno tão complexo e observado em longos períodos, literalmente milhares de fatores influenciam e muitos deles são desconhecidos. Desejar explicar essas mudanças com 3-4 fatores é uma tarefa arriscada (por exemplo, em outros países, o aumento de suicídios não ocorreu nos anos 2000-2016, como nos EUA, apesar de aumentos similares na prescrição de antidepressivos).
O segundo problema que o artigo é confuso, como no ponto 2) e, em parte, no ponto 3) quando afirma que maior intensidade de tratamento produz aumento do risco de suicídio. Isso é óbvio. Onde as pessoas mais morrem, em um hospital ou em uma empresa? Evidentemente, em um hospital, porque os pacientes com doenças graves que chegam a ele apresentam um risco maior de mortalidade. Pacientes psiquiátricos que foram internados têm um risco maior de suicídio, diz Whitaker, e culpa o trauma da internação pelo suicídio. Mas os pacientes não são admitidos aleatoriamente, mas com base nos sintomas e sinais clínicos de maior gravidade, que estão relacionados a um aumento do risco de suicídio.
Em todo caso, embora seja possível aceitar que os antidepressivos possam levar ao suicídio em alguns casos, eu não acho que as provas apresentadas por Whitaker mostram que os antidepressivos são a causa do aumento da taxa de suicídio nos Estados Unidos. Entretanto, eu acredito sim que os dados apoiam que os antidepressivos não reduzem o risco de suicídio globalmente, no nível da comunidade. Com o grande aumento na prescrição e venda de antidepressivos, se eles estão sendo prescritos para as pessoas certas, para aqueles que sofrem sintomas relacionados ao risco de suicídio, acho que a taxa de suicídio deveria ter, como resultado, uma importante diminuição. Também concordo com Whitaker sobre a necessidade de reconceituar o suicídio e os transtornos mentais comuns de outra maneira e que a medicalização pode não ser a resposta apropriada.

Mas me pareceu também que o estudo de Whitaker é um pouco limitado, concentrando-se apenas em psiquiatria e antidepressivos. Quando o li, me perguntava: E as psicoterapias? Muitas pessoas, tomando ou não medicamentos, também fazem algum tipo de psicoterapia. Podemos fazer correlações entre o número de pessoas fazendo psicoterapia e as taxas de suicídio ou medidas de saúde mental em geral?

É NECESSÁRIA UMA NOVA CONCEITUAÇÃO DO SUICÍDIO, QUE NÃO SEJA A DA MEDICALIZAÇÃO, E UMA NOVA FORMA DE RESPONDER AO SUICÍDIO

Pesquisei por publicações científicas na Internet e não encontrei absolutamente nada sobre o número de pessoas que fazem psicoterapia e sobre a evolução histórica deste número, ou seja, o que aconteceu nas últimas décadas, se houve um aumento ou não. Minha intuição é que esse número provavelmente tem aumentado, tanto a procura por psicoterapias "formais", como a terapia cognitivo-comportamental (acho que diminuíram as de orientação psicanalítica) como a procura por terapias mais informais como mindfulness, coaching, etc., e provavelmente também muitas outras assim chamadas "alternativas". De qualquer forma, não encontrei dados.
Mas encontrei informações de um programa muito interessante que foi publicado pelo NHS britânico (Serviço Nacional de Saúde inglês, tipo o SUS brasileiro) na Inglaterra em 2008, Melhorando o Acesso às Terapias Psicológicas (IAPT). Em 2010, o programa foi estendido a crianças e adolescentes.
O IAPT é um programa para oferecer psicoterapia (principalmente cognitiva) na atenção primária à saúde lançado em 2008 pelo economista Richard Layard e pelo psicólogo clínico David Clark, que obtiveram apoio político para implementá-lo. Nos 10 anos em que está em operação, estima-se que sido tenha investido um bilhão de libras. O programa vem atendendo cada vez mais pessoas. Em 2014-2015, 1,3 milhões de pessoas foram encaminhadas ao programa, das quais 815.665 foram tratadas. Em 2017, ao IAPT foram encaminhados 960.000 pessoas, e tratadas de cerca de 560.000. O objetivo é recrutar 10.500 terapeutas até o ano 2021, embora pareça difícil que essa quantidade venha a ser atingida e que os terapeutas do programa estejam bastante sobrecarregados com o excesso de trabalho.
O programa tem dois tipos de intervenções, uma de baixa intensidade e outra de alta intensidade:

 Atualmente há muita polêmica sobre a real efetividade deste programa e sobre seu custo real, que de acordo com alguns é maior do que o declarado oficialmente. O discurso oficial diz que melhoram 50% dos pacientes tratados, mas alguns estudos têm sido publicados, como o de Michael Scott, que entrevistou de forma estruturada a 90 pacientes, mostrando que melhoram apenas 9,2%.
E além das dúvidas sobre sua eficácia, há alguns fatos interessantes: as vendas de antidepressivos continuaram a aumentar na Inglaterra e as incapacitações por depressão - e transtornos mentais em geral - também. Quanto aos índices de suicídio, coloquei no gráfico abaixo. Não parece haver nenhuma mudança significativa desde 2008. Ele já havia descido e estagnado e aumentou um pouco:


Eu quero voltar para a ideia, que eu expressei acima, de que nosso estilo de vida é deprimente ou estressante ou o que quer que chamemos, uma ideia que eu acho que explica muito de tudo o que temos discutido neste artigo.
Nosso modelo atual assume que os transtornos mentais comuns são devidos a mecanismos ou processos defeituosos de algum tipo que ocorrem dentro do indivíduo. Isso coincide tanto com o modelo médico / psiquiátrico quanto com a terapia cognitivo-comportamental, a mais utilizada no IAPT. No modelo médico é uma falha nos transmissores e no modelo cognitivo é uma falha nas cognições do indivíduo. De acordo com este modelo, existem tratamentos corretos para esses transtornos - que são descritos em diretrizes – e são aplicados e espera-se que os transtornos sejam resolvidos. Mas, como vimos, as prescrições de antidepressivos não diminuem as depressões e nem, tampouco, outras formas de incapacitação devido à doença mental. Nosso modelo atual diz que o problema está na cabeça das pessoas e não no contexto em que as pessoas vivem, no mundo lá fora.
Minha experiência profissional não corresponde a este modelo. Boa parte das consultas que atendemos em um centro de saúde mental são desordens adaptativas aos problemas que as pessoas têm em seu ambiente, principalmente no ambiente de trabalho. Para ilustrá-lo com um exemplo superficial, sem muitos detalhes, uma pessoa que trabalha como operador de telemarketing, em um supermercado, na administração de um serviço de emergência, como um técnico em computação, etc. No trabalho dessa pessoa, em um determinado momento, há uma mudança de chefe e ele ou ela começa a estressá-lo com exigências, mudanças, pressões, etc. A angústia da pessoa vai aumentando e começa a ter medo de ir trabalhar, passa a dormir mal, ele não para de pensar na sua situação e a qualquer momento acaba sofrendo um ataque de pânico em seu trabalho: angústia, choro, palpitações.

MUITAS DAS CONSULTAS QUE FAZEMOS EM UM CENTRO DE SAÚDE MENTAL SÃO DESORDENS ADAPTATIVAS PARA PROBLEMAS QUE AS PESSOAS TÊM EM SEU AMBIENTE, PRINCIPALMENTE NO LOCAL DE TRABALHO

Podemos discutir se esses tipos de casos constituem um transtorno mental ou se são problemas de vida. Mas gostaria de dizer duas coisas. A primeira é que esses casos não são banais. Por conta dessas questões a pessoa passa a ter pensamentos de suicídio e acaba na Internet procurando maneiras de acabar com sua vida. Estamos falando de pessoas que se sentem aprisionadas, que têm hipotecas, contas a pagar, filhos, e que não conseguem encontrar uma saída para a sua situação, porque vêem que não podem trabalhar e ao mesmo tempo vêem que não conseguem trabalhar. Essas questões não são coisas menores e sem importância. Em segundo lugar, não há abordagens e tratamentos alternativos para esses problemas "sociais". Se eles acabam em psicólogos e psiquiatras, é porque o sistema não tem outras soluções.
Vou usar um exemplo do próprio IATP para apoiar o que estou dizendo. Os terapeutas do programa IAPT veem apresentando um alto nível de bournout profissional ou síndrome de bournout. Como discutido acima, o tratamento com IAPT é administrado em dois níveis: um baixo nível de intensidade e um alto nível de intensidade. Aqueles que administram o nível de baixa intensidade são chamados PWP (praticantes de bem-estar psicológico), enquanto aqueles que administram o nível de maior intensidade são geralmente terapeutas cognitivos. Bem, os PWP têm 68,6% de taxas de desgaste emocional e as taxas dos terapeutas cognitivos são de 50%. As causas são as altas cargas de trabalho e parece que, em particular, o uso do telefone. Os PWPs usam mais o telefone para atendimento terapêutico do que os terapeutas de alta intensidade, que só o usam para informar sobre as consultas.
Mas o que me interessa neste artigo são as soluções que propõem:
1. Redução da carga de trabalho (menos horas) e, principalmente, redução do uso do telefone.
2. Aumentar a supervisão clínica recebida, ou seja, oferecer mais apoio.
O que essas duas medidas têm em comum? Prestem atenção, isso é muito importante: São medidas que afetam o mundo exterior, o ambiente de trabalho da pessoa, e não a cabeça. Não se propõe a dar-lhes antidepressivos ou fazer terapia cognitiva em si ... curioso, não é?
Eu também gostaria de ter este tipo de medida com meus pacientes, para poder afetar suas condições de trabalho e suas condições de vida em geral. Mas isso não é possível. E a mesma impossibilidade acontece com os psicólogos e psiquiatras. Podemos dar aos nossos pacientes sedativos para dormir melhor, ansiolíticos e antidepressivos, para que fiquem menos ansiosos, para que deem menos atenção aos seus problemas e toquem a vida o melhor possível, mas não posso mudar o mundo que eles têm de enfrentar. Acho que isso explica muitos dos dados que manipulamos neste artigo: Nós criamos uma cultura competitiva que avança em um ritmo diabólico e mais e mais pessoas são deixadas para trás e não podem segui-lo. Psiquiatras e psicólogos o que fazemos, no fundo, é ajudar as pessoas a reajustarem-se ao mundo exterior quando tenham esgotadas a sua força mas, na verdade, talvez, seria preciso é mudar o mundo exterior e não as suas cabeças.
Whitaker menciona o artigo de Rajkumar que encontra uma relação entre países com melhores serviços psiquiátricos e uma taxa mais alta de suicídio. Mas os países com melhores serviços psiquiátricos são também os mais ricos e, portanto, os mais afetados por um estilo de vida estressante.
O fato é que os centros de saúde mental e os consultórios seguirão recebendo mais e mais pessoas a cada dia e os dados que conseguimos indicam que mais psiquiatras, mais psicólogos e mais leitos psiquiátricos não são a solução. O que é conclusivo é que há um problema lá fora e não na cabeça das pessoas.




Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste texto, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra e ligue para o número do CVV: 188.


Texto original: ¿A más psiquiatría peor salud mental? 
Por
 Pablo Malo Ocejo / 
https://www.psyciencia.com/mas-psiquiatria-peor-salud-mental/?fbclid=IwAR0HZsMgbc3wnzA73cw8_YYEaDj3huyOcbDr4Y3FnC_LImz5cA8VxBcQRtc

Texto livremente traduzido e adaptado.

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