domingo, 8 de abril de 2018

Por que 84 figuras masculinas estão de pé nas beiradas dos telhados de Londres?


Ao olharem para cima, as pessoas que transitavam no centro da cidade de Londres tiveram uma visão estranha e perturbadora: 84 homens, em pé silenciosamente nos telhados das torres de escritórios, como se estivessem prestes a pular para a morte.

Acontece que esses homens não são realmente humanos. São esculturas em tamanho natural, colocadas lá para chamar a atenção e aumentar a conscientização sobre o suicídio.
As esculturas foram instaladas como parte do Projeto 84, uma ideia tornada possível pelo artista de rua americano Mark Jenkins e pela Campaign Against Living Miserably, ou CALM, uma instituição de caridade focada na prevenção do suicídio, que ela diz ser o maior assassino de homens com menos de 45 anos no Reino Unido.
As esculturas representam os 84 homens que se suicidam, em média, todas as semanas no Reino Unido. CALM diz que três em cada quatro vítimas de suicídio são homens.
"Como sociedade, temos de superar barreiras e constrangimentos, temos que enfrentar esse problema terrível, discuti-lo e trabalhar ativamente para pará-lo", disse Simon Gunning, CEO da CALM.
As esculturas, todas com os rostos cobertos, foram empoleiradas nos telhados de vários prédios da ITV, a rede de televisão do Reino Unido. Elas permaneceram lá até o dia 1º de abril.
Jenkins, que é amplamente conhecido por colocar suas esculturas hiper-realistas em locais públicos, onde interage com os transeuntes, criou as figuras da fita adesiva.
Jenkins trabalhou com a colaboradora Sandra Fernandez para criá-las. Cada um das 84 esculturas representa um homem real que morreu por suicídio e suas histórias individuais são narradas no site do Projeto 84 .
O programa diário da ITV "This Morning " apresentou entrevistas com parentes e amigos dos 84 homens no centro do projeto.
"Apoiar essa campanha é investir na esperança, esperança de que, contando essas histórias, possamos entender melhor as complexidades do suicídio e lutar por uma mudança", disse Gunning.
O Projeto 84 também lançou uma petição on-line através da qual espera convencer o governo britânico a tomar medidas para melhorar a prevenção do suicídio e o apoio ao luto dos sobreviventes. 
Reação às esculturas no telhado têm sido principalmente positiva.
"É muito importante quebrar o estigma da saúde mental dos homens e fazer com que as pessoas saibam que não há problema em ter problemas", disse um observador no Twitter.


Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste texto, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra e ligue para o número do CVV: 188.

Texto original: . Here's why 84 male figures are standing on the edges of London rooftops By Mercedes Leguizamon and Brandon Griggs, CNN.

 Texto livremente traduzido e adaptado.




sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Namorado cria “pote de amor” para ajudar namorada que sofre de depressão

 
Depressão é difícil para todos os envolvidos. A pessoa que à sofre trava consigo uma luta diária para funcionar, e tem alguns dias que não consegue realmente avançar. Além disso, tende a se fechar, evitando contatos tão logo sente os efeitos da depressão. Dói ver um ente querido tão infeliz, e pode ser difícil simpatizar e entender uma pessoa que não pode responder às suas tentativas bem-intencionadas de ajudar. Para tentar ajudar a namorada com depressão a se sentir um pouco melhor em momentos de crise, um jovem teve uma ideia simples e criativa.
Usando nada mais do que um frasco, alguns palitinhos de picolé, marcadores coloridos e um pouco de papel, ele montou um “pote do amor” para a namorada usar quando sentir que precisa de uma mensagem positiva e de apoio em seu dia.
Bovadeez explicou a ideia assim:
"Cada "categoria" é codificada por cores, por exemplo, laranja são citações inspiradoras de poetas, figuras políticas, filósofos e humanistas de todas as épocas. Lembretes amarelos são palavras positivas para ajudá-la durante o dia, como "você é linda" e "está certo pedir ajuda", os roxos são dicas para ajudá-la a relaxar como "faça uma pausa" enquanto ela está trabalhando no seu mestrado ou "ouça sua música favorita". Eu coloquei também palitinhos em branco, para ela gravar alguma memória positiva neles, lembranças de momentos em que ela é mais feliz e então ela pode puxar um desses quando precisar. Esperamos que isso a ajude a recuperar o controle em alguns aspectos e para se dar um tempo e se concentrar mais em si mesma".
 Este gesto simples, mostrando à sua namorada que ele se importa e está sempre lá para ela no momento que ela precisar é uma ajuda poderosa para alguém com depressão. Muitas pessoas concordaram que essa abordagem seria muito apreciada e é um bom exemplo do tipo de suporte que é necessário.
Um usuário da Reddit tem uma namorada que luta com a depressão, e ele queria ajudar de alguma forma.

