sábado, 8 de abril de 2017

6 Razões porque não sou uma fã de '13 Reasons Why'


Para início de conversa devo dizer que sou alguém portadora de uma doença mental e uma sobrevivente de tentativa de suicídio. Atualmente, eu sou uma advogada atuante na área de saúde mental e futura clínica. Eu li o livro “Thirteen Reasons Why”, agora transformado em filme, quando tinha em torno de 14 anos, no começo do agravamento de meus quadros de depressão e pensamentos suicidas. Eu realmente não gostei da leitura naquela época e do filme também, agora.
Eu reconheço que essa história tem tocado muita gente e que tem fornecido conforto e consolo para alguns. Sei que muitas pessoas estão realmente apreciando a Série e incentivando outros a assisti-la e a ler o livro também. Compreendam que eu não quero desencorajar aos que estão encontrando no filme elementos que possam ajudá-los com seus próprios problemas, eu quero apenas esclarecer alguns pontos negativos que a Série contém.
1. Ele simplifica o suicídio e perpetua a ideia de que o suicídio de alguém tem um culpado.
Veja, todos nós somos afetados pelo que fazemos e pelo que nos acontece. E às vezes, o que nos acontece realmente é injusto, doloroso ou mesmo traumatizante. Não estou dizendo que essas coisas não importam, porque elas nos afetam sim. Quando confrontados com as coisas abordadas em '13 Reasons Why', como bullying, boatos maldosos e estupro, elas afetam violentamente a nossa saúde mental. Mas não podemos perpetuar a ideia de que há uma conexão direta e linear para o porquê de um suicídio acontecer, apontando os dedos para os colegas, pais ou outros indivíduos como diretamente responsáveis. Isso é prejudicial. O suicídio é uma questão complexa e não pode ser compreendido colocando o ônus exclusivamente sobre alguém. Às vezes, o suicídio não tem outra razão senão a depressão intensa ou outra doença mental como a esquizofrenia, transtorno de personalidade limítrofe ou transtorno bipolar. É perturbador ver um suicídio retratado querendo que os outros se sintam culpados, em vez de se concentrar nas emoções e pensamentos da pessoa e que a levaram a tirar sua vida.
2. Ele acrescenta combustível para a fogueira dos mitos suicidas, como "todo suicida é um egoísta".
As pessoas que acreditam nos mitos nocivos sobre o suicídio podem olhar para este filme e dizer que ele confirma ou é uma "prova” do seu ponto de vista. O fato de que Hannah, a garota que morre por suicídio na história, enviar fitas pré-gravadas detalhando as razões (tanto os eventos quanto as ações das pessoas) que a levaram ao suicídio são desconfortáveis. E deve ser. A moral da história é que precisamos reconhecer que a forma como tratamos as pessoas as afeta de maneiras que nem sequer sabemos. Isso é verdade. Mas o que é desconfortável é o suicídio de Hannah ser visto como uma maneira de expor o que as pessoas fizeram com ela. Isso é bastante prejudicial para ser feito postumamente, sugerindo que o suicídio era a única maneira de fazer sua voz ser ouvida.
3. Desvaloriza experiências de suicídio e intimidação.
Nós temos visto repetidamente histórias sobre bullying que conduzem ao suicídio, mas como exatamente isso ocorre? E qual mensagem essas histórias nos enviam? Experimentar bullying é traumático e cada indivíduo lida com a intimidação a sua própria maneira. Como diz a advogada de saúde mental e palestrante Alicia Raimundo: "sua experiência de bullying é válida mesmo se você nunca tivesse sido suicida e seus sentimentos de suicídio são válidos mesmo que você nunca tenha sofrido bullying". O bullying não causa suicídio diretamente. E a Série perpetua a falsa ideia de que o resultado normal para bullying pode ser o suicídio - o que simplesmente não é verdade. Isto não quer dizer que o bullying não afeta a saúde mental ou não tenha uma grande influência sobre alguém se tornar suicida.
