quarta-feira, 1 de março de 2017

O que acontece após o resgate de uma tentativa de suicídio?



Notícia postado em 27/02/2017 no jornal Correio Braziliense sob o título: Policias resgatam mulher que ameaçava se jogar da plataforma da Rodoviária
"Um policial militar impediu que uma moradora de rua se jogasse no Buraco do Tatu, da plataforma superior da Rodoviária do Plano Piloto, na manhã da última segunda-feira (27/2). O tenente Wesley Eufrásio, 36 anos, conversou com a mulher, a distraindo, até que que o sargento Cláudio Celestino pudesse agarrá-la, impedindo o suicídio.
Segundo o tenente, a mulher parecia estar sob influência de drogas na hora do ato. “Ela não falava coisa com coisa, dizia que não era amada pela família e que seria um alívio se morresse”, conta. Durante o diálogo, o tenente tentou ganhar a confiança da mulher e garantir que ela se acalmasse. “Sou católico praticante, então comecei a falar um pouco de Deus e dizer que ele poderia mudar a situação dela”, completa. 
Após o resgate, a mulher foi encaminhada pelo Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (CBMDF) ao Hospital de Base, onde está sendo medicada. A moradora de rua aparentava ter entre 25 e 30 anos, ainda de acordo com o relato dos policiais."
E o que acontece após o resgate de uma tentativa de suicídio? A partir daqui começa a nossa reflexão.
Conforme demonstrou nossa pesquisa Representações Sociais dos Profissionais de Saúde Acerca do Fenômeno do Suicídio, quando os suicídios não são consumados temos a tentativa de suicídio. Socorridos por familiares, pelos bombeiros ou por uma unidade médica de atendimento móvel, o SAMU, esses indivíduos de uma maneira geral são encaminhados para as unidades de emergência de um Hospital Geral, público ou particular, onde serão atendidos e tratados em suas lesões físicas autoinfligidas.  E aí, como explica a fala de um profissional:
“Depende. Quer dizer, tem que tratar a causa daquilo que vai tirar a vida da pessoa naquele momento dentro do Pronto Socorro, é assim que a gente trata, como se fosse qualquer outra coisa. Se o suicida é um cara que deu um tiro no peito, tem que tratar igual se o cara tivesse tomado um tiro no peito acidentalmente, não tem diferença. É o que eu estou dizendo, não há uma abordagem voltada para o suicida. Ah, fez uma lesão cáustica porque tomou um negócio... um químico lá. Lá vai a gente ver se atrapalha a respiração, se vai obstruir o esôfago daqui a pouco, é isso que a gente vai fazer no pronto socorro. Evidente se o paciente teve que ficar internado sempre é feito um parecer da psiquiatria, sempre é feito alguma coisa, etc. Mas não é uma coisa que a gente faz no Pronto Socorro. Aquela hora que ele vai morrer daquilo entendeu? Se ele tiver alguma coisa que precisa ser visto tipo, como o exemplo do tiro, a gente teve que drenar ou operar, ele vai para a enfermaria da cirurgia geral ou da clínica médica, se for veneno ou alguma coisa assim e lá é pedido um encaminhamento pra psiquiatria. Se for um paciente, por exemplo, que chegou aqui não tem nada, sei lá, tentou cortar algum vaso, não pegou o vaso superficial, você acha realmente que aquela pessoa pode se matar daqui há um algum dia, volta para casa e pode vir a fazer alguma coisa, daqui mesmo a gente pede para o psiquiatra vir ver. Mas tem muito hospital que não tem psiquiatria, na minha opinião isso é um absurdo, mas a maioria não tem. Se a gente acha que não tem condições, não libera, isso é a critério do médico. Vai ao chefe de equipe e fala: tem paciente suicida e eu não vou dar alta, se der alta ele vai correr pra frente do ônibus e vai morrer. Você não pode dar alta, se der alta a culpa é sua. O chefe de equipe tem que resolver essa parte aí administrativa. Pega a ambulância e transfere para o hospital psiquiátrico se for o caso, mas isso é raríssimo”.
Na fala desse profissional médico, dentre outros entrevistados na pesquisa, enfermeiros e técnicos de enfermagem, fica manifesta a existência de protocolos de ações e cuidados que, com muito rigor e profissionalismo, esses profissionais procuram observar. Os sujeitos, suicidas, quase sempre são levados para o Pronto Socorro de um Hospital Geral, dada a instrumentalização dos mesmos para o atendimento às lesões físicas decorrentes dos danos provocados ao tentar tirar a vida. É o que acontece.