Então, ele teve uma ideia simples, porém brilhante, que envolveu um monte de palitinhos de picolé.

E que ele codificou usando canetas coloridas.

E colocou em um frasco para que sua namorada pudesse escolher. Cada cor é uma categoria.


Com citações, palavras positivas, dicas para relaxar e palitinhos em branco para que ela possa gravar momentos felizes.


As pessoas concordaram que este é um exemplo perfeito do tipo de apoio que uma pessoa com depressão pode apreciar.





Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste texto, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra e ligue para o número do CVV: 141.

Texto original: The Way That This Guy Handles His Girlfriend’s Crippling Depression Is Just Awesome.  https://www.boredpanda.com/popsicle-sticks-help-girlfriend-anxiety-depression/
 Texto livremente traduzido e adaptado.








segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Um frágil sexo forte

Se perguntarmos às pessoas sobre qual grupo humano pode ser identificado com a força e a capacidade de enfrentar problemas e superar os obstáculos, certamente a resposta da maioria seria de que esse grupo corresponde aos homens de meia idade, com estudos, uma boa situação profissional, que tenham as necessidades básicas resolvidas e bem situados na vida. Bem, a maioria estará errada, pois esse é o retrato típico do suicídio em nosso tempo.
As estatísticas são teimosas e não variam muito de ano para ano ou quando mudam de país. Com ligeiras variações, o número de homens entre 40 e 60 que tiram suas próprias vidas é três vezes maior ao das mulheres suicidas. Esses dados nos obrigam a perguntar qual tipo de problema está levando os homens a uma decisão que desmonta totalmente essa ideia do “homem, sexo forte".
A atenção desproporcional e quase exclusiva dada ao feminino nos estudos de gênero significou que fenômenos como esse, que afetam o homem de maneira especial, não têm sido suficientemente submetidos à investigação. Só temos aproximações, mais intuitivas do que com base em dados, que em geral enfatizam o peso dos papéis masculinos tradicionais: de acordo com essas hipóteses, o homem deve ser competitivo, buscar sucesso, exibir seus pontos fortes e esconder as suas fraquezas. O que o torna mais frágil em situações de derrota e frustração e mais vulneráveis ​​ao estresse e à ansiedade. Acrescente-se a isso a necessidade de fingir que está sempre bem mesmo quando tudo, emocionalmente, vai muito mal.
A compreensão do problema é difícil em vista de outras evidências constantes: embora os homens se suicidem muito mais do que as mulheres, os pensamentos suicidas são mais recorrentes nelas (algo não estranho, se levarmos em conta que também as taxas de doença mental são um pouco maiores nas mulheres). Alguns estudos acrescentam que mesmo as mulheres fazem mais tentativas do que os homens. Se assim for, devemos pensar que as diferenças não ocorrem tanto na resposta dramática às crises pessoais, mas nos métodos para resolver essas crises. Nesse sentido, as diferentes escolhas de acordo com o sexo mantêm as constantes clássicas. O homem, infelizmente, escolhe formas mais violentas de suicídio.
Existem, no entanto, alguns fenômenos tipicamente masculinos que agregam alguma lógica à essa disparidade no número de suicídios de homens e mulheres. Embora a escassez de estudos, algumas abordagens do fenômeno enfatizam alguns fatores, por exemplo a incidência de crises pessoais relativas ao trabalho. A perda de emprego, para o homem, reforçaria a enfraquecer sua autoestima e a tornar suas vidas sem significado. Há também indícios de que situações de separação e divórcio atingem os homens com maior força, às vezes por causa da ruptura em si mesma e às vezes por causa da perda de filhos, propriedades e relações sociais e amizades que a acompanham.
O que parece óbvio é que uma grande parte dos homens enfrentam as situações de sofrimento em suas vidas com menos ajuda do que as mulheres. Em primeiro lugar, porque eles não pedem ajuda para as pessoas próximas nem para os especialistas, uma vez que fazer isso significa para muitos admitir uma fraqueza humilhante. Supõe-se que o papel masculino implica não só estar no controle das circunstâncias de sua vida, mas saber disfarçar muito bem quando você não está. Há casos impressionantes de grupos de amigos muito próximos que são surpreendidos com o suicídio de um de seus membros, sabendo mais tarde que este carregou durante anos uma tragédia pessoal sem dar o menor sinal do que realmente sentia.
As mulheres, por outro lado, estão mais inclinadas a confiar e falar mais abertamente sobre seus sentimentos e problemas. Assim, as redes de apoio formal ou informal acabam se movimentando para aquelas que não hesitam em reconhecer-se como frágeis. Já o homem que precisa de ajuda não acredita que ele precise, ou se sente envergonhado de pedir, ou quando ele decide fazê-lo, acha que não vai encontrar profissionais especificamente preparados a intervir no seu problema.
A fraqueza geralmente se esconde na aparência da força. Talvez seja hora de admitir que o homem também precise de outro tipo de empoderamento.