 4. Desconsidera as diretrizes oficiais sobre informações seguras e responsáveis ​​sobre o suicídio.
Nós sabemos que Hannah morre por suicídio. É a premissa da história e revelada desde o início. A Série seria igualmente eficaz e impactante mesmo evitando mostrar o retrato gráfico e detalhado do suicídio de Hannah, no último capítulo. O que é uma violação direta do arco de pesquisas conduzido pela Fundação Americana para a Prevenção do Suicídio e outras organizações de prevenção do suicídio, quando eles consideram que: “O risco de suicídios adicionais aumenta quando a história descreve explicitamente o método do suicídio, usa manchetes dramáticas / gráficas ou imagens e a cobertura repetida / extensa sensacionalista ou glamoriza a morte".
 5. Não aborda a doença mental na adolescência.
Nem todos os que morrem por suicídio têm doença mental, mas um transtorno mental e / ou abuso de substâncias é encontrado em 90% das mortes por suicídio. E quando se trata de adolescentes, um em cada cinco tem (ou terá) uma grave doença mental. Com essas estatísticas em mente, não é de admirar que o suicídio seja a terceira causa de morte entre crianças de 10 a 14 anos de idade e a segunda entre jovens de 15 a 34 anos. Claramente, estas são questões importantes e que precisam ser abordadas. '13 Reasons Why' é um dos primeiros e mais populares retratos da mídia sobre o tema do suicídio na adolescência e não abordou em nenhum momento a questão da doença mental. Com isso se perdeu uma oportunidade crucial para discutir um assunto que afeta a vida de tantas crianças e adolescentes.
 6. Não há exemplo de busca de ajuda bem-sucedida.
Um tema em toda a história é o silêncio. Nenhum dos adolescentes fala com seus pais, professores, funcionários ou qualquer um, nem um ao outro sobre seus sentimentos. Quando Hannah estava contemplando o suicídio e preparando as fitas, ela fez "uma tentativa" para pedir ajuda. Procurou o conselheiro da escola e como ele não apresentou habilidade e sensibilidade para compreender o que estava acontecendo com ela, deixando-a ir embora sem ajuda, ficou a mensagem de que uma ajuda efetiva é inalcançável. Que há uma coisa como "tarde demais" para ser ajudado. Depois de seu suicídio, seus colegas também não receberam ajuda. Vários personagens experimentam uma grande dificuldade emocional em lidar com as fitas, mas quando os pais e professores pedem que se abram, eles se negam.
 Bem mais útil numa Série que aborda o suicídio, e para os adolescentes, seria mostrar como pedir ajuda, como tratamento e aconselhamento para suas questões emocionais estão disponíveis - não que todos venham a aceitar. "Estou bem" é a frase com que os adolescentes marcam o fim de suas conversas.
Queria que um único personagem permitisse alguém intervir para brilhar alguma luz, para ser uma imagem de esperança, o que poderia ajudar a transformar uma narrativa de desespero e silêncio para uma que encorajasse a conversa e busca de ajuda. E não precisaria ser um exemplo do que fazer, mas apenas do que não fazer. Quando apresentamos uma situação cheia de falhas sem que apontemos os devidos caminhos para a mudança, em nada estamos ajudando para que a situação se modifique.
Não interpretem que eu considere a Série e o livro como ruins. A história age como um poderoso aviso de que devemos sempre estar cientes de como nossas palavras e ações afetam os outros. É histórias como estas que me lembram do trabalho que precisa ser feito na mídia envolvendo advogados, especialistas e pessoas com experiência para garantir que estaremos apresentando histórias que precisam ser contadas da maneira mais responsável e eficaz possível, junto com uma clara representação de que é possível obter ajuda e como obter ajuda.

Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste texto, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra e ligue para o número do CVV: 141.

Texto original: 6 Reasons I'm Not a Fan of '13 Reasons Why' / https://themighty.com/2017/04/thirteen-reasons-why-jay-asher-suicide-problematic/ By Alyse Ruriani

 Texto livremente traduzido e adaptado.

domingo, 19 de março de 2017

A batalha de um psicólogo sobrevivente de tentativa de suicídio


O Dr. Bart Andrews tem uma das histórias mais empolgantes de alguém que eu conheço na luta pela prevenção do suicídio. Ele é um psicólogo talentoso, um batalhador enérgico de campanhas para a prevenção do suicídio e um sobrevivente de tentativa de suicídio.
Dr. Andrews e Sheila Hamilton, autores de “All the Things We Never Knew, Chasing the Chaos of Mental Illness, ” explicam os resultados de um novo relatório cujos dados demonstram aumentos das taxas de suicídio nos EUA ao longo de um período de 15 anos e que se acumulam para um aumento global indicando que o suicídio tem subido para os mais altos níveis nesses últimos 30 anos.
As taxas têm particularmente aumentado entre as mulheres e entre os americanos de meia-idade.
A taxa de suicídio de mulheres de meia-idade, entre 45 e 64 anos, saltou 63% durante o período do estudo (1999 -2014), enquanto aumentou 43% por cento para os homens nessa faixa etária, o maior aumento para os homens de qualquer idade. A taxa global de suicídio aumentou 24% entre 1999 e 2014, de acordo com o National Center for Health Statistics, que lançou o estudo.
A National Action Alliance for Suicide está desenvolvendo parcerias com líderes em todo o país para implementar estratégias de prevenção do suicídio. Muitos esforços de prevenção estão em curso para reduzir o suicídio através de contatos com as comunidades como de forma on-line também. 
 A Action Alliance nos lembra: Para cada pessoa que morre por suicídio, há aproximadamente 278 pessoas que tiveram pensamentos sérios sobre matar-se, e quase 60 que sobreviveram a uma tentativa de suicídio. Qual a mensagem mais importante desses números: A esmagadora maioria dos sobreviventes dão seguimento a suas vidas. Eles experimentam aterradores pensamentos suicidas e se recuperam e passam a viver suas vidas, muitas vezes de forma mais rica e gratificante. Precisamos nos concentrar mais nas histórias não contadas de recuperação e superação. Este é o trabalho do Dr. Bart Andrews e tantos defensores dedicados à prevenção do suicídio.


Para maiores informações:
http://actionallianceforsuicideprevention.org/sites/actionallianceforsuicideprevention.org/files/Action-Alliance-Response-to-CDC-Report-Final-2016-04-22.pdf
https://www.nytimes.com/2016/04/22/health/us-suicide-rate-surges-to-a-30-year- high.html?_r=1&utm_source=huffingtonpost.com&utm_medium=referral&utm_campaign=pubexchange_article


Texto original: A Psychologist/Suicide Attempt Survivor Reacts to New U.S. Suicide Stats. Disponível em: http://www.huffingtonpost.com/sheila-hamilton/a-psychologist-and-suicid_b_9769338.html


Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste texto, ligue para o número do CVV: 141 e, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra.



sábado, 18 de março de 2017

Suicídio e Transtornos Mentais



                                                      American Association of Suicidology

domingo, 5 de março de 2017

Suicídio: Sinais de Alerta


Risco Imediato
Alguns comportamentos podem indicar que uma pessoa está em risco imediato de suicídio.
Os três seguintes devem solicitar que você procure logo um profissional de saúde mental.
  • Falar insistentemente sobre querer morrer ou se matar.
  • Procurar uma maneira de matar a si mesmo, como pesquisar na internet ou obter uma arma.
  • Falar que perdeu toda esperança ou que não tem mais nenhuma razão para viver.
Risco Sério
Outros comportamentos também podem indicar um risco sério - especialmente se o comportamento é novo, aumentou e/ou parece relacionado a um evento doloroso, uma perda (emprego, morte, separação de alguém significativo) ou mudança.

  • Falar que está sentindo uma dor insuportável.
  • Falar sobre ser um fardo para os outros.
  • Aumentar o uso de álcool ou drogas.
  • Estar muito ansioso ou agitado; comportando-se imprudentemente.
  • Dormir muito pouco ou muito.
  • Evitar contatos ou sentir-se isolado.
  • Mostrar muita raiva ou falar sobre querer vingança.
  • Mostrar mudanças de humor extremas.


SPRC Suicide Prevention Resource Center


Texto original disponível emhttp://www.sprc.org/about-suicide/warning-signs



Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste texto, ligue para o número do CVV: 141 e, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Devo continuar namorando uma pessoa que ameaça se matar?