Entretanto, fica também evidenciado que o cuidado é para o corpo. E quanto a “alma”? Sofrimentos, “lesões”, dores, “cortes”, que levam uma pessoa a tentar o suicídio são de domínio da “alma”, não do corpo. Esses profissionais, de um modo geral, desconhecem a complexidade do fenômeno suicídio por não terem recebido, durante a sua formação acadêmica, uma preparação adequada para lidar com a dinâmica singular de um paciente suicida. Foram formados e treinados para salvar vidas, daí a ambivalência – revelada também na pesquisa – de suas reações ao serem confrontados por situações nas quais o elemento mais complexo e impactante não é necessariamente a lesão a ser tratada, decorrente do ato suicida, e sim um indivíduo que quer, exatamente, pôr fim à sua vida.
“Pega a ambulância e transfere para o hospital psiquiátrico se for o caso, mas isso é raríssimo”.
É raríssimo porque a maioria dos Hospitais Gerais, no Brasil, não possuem setores de psiquiatria, logo não possuem na equipe um profissional psiquiatra ou psicólogo para o acolhimento desse paciente. Pacientes que tentaram suicídio, na maioria das vezes, são liberados da emergência sem passar por avaliação psiquiátrica ou sem qualquer encaminhamento. É raríssimo porque, de fato, o que ocorre é que não existe um protocolo de atendimento voltado especificamente para o paciente suicida.
Observamos mesmo existir uma certa frustração, no relato de alguns profissionais envolvidos em nossa pesquisa, sobre o desenrolar do tratamento desses pacientes tão logo sua remoção do Pronto Socorro. O que vai acontecer depois?
A assistência efetiva ao sujeito que tentou o suicídio implica muito mais que o cuidar das lesões físicas decorrentes da atitude de autoextermínio provocadas em seu corpo – são problemas, sobretudo, relacionados à “alma”. E para esse cuidado – na forma de políticas públicas de saúde para o paciente suicida – muita pouca atenção tem sido dada.
Consideramos que um protocolo mínimo de ações de atendimento a esse paciente, dentre outras ações e projetos a serem pensados, deveria:
1)    No caso da existência de um setor psiquiátrico no Hospital Geral, esse setor deveria ser imediatamente comunicado da entrada no Hospital de paciente suicida e esse paciente após o socorro na Emergência e seu encaminhamento para a enfermaria onde se recuperará de suas lesões, passaria a receber a visitação e acompanhamento de um psicólogo ou psiquiatra.
2)    Ser encaminhado para o setor de psiquiatria, tão logo esteja recuperado de suas lesões físicas, sendo sua alta definitiva condicionada a uma avaliação psiquiátrica.
3)    Encaminhamento e inclusão desse paciente no CAPS - Centro de Atenção Psicossocial da região para efetivo acompanhamento psiquiátrico, psicológico e de suporte familiar e social para tratamento.
4)    Visitas a residência desse paciente para observar se o mesmo se encontra em tratamento.
5)    No caso da falta de um setor de psiquiatria, como é a realidade na maioria dos hospitais no Brasil, esse comunicado da entrada de um paciente suicida será feito ao CAPS daquele território, que deverá ter um profissional habilitado de plantão para a visitação e acompanhamento do paciente.
6)    Encaminhar esse paciente para o CAPS para efetivo acompanhamento psiquiátrico, psicológico e de suporte familiar e social para tratamento.
7)    Visitas a residência desse paciente para acompanhamento e observação se o mesmo se encontra em tratamento.
Dada a insuficiência e a superlotação desses serviços públicos substitutivos de atendimento, um bom projeto seria estabelecer convênios com clínicas e consultórios particulares de psicologia e psiquiatria, nos moldes do que já ocorre com Hospitais da iniciativa privada na assistência à saúde em geral, para que participem complementarmente no atendimento a esses pacientes, que seria pago pelo SUS e o que ampliaria consideravelmente a rede de assistência.
Uma crença comum é a de que pessoas que sobrevivem a tentativas de suicídio não tentam novamente, mas isso não é verdade. Na realidade, o que ocorre é justamente o contrário. Pessoas que já fizeram uma tentativa tem maiores chances de tentar de novo – e dessa vez, consumar o ato.
O suicídio se constitui hoje numa gravíssima questão de saúde pública. Questão que precisa urgentemente ser debatida e repensada, em que novas e reais soluções sejam propostas de forma que esse tsunami de tentativas e de mortes autoinfligidas sejam sustadas e a trágica profecia de Diekstra não se cumpra: a de que o suicídio será a principal forma de morte no futuro.


Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste texto, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra.

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