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 Texto original: Un débil sexo fuerte. José Maria Romera. http://www.diariosur.es/opinion/debil-sexo-fuerte-20171008003441-ntvo.html  


terça-feira, 5 de dezembro de 2017

'Sou feia e perdedora', diz menina de 13 anos antes de cometer suicídio


Rosalie Avila era vítima de bullying na escola e nas redes sociais.
EUA - Vítima de abusos e bullying em sua escola na Califórnia, a adolescente Rosalie Ávila, de 13 anos, tirou a própria vida: "sou feia e perdedora", escreveu ela em um bilhete encontrado pelos pais depois da tragédia. Rosalie tentou se matar na terça-feira passada e, na sexta, teve sua morte cerebral declarada. Foi mantida conectada até ontem para que seus órgãos fossem doados, informou a imprensa local.
Rosalie Avila, de 13 anos, era vítima de bullying e se matou na semana passada. 
"Minha filha foi vítima de bullying", declarou sua mãe para um site. "Era uma pessoa bonita por dentro e fora, era uma grande artista, muito adorável e amada", completou.
Estudante do oitavo ano em uma escola pública em Calimesa (114 km ao leste de Los Angeles), Rosalie  deixou um bilhete de despedida para os pais: "me desculpem, pai e mãe. Eu amo vocês".
"Desculpe mãe, que você vá me encontrar assim", leu seu pai, Freddie Ávila, citado pelo site CBS.
Os pais contaram que a jovem, que sonhava em ser advogada, era agredida em redes sociais, além da escola: nesse dia, antes de tentar se matar, já havia sido alvo de piadas por causa do aparelho nos dentes.
"Guardou isso para si", desabafou o pai, na entrevista à NBC, acrescentando que "por dentro, ela ficava aos pedaços por sempre implicarem com ela".
Uma investigação está aberta para determinar se houve "bullying" na escola.
Ao todo, 5.900 menores, entre 10 e 24 anos, tiraram a própria vida nos Estados Unidos em 2015, segundo números oficiais.
Em nota, o distrito educacional de Yucaipa-Calimesa, ao qual pertencia a escola de Ensino Médio de Ávila, lamentou a morte de sua estudante. Vigílias também foram realizadas.
"Estamos comprometidos com manter uma cultura positiva e inclusiva que permita aos nossos estudantes crescer acadêmica e socialmente", acrescentou o texto.
O site governamental "Stop Bullying" indica que 28% dos estudantes nos Estados Unidos sofrem esse tipo de abuso entre o sexto e 11º ano, e 9%, agressão pelas redes sociais.
Em setembro, um adolescente matou um colega e feriu outros três em sua escola no estado de Washington, em mais um caso de "bullying".


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O texto original foi revisto para evitar a publicação do método usado, conforme orienta a OMS. 
 Texto original: http://odia.ig.com.br/mundoeciencia/2017-12-05/sou-feia-e-perdedora-diz-menina-de-13-anos-antes-de-cometer-suicidio.html


sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Um sacerdote deve ser processado por não revelar os pensamentos suicidas de um fiel?



A viúva de um homem que confiou a um sacerdote da cidade de Bruges, na Bélgica, sua intenção de se suicidar apresentou uma queixa-crime contra o padre.
O Ministério Público de Bruges entende que o padre seja, sim, processado por não ter comunicado o fato. Alexander Stroobandt, 57 anos, capelão em uma casa de repouso e administrador de um site que ajuda homens e mulheres em luto, alega segredo de confissão e acredita que ele fez de tudo para deter o homem que dirigiu-se a ele para pôr fim à própria vida.
"Nunca, pensei em chamar a polícia. Mantive o segredo da confissão. Meu interlocutor falou comigo em sigilo e me avisou que suas intenções eram sérias. Então fiz tudo o que pude para convencê-lo a não tomar uma decisão apressada".
Os fatos datam de 2015, quando um residente de 54 anos de idade da casa de repouso entrou em contato com o padre Stroobandt por telefone. Sofrendo de grave depressão, o homem deu a conhecer suas intenções de acabar com a vida. Para o padre, foi uma confissão. O fato de ter ocorrido através de uma chamada telefônica não altera nada a seus olhos. A conversa durou por volta de uma hora e o padre Stroobandt teria feito de tudo para demover seu interlocutor de seus pensamentos suicidas.
Sua viúva descobriu, na memória de seu telefone celular, uma série de SMS que destacavam as ligações entre seu falecido marido e o padre. "O padre sabia o nosso endereço, ele poderia ter alertado a polícia, mas ele não fez nada. Quando entrei em contato com ele, ele se escondeu atrás do segredo da confissão e me disse que tinha feito de tudo para convencer meu marido a não se suicidar. Mas o segredo da profissão é tão santificado a ponto de colocar um ser humano em perigo? Eu não entendo assim." Na verdade, a viúva contratou um advogado e decidiu apresentar uma queixa. Ela não procura a condenação do padre, mas quer que tal atitude não possa ser repetida em outras ocasiões.
O sacerdote continua convencido de seu direito e acredita que, se o segredo da confissão for atacado, a relação de confiança entre um clérigo e a pessoa que confia nele se tornará impossível.
Mas o segredo da confissão deve ser mesmo absoluto? É certo que o Código de Ética de várias profissões determina que os médicos, psicólogos, etc., e todos os outros depositários, por estado ou profissão, dos segredos que lhes são confiados (não é o caso, para esses profissionais de relatos sobre suicídio) serão punidos até mesmo com a cassação de seu registro profissional se revelarem esses segredos, exceto nos casos em que são chamados a testemunhar num tribunal ou quando a lei obriga-os a dar a conhecer esses segredos.
Mas o segredo da confissão não é absoluto. Nenhum profissional pode se colocar atrás de um segredo se um valor maior está em jogo, por exemplo o respeito pela vida. O sacerdote, recebendo a confissão de seus fiéis, o advogado, recebendo a confissão de seus clientes, o médico, recebendo as confidências de seus pacientes, estão isentos de invocar segredo profissional se está em jogo a violação de um valor maior.

“O segredo da profissão é tão santificado a ponto de colocar um ser humano em perigo? Eu não entendo assim." Para a Igreja e o sacramento da confissão, fica a questão.


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Texto original:  Un prêtre poursuivi pour ne pas avoir révélé les pensées suicidaires d'un fidèle. Jean- Claude  Matgen /http://www.lalibre.be/actu/belgique/un-pretre-poursuivi-pour-ne-pas-avoir-revele-les-pensees-suicidaires-d-un-fidele-5a0ae0e7cd70fa5a063b9ccb

Texto livremente traduzido e adaptado.



quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Transtornos Mentais


Adriano Facioli
Geralmente não basta saber qual é o nome do transtorno mental que você tem.
É muito comum as pessoas que estão passando por um período muito difícil em sua vida, com sofrimento psicológico significativo, que nunca procuraram por ajuda profissional em saúde mental, imaginarem que boa parte ou todo seu sofrimento irá se resolver quando souberem qual é o nome do transtorno mental que têm.
Pensam que nessa área as coisas ocorrem da mesma forma que em qualquer outro tipo de tratamento médico, de saúde. Imaginam que irão a um profissional de saúde mental, geralmente o psiquiatra, e que em uma única consulta ele irá fazer o diagnóstico, prescrever os medicamentos, e que a partir daí tudo irá se resolver rapidamente.
Não, não é assim. Psiquiatras trabalham com hipóteses diagnósticas, as quais terão de ser constantemente reavaliadas. Após a primeira consulta o paciente terá de ser constantemente reavaliado, para ir aos poucos se consolidando um possível diagnóstico do que tem.
E sair do consultório com a prescrição de alguns medicamentos geralmente não é a solução. Geralmente é necessário um acompanhamento psicológico.
Os medicamentos psiquiátricos têm função remediativa, de alívio de sintomas. Não atuam nas causas, nos determinantes dos transtornos mentais. Por si só não curam, não produzem a recuperação, a reabilitação da pessoa que está sofrendo.
Para haver recuperação é necessário um processo de investigação que almeje descobrir, em boa medida, quais são os determinantes do sofrimento da pessoa em questão. E esses determinantes, predominantemente e de modo geral, estão na vida da pessoa, em como ela está vivendo, em quais estimulações sofre, em como estão se dando suas interações com o mundo e com outras pessoas.
Esta investigação, portanto, deve se atentar para fatores tais como, por exemplo: dieta, regime de sono e vigília, postura e expressão corporal, rotina de exercícios físicos e a complexidade das interações com outras pessoas. Uma psicoterapia, ou um processo de orientação psicológica minimamente eficaz, irá se atentar para esses e outros possíveis fatores.

Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste blog, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra e ligue para o número do CVV: 141 ou 188.

Texto original de autoria de Adriano Facioli publicado em 17 de outubro às 18:37.  https://www.facebook.com/adriano.facioli



sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Fique!