Olá Rosimeire, namoro a mais de um ano e venho passando por uma situação extremamente difícil. Infelizmente ele fez várias coisas que me aborreceram e me decepcionaram, porém quando falo em separação, ele ameaça se matar com tiros e remédios. E realmente tentou. Voltei com ele por isso e estou tendo que fingir amar e fazer declarações para que ele não se mate ou não tente se matar. Me ameaçou se eu contar algo para alguém e não pode pedir ajuda de um psicólogo devido ao seu serviço. Preciso de ajuda urgente. Não sei como agir e nem o que fazer. Não quero mais ficar com ele. Estou com medo! Preciso de ajuda!
Ele está conseguindo te forçar a ficar com ele contra sua vontade, manipulando seu medo e culpa. Ao reatar o namoro você provou para ele que esse jogo funciona e que você está à mercê da manipulação dele.
Ao manterem esse relacionamento vocês dois estão se privando de serem felizes. Você, por estar presa em um namoro que não quer mais, com uma pessoa que você não ama. E ele, por não procurar meios de superar essa obsessão, que também o mantém preso a um sentimento e a um relacionamento nada saudável.
Ele é responsável pelas alegrias e frustrações que passar ao longo da vida. Momentos ruins e tristezas são inevitáveis. Você não tem como livrar ninguém de desses momentos ruins que são inerentes à vida. Você não tem obrigação de ficar ao lado de ninguém quando não quiser.
Lembre-se, que o relacionamento chegou a este ponto em consequência de ações dos dois. Se ele não conquistou/manteve seu amor isso é responsabilidade dele. Você mesma diz que ele te decepcionou. Então, é preciso que ele enfrente as consequências dessas ações. Ou seja, enfrente o fato de você não querer mais ficar ao lado dele.
Não é justo que você tenha que se sacrificar porque ele não sabe lidar com frustrações. A responsabilidade de lutar pela própria felicidade é de cada um. Você tem todo o direito de ser feliz, de entrar e sair de um relacionamento na hora que desejar.
Uma pessoa que está em risco de cometer suicídio passa por estágios de desenvolvimento da ideia e do ato suicida. Essas pessoas dão sinais de que não sentem mais vontade de viver. Sentimento de depressão, desamparo, desesperança e desespero são sinais de que a pessoa realmente pensa em se matar.
Tentativas e ameaças de suicídio não devem ser supervalorizas e nem ignoradas. Devem ser interpretadas como um pedido de ajuda de alguém que está problemas emocionais. Seja porque não quer mais viver, ou porque não sabe lidar com as dificuldades da vida.
Se ele tem intenção de se matar, isso quer dizer que ele está sofrendo muito, está doente emocionalmente e precisa de ajuda. Mas, sozinha você não vai conseguir livrá-lo disso. E nem será o fato de manter o namoro que irá fazer com ele se recupere.
Você menciona que ele não pode ir a um psicólogo por causa do trabalho dele. Tem certeza disso? O acesso à saúde é um direito universal e não pode ser negado a ninguém. Não conheço nenhuma forma de impedimento a tratamentos psicológicos e/ou psiquiátricos. Busque se informar, é muito provável que essa informação esteja incorreta.
Você não precisa carregar toda essa situação sozinha, é muita coisa para uma única pessoa. Tente conversar com pessoas em quem você confia e de quem gosta. Busque ajuda psicológica para você. É possível que esteja sofrendo ainda mais do que ele diante dessa situação. Procure um psicólogo para te orientar a como lidar com isso. Se continuar sofrendo calada e sozinha é provável que você também adoeça.

Texto original de autoria e publicado pela psicóloga Rosimeire de Oliveira, em 01/08/2014. Disponível em: http://www.rosimeireoliveira.com.br/?q=node%2F39


Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste texto, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra.



quarta-feira, 1 de março de 2017

O que acontece após o resgate de uma tentativa de suicídio?



Notícia postado em 27/02/2017 no jornal Correio Braziliense sob o título: Policias resgatam mulher que ameaçava se jogar da plataforma da Rodoviária
"Um policial militar impediu que uma moradora de rua se jogasse no Buraco do Tatu, da plataforma superior da Rodoviária do Plano Piloto, na manhã da última segunda-feira (27/2). O tenente Wesley Eufrásio, 36 anos, conversou com a mulher, a distraindo, até que que o sargento Cláudio Celestino pudesse agarrá-la, impedindo o suicídio.
Segundo o tenente, a mulher parecia estar sob influência de drogas na hora do ato. “Ela não falava coisa com coisa, dizia que não era amada pela família e que seria um alívio se morresse”, conta. Durante o diálogo, o tenente tentou ganhar a confiança da mulher e garantir que ela se acalmasse. “Sou católico praticante, então comecei a falar um pouco de Deus e dizer que ele poderia mudar a situação dela”, completa. 
Após o resgate, a mulher foi encaminhada pelo Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (CBMDF) ao Hospital de Base, onde está sendo medicada. A moradora de rua aparentava ter entre 25 e 30 anos, ainda de acordo com o relato dos policiais."
E o que acontece após o resgate de uma tentativa de suicídio? A partir daqui começa a nossa reflexão.
Conforme demonstrou nossa pesquisa Representações Sociais dos Profissionais de Saúde Acerca do Fenômeno do Suicídio, quando os suicídios não são consumados temos a tentativa de suicídio. Socorridos por familiares, pelos bombeiros ou por uma unidade médica de atendimento móvel, o SAMU, esses indivíduos de uma maneira geral são encaminhados para as unidades de emergência de um Hospital Geral, público ou particular, onde serão atendidos e tratados em suas lesões físicas autoinfligidas.  E aí, como explica a fala de um profissional:
“Depende. Quer dizer, tem que tratar a causa daquilo que vai tirar a vida da pessoa naquele momento dentro do Pronto Socorro, é assim que a gente trata, como se fosse qualquer outra coisa. Se o suicida é um cara que deu um tiro no peito, tem que tratar igual se o cara tivesse tomado um tiro no peito acidentalmente, não tem diferença. É o que eu estou dizendo, não há uma abordagem voltada para o suicida. Ah, fez uma lesão cáustica porque tomou um negócio... um químico lá. Lá vai a gente ver se atrapalha a respiração, se vai obstruir o esôfago daqui a pouco, é isso que a gente vai fazer no pronto socorro. Evidente se o paciente teve que ficar internado sempre é feito um parecer da psiquiatria, sempre é feito alguma coisa, etc. Mas não é uma coisa que a gente faz no Pronto Socorro. Aquela hora que ele vai morrer daquilo entendeu? Se ele tiver alguma coisa que precisa ser visto tipo, como o exemplo do tiro, a gente teve que drenar ou operar, ele vai para a enfermaria da cirurgia geral ou da clínica médica, se for veneno ou alguma coisa assim e lá é pedido um encaminhamento pra psiquiatria. Se for um paciente, por exemplo, que chegou aqui não tem nada, sei lá, tentou cortar algum vaso, não pegou o vaso superficial, você acha realmente que aquela pessoa pode se matar daqui há um algum dia, volta para casa e pode vir a fazer alguma coisa, daqui mesmo a gente pede para o psiquiatra vir ver. Mas tem muito hospital que não tem psiquiatria, na minha opinião isso é um absurdo, mas a maioria não tem. Se a gente acha que não tem condições, não libera, isso é a critério do médico. Vai ao chefe de equipe e fala: tem paciente suicida e eu não vou dar alta, se der alta ele vai correr pra frente do ônibus e vai morrer. Você não pode dar alta, se der alta a culpa é sua. O chefe de equipe tem que resolver essa parte aí administrativa. Pega a ambulância e transfere para o hospital psiquiátrico se for o caso, mas isso é raríssimo”.
Na fala desse profissional médico, dentre outros entrevistados na pesquisa, enfermeiros e técnicos de enfermagem, fica manifesta a existência de protocolos de ações e cuidados que, com muito rigor e profissionalismo, esses profissionais procuram observar. Os sujeitos, suicidas, quase sempre são levados para o Pronto Socorro de um Hospital Geral, dada a instrumentalização dos mesmos para o atendimento às lesões físicas decorrentes dos danos provocados ao tentar tirar a vida. É o que acontece.