Quando me sentei no confortável sofá de padrões azuis no consultório de minha terapeuta, aninhada no meio das almofadas suaves de pelúcia brancas, girava meu suporte de rabo de cavalo ao redor do meu pulso repetidamente, quando ela me perguntou:
"Para onde você se transportou agora?"
“Lugar algum. Eu simplesmente me distraí." Respondi, enquanto olhava para o sol, cujos raios dançavam pelo peitoril da janela.
Mas isso estava longe de ser verdade. Eu estava pensando sobre a vida e a morte, o significado da minha existência, meu nível de desesperança e como eu queria muito acabar com a dor e, finalmente, acabar de vez com a minha vida.
Eu tenho pensado muito nisso ultimamente. Então, hoje, quando minha terapeuta me deu a tarefa de escrever cartas para mim; cartas que eu possa ler durante os períodos difíceis ou sem esperança, pensei: que melhor carta para escrever do que um lembrete para ficar por aqui.
Aqui está - minha carta de lembrete para me manter viva e ficar por aqui:
“Para mim, quando eu precisar lembrar.
Eu sei que as coisas não têm sido fáceis ultimamente e a dor que geralmente sinto é demais para suportar. A morte parece ser uma opção muito mais aceitável do que esperar que as coisas melhorem ou se tornem mais fáceis. Você vive dizendo a si mesma que está cansada, que é uma doente crônica, uma fracassada e que não tem solução - mensagens que você realmente acredita definirem o núcleo do seu ser. Você realmente não consegue enxergar além da escuridão que circunda o seu dia a dia. A luz cobiçada no final do túnel? Não é mais do que uma miragem fugidia que você sempre está perseguindo sem nunca conseguir alcançar.
Você está cansada de lutar em uma batalha implacável com doenças mentais. Qualquer pessoa entenderia porque você está exausta. Faz sentido - assim como querer por um fim definitivo à dor também faz sentido. A depressão tem uma maneira de encolher seu mundo para uma única sala solitária. Ela faz o mundo se resumir aos pensamentos negativos, aos sentimentos desesperadores e ao desejo de morte que dominam dentro das quatro paredes do seu quarto, te impossibilitando de sair da cama.
O que você não percebe é que existe um mundo além dessas cortinas densas de pensamentos, sentimentos e desejos obsessivos e escuros. Um mundão lá fora grande e brilhante e que está à espera de ser descoberto. Embora pareça aterrorizante nesse momento pensar em abraçar o ruído, o caos e a luz - eu prometo que nem sempre se sentirá tão esmagada. Você só tem que segurar a onda e ficar o tempo suficiente para ver isso por si mesma as coisas na tua vida se transformando. Por isso:
Fique!
Fique quando sentir vontade de entrar no quarto. Fique quando tudo em você estiver gritando por alívio. Fique o suficiente para ver as faíscas inflamarem-se em chamas e a esperança arder em você mais uma vez. Fique mais um dia. Fique para ver uma outra pessoa sorrir. Talvez um dia seja você quem vai sorrir também. Fique para assistir a outro pôr-do-sol e respire fundo enquanto contempla os tons de algodão doce que cobrem a vastidão do céu. Fique por algum tempo, até ter a chance de ouvir sua voz falar mais alto. Você ainda tem muito a dizer e a fazer e pode ser uma força poderosa se você se permitir ficar. Fique para que possa experimentar mais uma xícara de café. Pelo menos saberá que alguma coisa te provoca sensações gostosas. Fique para que possa fazer mais uma viagem e tirar fotos que ficarão guardadas para sempre na forma de memórias. Fique mesmo sabendo que vai chorar mais uma vez. Lembre-se de que você é humana, e ser humano é uma coisa bagunçada e dolorosa, mas também, ocasionalmente, linda. Fique para que você possa segurar a mão de alguém. Fique para ver as mudanças acontecendo ao seu redor. Fique para sentir seu coração ficar pleno e você se sentir cheia de viva, mesmo tendo certeza de que esses sentimentos não durarão. Fique para ter essas experiências. Peço-lhe que fique, por favor. O mundo precisa, sim, de você, mesmo que não acredite no momento. Você é digna e amada e merece ocupar o seu espaço na vida.
Então, fique um pouco mais nesse mundo.
Conquiste o seu espaço.
Faça ouvirem sua voz.
Experimente a vida em toda sua bagunçada beleza.
Deixe sua marca neste mundo. Só ficando por aqui é que você pode causar um impacto nas outras pessoas, e não importa quão pequeno você possa sentir que esse impacto possa ser.
Você ficará bem. Acredite. Talvez não hoje ou mesmo amanhã, mas se você optar por ficar então será a primeira a testemunhar a incrível força, poder e bravura que você possui. Você, minha querida, é corajosa.
Fique.
Te vejo amanhã.”
Morrer, partir! Muitas vezes sentimos ser essa a escolha mais acertada. Pensamos que essa decisão significaria alívio e um final para uma história de vida que, quem sofre, nunca quis ter. É vital, especialmente quando os pensamentos depressivos se tornam agressivamente dominantes, que os lembretes permaneçam: para me lembrar de porque eu preciso ficar. Não importa o quão ridículo ou bobo possam parecer para alguém de fora. Os meus motivos para ficar podem parecer diferentes dos seus, e está tudo bem. Crie seus próprios motivos, mantenha-os próximos e acesse-os quando estiver equivocadamente acreditando que deixar esse mundo é mais atraente do que ficar. Como minha terapeuta me disse uma vez: "O mundo levaria um grande golpe se você não estivesse aqui, porque você é inerentemente digna de viver." O mundo precisa de nós, mesmo que ainda não possamos acreditar. Fique um pouco mais.
Siga sua jornada, aqui.



Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste texto, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra e ligue para o número do CVV: 188.

Texto original: To My Suicidal Self Who Needs a Reminder to Stay. By Leah Beth Carrier. https://themighty.com/2017/09/letter-reminder-to-stay-when-feeling-suicidal-help/
Texto livremente traduzido e adaptado.