Entretanto, fica também evidenciado que o cuidado é para o corpo. E quanto a “alma”? Sofrimentos, “lesões”, dores, “cortes”, que levam uma pessoa a tentar o suicídio são de domínio da “alma”, não do corpo. Esses profissionais, de um modo geral, desconhecem a complexidade do fenômeno suicídio por não terem recebido, durante a sua formação acadêmica, uma preparação adequada para lidar com a dinâmica singular de um paciente suicida. Foram formados e treinados para salvar vidas, daí a ambivalência – revelada também na pesquisa – de suas reações ao serem confrontados por situações nas quais o elemento mais complexo e impactante não é necessariamente a lesão a ser tratada, decorrente do ato suicida, e sim um indivíduo que quer, exatamente, pôr fim à sua vida.
“Pega a ambulância e transfere para o hospital psiquiátrico se for o caso, mas isso é raríssimo”.
É raríssimo porque a maioria dos Hospitais Gerais, no Brasil, não possuem setores de psiquiatria, logo não possuem na equipe um profissional psiquiatra ou psicólogo para o acolhimento desse paciente. Pacientes que tentaram suicídio, na maioria das vezes, são liberados da emergência sem passar por avaliação psiquiátrica ou sem qualquer encaminhamento. É raríssimo porque, de fato, o que ocorre é que não existe um protocolo de atendimento voltado especificamente para o paciente suicida.
Observamos mesmo existir uma certa frustração, no relato de alguns profissionais envolvidos em nossa pesquisa, sobre o desenrolar do tratamento desses pacientes tão logo sua remoção do Pronto Socorro. O que vai acontecer depois?
A assistência efetiva ao sujeito que tentou o suicídio implica muito mais que o cuidar das lesões físicas decorrentes da atitude de autoextermínio provocadas em seu corpo – são problemas, sobretudo, relacionados à “alma”. E para esse cuidado – na forma de políticas públicas de saúde para o paciente suicida – muita pouca atenção tem sido dada.
Consideramos que um protocolo mínimo de ações de atendimento a esse paciente, dentre outras ações e projetos a serem pensados, deveria:
1)    No caso da existência de um setor psiquiátrico no Hospital Geral, esse setor deveria ser imediatamente comunicado da entrada no Hospital de paciente suicida e esse paciente após o socorro na Emergência e seu encaminhamento para a enfermaria onde se recuperará de suas lesões, passaria a receber a visitação e acompanhamento de um psicólogo ou psiquiatra.
2)    Ser encaminhado para o setor de psiquiatria, tão logo esteja recuperado de suas lesões físicas, sendo sua alta definitiva condicionada a uma avaliação psiquiátrica.
3)    Encaminhamento e inclusão desse paciente no CAPS - Centro de Atenção Psicossocial da região para efetivo acompanhamento psiquiátrico, psicológico e de suporte familiar e social para tratamento.
4)    Visitas a residência desse paciente para observar se o mesmo se encontra em tratamento.
5)    No caso da falta de um setor de psiquiatria, como é a realidade na maioria dos hospitais no Brasil, esse comunicado da entrada de um paciente suicida será feito ao CAPS daquele território, que deverá ter um profissional habilitado de plantão para a visitação e acompanhamento do paciente.
6)    Encaminhar esse paciente para o CAPS para efetivo acompanhamento psiquiátrico, psicológico e de suporte familiar e social para tratamento.
7)    Visitas a residência desse paciente para acompanhamento e observação se o mesmo se encontra em tratamento.
Dada a insuficiência e a superlotação desses serviços públicos substitutivos de atendimento, um bom projeto seria estabelecer convênios com clínicas e consultórios particulares de psicologia e psiquiatria, nos moldes do que já ocorre com Hospitais da iniciativa privada na assistência à saúde em geral, para que participem complementarmente no atendimento a esses pacientes, que seria pago pelo SUS e o que ampliaria consideravelmente a rede de assistência.
Uma crença comum é a de que pessoas que sobrevivem a tentativas de suicídio não tentam novamente, mas isso não é verdade. Na realidade, o que ocorre é justamente o contrário. Pessoas que já fizeram uma tentativa tem maiores chances de tentar de novo – e dessa vez, consumar o ato.
O suicídio se constitui hoje numa gravíssima questão de saúde pública. Questão que precisa urgentemente ser debatida e repensada, em que novas e reais soluções sejam propostas de forma que esse tsunami de tentativas e de mortes autoinfligidas sejam sustadas e a trágica profecia de Diekstra não se cumpra: a de que o suicídio será a principal forma de morte no futuro.


Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste texto, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra.