domingo, 17 de julho de 2016

Religião, suicídio e dúvida

São Francisco / Cândido Portinari



“Nesta vida morrer não é difícil. O difícil é a vida e o ofício de viver. ”  
(Vladimir Maiakóvski)

"Existem alguns neuróticos em quem, a julgar por todas as suas reações, o instinto de autopreservação na realidade foi invertido. Eles parecem visar a nada mais que à autolesão e à autodestruição. É possível também que as pessoas que, de fato, terminam por cometer suicídio pertençam a esse grupo. É de se presumir que, em tais pessoas, efetuaram-se defusões de instinto de grandes consequências, em consequência do que houve uma liberação de quantidades excessivas do instinto destrutivo voltado para dentro. Os pacientes dessa espécie não podem tolerar o restabelecimento mediante o nosso tratamento e lutam contra ele com todas as suas forças. Mas temos de confessar que se trata de caso que ainda não conseguimos explicar completamente." 
(Freud em "Moisés e o Monoteísmo", 1938)


RESUMO: Estima-se que aproximadamente um milhão de pessoas comete suicídio anualmente, índice alarmante que fez a Organização Mundial da Saúde (OMS) elevar o suicídio à categoria de grave problema da saúde pública. E como a maior parte da população no mundo professa algum tipo de religião, tornam-se relevantes ensaios e estudos sobre a relação entre religião e suicídio. Nos ensaios de Dostoiévski encontramos um dos mais célebres argumentos filosóficos sobre a crença na imortalidade da alma como fator de proteção ao comportamento suicida. Crenças religiosas que, de fato, diversas pesquisas científicas no campo da suicidologia têm apontado como importantes fatores de proteção. Embora ressalvando o valor dessas pesquisas, nesse ensaio o autor procura apresentar argumentos ressaltando a importância também da dúvida como fator de proteção ao suicídio.
 PALAVRAS-CHAVE: suicídio, imortalidade da alma, dúvida

Não sei entender o suicídio de uma outra forma senão como uma psicose. Não apenas como um surto, um instante de crise em que o indivíduo está “fora de si” e, por isso, se ataca procurando aniquilar-se. Mas como um movimento delirante cuja evolução vai distanciando a pessoa da realidade e de si mesma, em um crescendo, impermeabilizando-a da influência contrária às suas ideações suicidas, seus argumentos e decisão de matar-se; distanciando-a de seus apoios sociais, de seus familiares, do afeto dos amigos, anulando todo suporte pessoal e isolando-a em suas próprias ideias, convicções e impulsos autodestrutivos, tornando-a inexpugnável até o desfecho trágico de pôr fim a sua própria vida.
É simplismo falar em egoísmo na decisão daquele que se mata, ao não pensar no sofrimento dos que ficam. Porque no auge da dor emocional insuportável que carrega, sua única e delirante vontade passa a ser o de livrar-se dessa dor. Não há futuro, esperança, solução que não seja a sua própria morte.
De fora podemos até mesmo analisá-la como uma decisão equivocada, porque, como afirmam os especialistas:
  “... O suicida não está querendo necessariamente matar-se, mas matar uma parte de si mesmo. No entanto, isso é impossível, e ele, como que num engano, acaba matando-se e morrendo inteiro”. (Cassorla, 1994).
 E na ambivalência feroz em que se encontra mergulhado, os núcleos e componentes psicóticos de sua personalidade acabam dominando suas partes sadias e racionais e o indivíduo acaba concretizando o ato.
Entretanto o movimento é esse: de isolamento, de impermeabilização cognitiva e emocional, num solipsismo doentio e cada vez mais profundo até o desfecho de sua autoeliminação. Quem já teve alguém bem próximo, profissionalmente, um paciente, ou um amigo ou parente que já fez uma tentativa de suicídio ou perpetrou sua própria morte, se fizer agora uma autópsia psicológica primária vai reconhecer que o movimento é exatamente esse. E cujo fim, no final das contas, é deixar a todos a sua volta numa sensação abismal de choque, impotência e culpa porque julgam que algo mais deveriam ter feito para evitar a tragédia. Não sem motivos o termo “sobreviventes” foi cunhado para designar a esses que ficam...
O escritor russo Fiódor M. Dostoiévski (1821-1881), em dois artigos escritos em 1876, na obra Diário de um Escritor, sustenta a tese de que é a crença na imortalidade da alma individual que sustaria esse movimento, porque – paradoxalmente – essa crença funcionaria como uma força de atração gravitacional a nos manter vivos e a prender nossa existência à Terra.
Vejamos alguns trechos principais de seus artigos que servirão para nossas análises:
“Meu artigo é relativo à ideia mais elevada da vida humana: a necessidade, a indispensabilidade da crença na imortalidade da alma. Quis dizer que sem essa crença a vida humana se torna ininteligível e insuportável”.
Outro, e o mais importante:
“Em resumo: está claro que sem crenças, o suicídio se torna lógico e até inevitável para o homem que apenas se elevou acima das sensações comuns. Ao contrário, a ideia da imortalidade da alma, prometendo a vida eterna, sujeita o homem mais fortemente à Terra. Nisto parece existir contradição. Se, distinta da vida terrestre, temos outra celeste, para que fazer muito caso desta aqui em baixo? Mas somente pela fé na imortalidade que o homem se inicia no fim razoável da vida sobre a Terra. Sem a convicção na imortalidade da alma, o vínculo do homem em relação ao planeta diminui, e a perda do sentido supremo da vida conduz incontestavelmente ao suicídio. E se a crença na imortalidade da alma é tão necessária à vida humana é por ser o estado normal da Humanidade, provando que a imortalidade existe. Em uma palavra: esta crença é a própria vida e a primeira fonte de verdade e consciência real para a Humanidade”.
Por fim:
“Disse N. P., que semelhante confissão em meu Diário constitui anacronismo ridículo, porque estamos atualmente no século das “ideias de ferro”, das ideias positivas; no século da “vida sobretudo”. Por isso, sem dúvida, aumentou tanto o número de suicidas entre pessoas inteligentes e cultas. ”
“Onde, então, está o mal? Em que se enganou? O mal está em ter perdido a fé na imortalidade da alma. ”
De acordo com Dostoiévski o homem sem fé, destituído de crença, estaria livre para soltar as amarras da âncora gravitacional que o prendem à vida uma vez que se a imortalidade não existe e a vida resume-se em ser uma transição entre um nada anterior ao nascimento e o nada depois da morte, tudo se lhe permite. Isto é, se é o nada mesmo que nos espera por que não acabar com a vida quando na balança da existência o prato do sofrimento é mais pesado e encontra-se em vantagem sobre o prato do prazer, da alegria de viver e das realizações consistentes?
Essa tese de Dostoiévski: a crença na imortalidade da alma como fator impeditivo do suicídio em que o medo do desconhecido é maior do que o medo de enfrentar o aqui e agora é confirmada, às vezes, no depoimento de alguns pacientes. Uma paciente espírita kardecista que sofre de um transtorno depressivo maior, em um período de crise e de ideação suicida obsessiva, certa vez me disse:
 “O que me impede de me matar nessas horas não é o amor que sinto pelo meu marido e a minha filha, e que eu sei ser retribuído porque eles me amam também. É uma coisa tão louca que nesses momentos o que me impede realmente é a religião. Eu não sei o que vou encontrar. Não sei se o inferno de lá é pior do que o inferno de cá”.

Dados fornecidos por pesquisas sobre a epidemiologia do suicídio, estudos ecológicos – estudos que não levam em conta variáveis de cada indivíduo, mas sim de países inteiros - apontam que a religião, de fato, aprece como um mecanismo de proteção contra o comportamento suicida:
“Um estudo mais detalhado sobre o impacto dos comportamentos e das crenças religiosas de 26 países nas taxas de suicídio foi conduzido por Neeleman e Lewis. Os autores demonstraram que não só a religião declarada, mas também a intensidade da participação nas atividades religiosas, a religiosidade e a criação religiosa apresentaram associações negativas com as taxas de suicídio, um efeito mais evidente (a associação negativa com o suicídio) em países menos religiosos em média”. (Correa e Barrero, 2006, pág. 19).
Botega e outros (2006) em uma pesquisa no qual apontam quais são os fatores de proteção e de risco à ocorrência do suicídio, destacando os pontos mais comuns presentes nos planos nacionais de prevenção ao suicídio de vários países, confirmam também essa importância da religiosidade:
“A prevenção do suicídio, faz-se por meio do reforço dos fatores ditos protetores e diminuição dos fatores de risco, tanto no nível individual como coletivo. Entre os primeiros, podemos citar bons vínculos afetivos, sensação de estar integrado a um grupo ou comunidade, religiosidade, estar casado ou com companheiro fixo, ter filhos pequenos. Pessoas com maior envolvimento religioso de um modo geral possuem menores taxas de suicídios. A religiosidade também auxilia no enfrentamento de doenças graves. Entre os muçulmanos as taxas de suicídio são mais baixas quando comparadas às outras religiões, provavelmente por causa do pesado julgamento moral sobre o suicídio e consequente senso de punição, além de outras características culturais, como por exemplo, a proibição do consumo de álcool.” (Botega e outros, PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 37, n. 3, pp. 213-220, set./dez. 2006).
 Igualmente estudos sobre resiliência têm apontado a religião como um fator que, para uma pessoa em particular pode contribuir para impedir o movimento que leva ao ato suicida.
É necessário reconhecer, no entanto, que muitas fantasias religiosas percorrem o imaginário de muitos dos que se matam. Análises de cartas e bilhetes, nas assim chamadas “mensagens de adeus” (Dias, 1991), deixados por suicidas são esclarecedoras sobre o conteúdo religioso a respeito da morte e do que se espera encontrar do outro lado. Esses depoimentos mostram como, para alguns, a morte simplesmente é negada como forma de desaparecimento real e acreditam verdadeiramente que continuarão vivos; para outros, a morte é vista como possibilidade de reencontro com aqueles que foram antes, parentes e pessoas amadas ou ainda como forma de libertação de uma situação humana muito difícil e de renascimento pós-morte. Ideias que configuram simbolicamente a ligação com uma religiosidade, onde:
“a finitude humana é substituída por uma noção de entrada para a eternidade desejada na vida, e a vivência do sujeito suicida parece coincidir com a transposição de uma porta para um estado também vivo” (Dias, 1991).
E cuja situação em quase nada se diferenciará da vida atual.
Portanto, é preciso considerar que na ambivalência característica do comportamento suicida, muitos travam uma batalha íntima, avassaladora, com suas crenças e valores opostos e negadores do ato, até enfim consumá-lo. De qualquer forma, e é o que a tese de Dostoiévski advogaria, um programa fecundo de prevenção do suicídio deveria conter o item da âncora gravitacional da crença religiosa – como fator de proteção – porque mesmo sendo resultado de um movimento e de uma decisão íntima e pessoal, os estudos demonstram, desde as pesquisas realizadas pelo sociólogo francês Èmile Durkheim (1858-1917) com a publicação de seu livro O Suicídio, a existência de uma interação entre os valores individuais e a cultura na qual estamos inseridos, comprovando a influência do meio social e da religião sobre as taxas de suicídio, seja propiciando a facilitação de sua ocorrência, seja como limitantes.
Muito bem, mas o quê isso significaria? O impeditivo do suicídio para alguém em sofrimento insuportável seria apenas substituir uma morte, a real, por outra, a morte em vida, o que já é o cotidiano que precede a vida dos que se matam. Então o problema principal continuaria não resolvido. A pulsão famélica de morte, não saciada, furiosamente permaneceria a fazer seus estragos.
Então não seria talvez mais digno estendermos para os que se encontram afundados nesse delírio opressivo os mesmos direitos que se defende para os pacientes de doenças terminais? Por que não lhes permitir uma morte digna, assistida, já que a sua condição mental e emocional é a de um moribundo para o qual já não existe mais vida? Diante da dor terrível que carregam, sem nenhuma esperança de solução para eles, uma morte precoce não seria uma alternativa razoável? E nesse caso a vontade de morrer já se encontra instalada, estruturada, metabolizada pela personalidade. Dessa forma, por que não ter o direito fundamental de decidir sobre a sua própria vida?
Perguntas como essas trazem implicações filosóficas, teológicas, éticas e legais muito amplas e sérias. São questionamentos que provocam nossos valores pessoais, crenças e visões de mundo para além da esfera estritamente profissional do psicólogo que, cotidianamente, recebe em seu consultório pessoas com intenção de suicídio. Trata-se de um questionamento sobre se temos ou não o direito de tirar a própria vida!
Bem, então, como eu vejo o suicídio? Primeiro, como um profissional da área de saúde mental o meu posicionamento explicitamente é o de oposição ao suicídio. E penso que essa perspectiva de enxergar o suicídio como um ato negativo, como comportamento anormal, como algo que deve ser prevenido, tratado e evitado é um paradigma comum a todos os profissionais que atuam no campo da saúde mental. Não fosse assim não estariam em movimento todo um arsenal de pesquisas biomédicas, farmacológicas, de compreensão do fenômeno do suicídio, programas de prevenção, atenção primária e de ações psicoterápicas para combatê-lo e procurar diminuir sua incidência, que cada vez mais se agiganta no mundo atual.
Segundo, algumas crenças religiosas fazem parte da minha identidade própria como pessoa. Algo do que sou tem seus fundamentos, se construiu e edificou em função desses valores e crenças, sendo que a noção de imortalidade da alma é uma delas. Entretanto, fique claro, profissionalmente não me cabe – até porque esta restrição está escrita no código de ética do psicólogo – impingir meus próprios valores religiosos aos pacientes que me solicitam ajuda.
Entretanto, se não faço uma elegia da religião, se não devo fazer como faz Dostoiévski: a defesa e propaganda da ideia de imortalidade da alma de forma a combater o avanço das “ideias de ferro”, como ele denomina o ateísmo e o materialismo e que seriam, em parte, o substrato cultural correlacionado ao aumento do número de vítimas pela via do suicido, aqui faço, como uma estratégia de prevenção, um elogio à dúvida.
Porque, afinal, quando adentramos na densa floresta das questões humanas fundamentais, das questões humanas mais profundas, das questões sobre as quais têm se debruçado os pensadores de todos os tempos.... De verdade: nada sabemos.
E mesmo daquilo que já sabemos, nem de tudo temos clareza e nem tudo nos deu certeza. Há vida após a morte? O que acontece após o evento da morte do corpo físico? Somos apenas corpos físicos complexos ou possuímos uma alma? Nossas experiências subjetivas, pensamentos, sentimentos, emoções, resultam apenas de atividade eletroquímica de nossos cérebros? O cérebro é quem cria a consciência ou, ao contrário, a consciência existia antes de haver matéria? Quer saber, não sabemos. O que temos são perguntas, inúmeras perguntas na ilha de consciência em que existimos cercada por oceanos ainda insondáveis.
“É necessariamente verdade que todas as coisas que afirmamos em ciência, todas as conclusões que tiramos, são incertas, pois são apenas conclusões. São conjeturas sobre o que irá passar-se e não podemos saber exatamente o que vai passar-se porque nunca fazemos todas as experiências. É curioso como o efeito sobre a massa de um pião a girar é tão pequeno que podemos dizer “bem, não faz diferença nenhuma”. Mas chegar a uma lei correta, ou pelo menos a uma que se mantenha após crivos sucessivos, requer uma tremenda inteligência e imaginação e um completo remendo na nossa filosofia, na nossa compreensão do espaço e do tempo. Refiro-me à teoria da relatividade. Acontece que os efeitos insignificantes daí resultantes requerem sempre as mais revolucionárias modificações de ideias. Os cientistas estão, pois, habituados a lidar com a dúvida e a incerteza. Todo o conhecimento científico é incerto. E esta experiência com a dúvida e a incerteza é importante. Creio mesmo que tem um valor tão alto que se estende para lá da ciência. Creio que para resolver qualquer problema que ainda não tenha sido resolvido é preciso deixar entreaberta a porta para o desconhecido. É preciso manter aberta a possibilidade de não termos toda a razão. De outro modo, se já temos uma ideia predefinida, podemos não conseguir resolver nada.
Quando o cientista nos diz que não sabe a resposta, é um ignorante. Quando diz que tem um palpite sobre o modo como as coisas vão funcionar, está inseguro a esse respeito. Quando tem a certeza sobre o modo como as coisas irão passar-se e afirma “aposto que é assim que tudo vai passar-se”, ainda continua em dúvida. E para podermos progredir é de extrema importância que saibamos reconhecer essa ignorância e essa dúvida. É por termos dúvidas que nos propomos olhar em novas direções à procura de novas ideias. ” (Feynman, Richard, O Significado de Tudo, Gradiva, Lisboa, 2001, pp. 11-37).
Bem, se é esta a postura razoável que se deve adotar em um campo de pesquisas onde a realidade, até certo ponto, é palpável e observável o que se dizer a respeito do que possa ocorrer após o evento da morte do corpo físico? Não sabemos. Pesquisas sobre a consciência, existência fora do corpo, reencarnação, experiências de quase-morte, estão sendo atualmente capitaneadas pela ciência e desenvolvidas por importantes centros universitários do planeta de forma a ampliar o espectro do conhecimento humano sobre os limites da vida. Mas até o momento, de nada sabemos. E embora uma visão popular atualmente predominante no campo das Neurociências queira definitivamente responder que “você, suas alegrias e tristezas, suas memórias e ambições, sua noção de identidade e seu livre-arbítrio nada mais são do que a interação de um vasto conjunto de células nervosas...” (Revista Veja); considerando a consciência humana como algo cuja localização encontra-se no cérebro e que em um futuro bem próximo o mapeamento neural da consciência será feito, tal como está ocorrendo com o código genético de nosso organismo físico: na verdade o que temos são apenas hipóteses, quando não uma hybris da razão.
“Existe uma pergunta insidiosa que, nos últimos tempos, tem preocupado muitas pessoas e que parece não querer calar tão cedo: será que somos apenas nossos cérebros? Um punhado de genes em interação produzindo a ilusão de que temos um “eu”? O que terá restado da subjetividade?
Essas proposições são cada vez mais proclamadas pela mídia como conclusões científicas definitivas e não apenas conjecturas, e talvez seja isso o que nos inquieta mais. É da Neurociência que deriva a autoridade para sustentar essa visão e, nesse sentido, podemos dizer que atualmente ela é a disciplina científica que mais tem afetado a imagem que o homem tem de si. Dizer que o nosso “eu” nada mais é do que o metabolismo do cérebro tem consequências profundas, tanto do ponto de vista filosófico como do antropológico. Significa sugerir que uma questão filosófica milenar, o problema mente-cérebro, pode ser solucionada. Nossas mentes não seriam nada mais do que nossos cérebros. A imagem socrática do homem de uma alma aprisionada a um corpo, que herdamos nos últimos milênios de Filosofia, deveria agora ser abandonada.
(...). Queremos o conforto de uma cultura da resposta certa, na qual não existam brechas para a dúvida. (...). Estaríamos caminhando para uma Neurofilosofia, que estaria se tornando a ferramenta poderosa para extirpar a moléstia metafísica. Quem sabe, as próprias dúvidas hiperbólicas da Filosofia nada mais seriam do que estados cerebrais inoportunos, dos quais poderíamos nos livrar interferindo no metabolismo do cérebro, provavelmente por meio de drogas poderosas. Afinal, já existem drogas que induzem efeitos específicos, como é o caso das que produzem experiências religiosas. Não queremos mais ser incomodados por dúvidas insidiosas; o ideal da saúde, da mente sã, deve se sobrepor à busca por respostas a questões incômodas do tipo “o que somos? ”, “de onde viemos? ”, e “para onde caminhamos? ” (...). Mas as questões metafísicas têm se mostrado recorrentes. Elas sobreviveram às diversas demonstrações filosóficas de que são insolúveis. É o retorno do reprimido.”  (Teixeira, João Fernandes) http://filosofiacienciaevida.uol.com.br/ESFI/Edicoes/60/artigo220185-2.asp).
 E essa atitude, pois, metódica, de dúvida – que não significa permanente negação, mas liberdade de investigar oposta àquela posição que afirma e pensa que já descobriu – não pode ser outra, até porque em sua origem histórica a Filosofia e a Ciência surgiram por sentir profundamente o arcano e misterioso desse universo em que vivemos e a nossa condição humana dentro dele.
E dessa forma, se não conseguimos desenvolver uma religiosidade que, como um fator de proteção possa fazer nascer e mantenha sempre jorrando as fontes de resiliência desde nosso interior, constitui-se em um erro profundo – respondendo as questões propostas acima – a convicção de que o Nada é o que existe, ou pintar um quadro fabuloso sobre a vida após a morte: e tomar essas equivocadas certezas como suportes cognitivos para pretender se autoeliminar.
Ora, se não efetuamos a suspensão de conceitos, imagens e sentimentos prontos, quase sempre de cunho niilista, sobre a realidade da vida, e da vida após a morte, e não fazemos uma reflexão que nos leve a uma conclusão – que não pode ser outra – de que a realidade sempre será mais ampla do que os “quadros” que formamos dela... Enfim, se não escolhemos uma crença, permanecemos escolhidos pela dúvida.
Temos dúvidas e é útil que as tenhamos. Nas estações do trem de nossas vidas podemos nos movimentar para adiante, para alguma forma de crença e fé, mas não podemos retroceder para a estação da absoluta descrença. Porque pertencente à condição humana a dúvida é o mínimo insuperável. E na estação da dúvida ou incerteza não há como não descer. Das barreiras aí colocadas não há como ultrapassar.
Por conseguinte, mesmo que passemos pela vida sem fazer essas perguntas fundamentais, e o que é em termos filosóficos como ter os olhos fechados sem nunca os haver tentado abrir; ao fazê-las – e, sobretudo ao considerar a questão do suicídio em relação à vida após a morte – será preciso sempre considerar a advertência final a seguir:
“Para ser um bom filósofo deve-se ter o desejo forte de saber, combinado à grande cautela em acreditar que se sabe; também se deve possuir acuidade lógica e o hábito do pensamento exato. Tudo isso, claro, é uma questão de grau. A incerteza, em particular, pertence, até certo ponto, ao pensamento humano; podemos reduzi-la indefinidamente, embora jamais possamos aboli-la por completo”. (Russell, Fundamentos de Filosofia, p. 9).
Isso porque o ser humano é o único ser para o qual sempre se colocará como problema, o seu próprio ser. Daí a dúvida como estrutura constituinte de sua condição, porque diferente da pedra, do vegetal e do animal por mais profundo que ele se olhe não se vê; e por mais que venha a se conhecer, nunca saberá inteiramente de si.
             
Bibliografia
Botega e outros. Prevenção do comportamento suicida. PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 37, n. 3, pp. 213-220, set./dez. 2006).
Cassorla, Roosevelt M.S. O que é suicídio. São Paulo: Brasiliense, 1984.
Corrêa, H; Barrero, S. P. (org). Suicídio: uma morte evitável. São Paulo: Editora Atheneu: 2006.
Dias, Maria Luiza . Suicídio: testemunhos de adeus. São Paulo: Editora Brasiliense, 1991.
Dostoievski, Fiodor. Suicídio, Sentido da Vida e Imortalidade, extraídos da coletânea Diário de um Escritor. Disponível em lutaaquariana.blogspot.com/2009/04/fiodor-dostoievski-050808.html.
Durkheim, Èmile. O Suicídio. São Paulo: Edt Martin Claret, 2002.
Feynman, Richard, O Significado de Tudo, Lisboa: Gradiva, 2001.
Jamison, K. R. Quando a noite cai: entendendo o suicídio. Rio de Janeiro: Gryphus, 2002.
Pondé, Luiz Felipe. Crítica e Profecia: a filosofia da religião em Dostoievski. São Paulo: Edt 34, 2003.
Revista Veja. Afinal, A Leitura da Mente. Editora Abril. Edição 2276 – ano 45 – nº 27 / Julho de 2012.
Russerl, Bertrand. Fundamentos de Filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 1977.
Teixeira, João Fernandes: Afinal, O que somos? Disponível em: http://filosofia da cienciavida.uol.com.br/ESFI/Edições/60/artigo220185-2.asp.
Teixeira, João Fernandes. Filosofia do Cérebro.  São Paulo: Edt Paulus, 2012.


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sábado, 16 de julho de 2016

Silenciar sobre o suicídio é o que mata

Óleo sobre tela: Silêncio / Fabiano Millani
 Uma amiga chegou esta manhã para me pedir um conselho. Um querido amiga dela havia morrido por suicídio.
"O que você diz quando alguém tira a sua própria vida?" Perguntou ela.
Poderia ter sido eu.
Minha amiga e eu conversamos brevemente sobre seu amigo. Eu nunca o tinha encontrado; eu não o conhecia. Mas, ao mesmo tempo em que eu a ouvia  falando sobre o suicídio dele, eu senti como se o conhecesse muito bem. Pude sentir o que se passou com ele no exato minuto em que tirou a própria vida. Eu me conectei à ele de uma maneira muito profunda.
Ficamos conectados porque eu conheço bem os demônios que ele carregava.  Eu acredito que os meus são os mesmos. Eu posso imaginar o que ele poderia ter sentido: como é você estar em um corpo que é ocupado por outra pessoa. Como é você estar se afogando. Como se você estivesse engolindo água quando todos à sua volta estão respirando ar puro. Eu tenho visto o mundo através da mesma névoa negra e atravessado a mesma areia movediça pegajosa. Eu sei. Eu estive lá.
Eu costumava pensar que a dor me fez uma pessoa isolada. Que a dor emocional profunda que eu tenho experimentado me fez diferente de você, me tornou inferior à você. Eu escondi a minha dor, porque eu tinha medo que você venha a pensar que eu sou fraca. Eu estava com medo de que minha escuridão tenha feito de mim uma pessoa feia. Eu estava com medo de que se as pessoas soubessem o tipo de pensamentos que tenho, os pensamentos que me diziam que eu não valia nada e não merecia viver, elas me tratariam realmente como se eu não merecesse viver.
Eu não falei com ninguém sobre minha dor até que foi quase tarde demais. Eu não contei a ninguém que eu queria morrer até que eu quase me matei. Mas depois que eu acordei e depois de, com muito esforço, tomar em minhas mãos a minha própria vida, a esperança nasceu. 
A esperança escancarou a porta para eu falar abertamente sobre a minha dor. E quando eu comecei a falar, comecei a ver que havia dores semelhantes em muitas outras pessoas. Meus olhos já não estavam cegos pelo medo. Eu agora enxergava outras pessoas que se sentiam com eu, conectando-nos da maneira mais profunda.
Nunca foi a dor que me isolou, mas o meu medo. O medo de não ser compreendida, o medo de ser diminuída, o medo do preconceito. Uma vez que a esperança entrou e me devolveu a vontade de viver, o medo soltou suas garras. E quando eu comecei a deixar de lado o medo, comecei a ver a beleza que vive debaixo da dor.
Minha escuridão já não me isola. Meus sentimentos de inutilidade e vergonha, meus pensamentos de que não tenho nenhum valor, os pensamentos que me dizem que eu não mereço viver, que o mundo seria um lugar melhor sem mim, não me fazem mais me sentir sozinha. Eles não me isolam porque eu os compartilho. E falo sobre eles. Eu os utilizo para construir uma ponte entre mim e outras pessoas que se sentem e pensam da mesma maneira. Nossa escuridão nos permite que entremos em comunhão, e essa ligação acende uma luz dentro de nós que nos livra da escuridão.
E sempre que alguém morre de uma maneira tão trágica, isso soa para mim como um grande lembrete de por que eu preciso continuar a falar sobre o suicídio e compartilhar a minha dor.
Alguns perguntam se eu não tenho medo de falar abertamente sobre as minhas últimas lutas e, as vezes presentes, intenções suicidas. "Você não está com medo do que as pessoas pensam? Você não está com medo de como as pessoas vão te julgar? "
Não. Eu não estou com medo de falar sobre o suicídio. Estou com medo de ficar calada. O silêncio é o que alimenta a minha depressão. O silêncio se transforma em pensamentos e em obsessões e obsessões podem levar a ações. O silêncio é a arma mais mortal de todas. O silêncio mata. Eu sei que o meu silêncio iria me matar, e eu não quero morrer.
Eu falo sobre isso para outras pessoas que estão com medo de falar abertamente sobre suas intenções suicidas para que elas saibam que não estão sozinhas. Nós nunca estamos sozinhos, acredite. Vou repetir: nós nunca estamos sozinhos, apesar de quão solitário que nos sentimos.
Minha dor não me faz diferente de você. Ele não me faz menos do que você. Minha escuridão não é feia e maldita. É uma bela ponte que me liga a você. E se conectar através da dor é a mais poderosa e transformadora conexão que já experimentei.   
Siga nessa jornada com sentimentos e fé.


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Texto original: Why I'm Too Scared to Stay Silent About Suicide  By Christine Suhan
Tradução livre e adaptada





sexta-feira, 8 de julho de 2016

Elegia ao amigo suicida


Através do suicídio, pretende-se dar uma solução definitiva a sofrimentos e situações que são temporários. Equívoco que a poesia, capaz de ver beleza onde essa menos se encontra também compreende, uma vez “que a morte não é como a vida, que se podem dar chances e mais chances seguidas...”




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O Suicídio no filme "Como Eu Era Antes de Você"

 

Embora o filme tenha recebido muita atenção, eu senti a necessidade de abordar o assunto tema do filme que, a meus olhos é bem mais complexo do que as pessoas perceberam. Eu também estava preocupada com a mensagem por trás do filme.
Em resumo, um dos personagens principais, tetraplégico, em última instância, decide acabar com sua vida, em vez de escolher viver com sua deficiência. A heroína implora para ele não se matar e promete mudar sua maneira de pensar. Ele não muda. Ela sucumbe ao aparentemente inevitável.
Muitos entenderam o filme apenas como outra história de amor como todas as outras. Alguns diriam que termina de uma maneira poética e satisfatória, mesmo que não tivessem sido "felizes para sempre". Uma história de amor para as pessoas desfrutarem sem grandes preocupações.
Discordo. Essencialmente o que o filme diz é que a vida não vale a pena ser vivida se você tem uma deficiência grave. E, o que é mais sério, não são as pessoas com necessidades especiais que lutam contra essa forma de pensar. Isso é o que torna o filme tão assustador. Ele retrata um estereótipo que é muito real.
Uma imagem é pintada nesse filme: viver com uma deficiência é um fardo demasiado pesado para um indivíduo que a possui e para todas as pessoas ao seu redor. Mesmo para aqueles que se comprometem a amar incondicionalmente e são vistas como criaturas “elevadas”, pessoas consideradas especiais e mais bem equipadas em "lidar" com os desafios de amar alguém com uma doença ou deficiência.
Eu acho que essa mensagem é o que me incomodou. É uma história que diz que o amor não pode suportar qualquer coisa, e mesmo quando parece que pode, não o pode porque viver com uma deficiência é muito difícil para todos os envolvidos.
É verdade - nem todos os que têm uma deficiência consideram que sua vida está terminada. Nem todo mundo se sente negativamente sobre as circunstâncias mais difíceis e limitadoras de suas vidas. Na verdade, há um grande número de vozes, o meu incluído, que dizem que a vida com uma deficiência pode sim ser plena e maravilhosa. E mais, com deficiência ou não, todo nós nos perguntamos se alguém sempre vai nos amar, verdadeiramente, somente pela pessoa que somos. A diferença é que quando esta pergunta é colocada no contexto da deficiência, ela não é negada tão rapidamente.
É muitas vezes ignorado e as pessoas não entendem o quão significativo esses preconceitos podem ser, ou como a sociedade alimenta esses estereótipos na forma como a deficiência é falada e percebida.
Muitas pessoas com necessidades especiais já se perguntaram em um ponto ou outro, se suas vidas são muito difíceis para que uma outra pessoa reconhecer seu valor e amá-las como uma pessoa real - não por obrigação ou piedade, mas por sentirem por elas um amor genuíno. Os fatos do mundo em torno de nós gritam que esses pensamentos de inutilidade e que, possivelmente, nunca serão amados são justificados. O medo não é infundado.
As pesquisas têm mostrado que ter uma deficiência leva muitas vezes a pessoa a ser excluída na sociedade.
As crianças com necessidades especiais têm uma maior probabilidade de sofrer bulling.
A taxa de divórcio para famílias com necessidades especiais é de até 90% e mais de 75% quando um dos cônjuges tem uma doença crônica.
As pessoas com deficiência são consideravelmente menos propensas a se casar.
A eutanásia ou o suicídio assistido foi legalizado em vários países e em alguns estados dentro dos EUA; algumas pessoas acreditam que poderia ser, e tem sido, utilizado de forma antiética contra as pessoas com deficiência.
A taxa de suicídio entre as pessoas com certos tipos de deficiência é significativamente maior do que para a população em geral.
Aqueles que fazem tentativas de suicídio são mais propensos a fazê-lo por causa das mensagens sociais negativas recebidas da sociedade sobre ser portador de uma necessidade especial.
Filmes como " Como Eu Era Antes de Você” passam uma mensagem de que todo mundo estará melhor se as pessoas que têm uma deficiência decidem não viver. Will, o personagem principal, tetraplégico, justifica esta constatação dizendo para Louisa, a mulher que ele ama: "Eu não te quero presa a mim, para os meus compromissos hospitalares, para as restrições da minha vida. Eu não quero que você perca todas as coisas que um outro alguém poderia dar-lhe. E, de forma egoísta, eu não quero que você olhe para mim um dia e, por estar ao meu lado, venha a sentir, ainda que seja, nem um pouquinho de remorso ou piedade ... "
Se o autor percebeu ou não, ela mostrou uma verdade assustadora. Esta declaração não está longe dos pensamentos das pessoas na vida real, e são exatamente esses pensamentos que induzem sentimentos em algumas pessoas com necessidades especiais para não mais desejarem viver.
Terminar uma vida é retratada no filme como uma escolha heroica; uma oportunidade para libertar alguém do fardo de si mesmo enquanto estiver no controle de sua vida. Mas o que acontece quando aqueles que afetados por uma doença grave assistem essa escolha? Ela é percebida como uma confirmação do medo de que eles, por sua deficiência, não são queridos. O heroísmo do personagem é uma mentira cuidadosamente velada, validando sentimentos de inutilidade por aqueles com uma deficiência e aludindo à possibilidade de que esta é a forma como o resto do mundo pensa.
Portanto, esta história não só contribui para o estigma em nossa cultura, hoje, contra as pessoas com deficiência, mas pode também levar uma pessoa com necessidades especiais graves a considerar que sua vida terminou. Esta história teve uma oportunidade poderosa para mudar o debate sobre a deficiência. Em vez disso, ela contribui para o problema. É perigoso para a nossa cultura promover algo que indica que terminar uma vida é uma opção viável quando uma pessoa se sente como se não fosse mais digna de amor.
Acredite, algumas pessoas se sentem dessa forma. E é por isso que precisamos conversar sobre isso. É por isso que temos de fazer alguma coisa. É por isso que temos de trabalhar para mudar o debate que tem e deve ter lugar dentro da sociedade sobre as questões da deficiência e como é viver com uma deficiência.
É por isso que precisamos permanecer dizendo: sua vida é importante. Você é amado. Sua presença é significativa.


Texto original: When Someone Told Me I Was Wrong About Suicide and Disability By  MaryLynn Johnson.
http://themighty.com/2016/07/talking-about-suicide-and-disability/
Texto livremente traduzido e adaptado a nossa realidade.

Se você ou alguém que você conhece precisa de ajuda telefone para o CVV: 141 e procure ajuda especializada

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Promete que nunca vai embora?


Sua vida não é só sua. Minha vida não é só minha. Por meio de minha vida dou sentido à vida de outros. Se acabo com minha vida provoco uma ruptura nessa rede de relações em que minha existência ganha o seu significado e em que a existência do outro ganha significado através da minha vida... Portanto, NÃO VÁ EMBORA!

Suicídio Infantil - Atenção Para Os Sinais


Pintura "Meninos soltando pipa", 1941, Cândido Portinari


Visto ainda como um tabu, o suicídio infantil é um tema delicado e que muitas vezes é difícil de ser diagnosticado. Apenas estudado a nível internacional, a incidência de suicídio infantil parece, no entanto, estar aumentado nos últimos anos.


 Definição
                                                                   
Uma criança ou adolescente suicida é um menor que planeja ou faz tentativas de acabar com sua própria vida.
O termo "suicídio infantil" significa o ato pelo qual uma criança provoca a sua própria morte de maneira voluntária. Na maioria dos casos, isso não significa simplesmente um desejo de morrer, mas acontece como o último recurso para escapar de um grande sofrimento ou de uma situação para a qual a criança não encontra saída.
A tentativa de suicídio é definida como um ato – que não teve êxito –através do qual a criança expressa um desejo de prejudicar-se, colocando-se em perigo e com a intenção real de provocar a sua própria morte.
Tentativas de suicídio nem sempre são tentativas que falham. Muitas são consideradas como uma tentativa desesperada de chamar a atenção para os problemas ou sentimentos de abuso e violência que a criança está vivenciando.

Os dados globais sobre o suicídio infantil
O suicídio infantil é um assunto tabu na maioria dos países. Ainda que esse problema entre adolescentes esteja sendo cada vez mais investigado, existem poucos estudos científicos sobre o suicídio em crianças mais jovens (com menos de 13 anos), e não há dados sobre a incidência deste fenômeno a nível internacional. No entanto, sabe-se que as razões que levam as crianças a cometer suicídio são muito diferentes daqueles que motivam os adultos.


O suicídio infantil às vezes é difícil de diagnosticar porque as crianças têm mais dificuldade do que os adultos para expressar seus conflitos ou infelicidade. O suicídio de crianças também é confundido ou pensado, quase sempre, como um acidente: muitas vezes atribuído ao imprevisto de cair ao se debruçar em uma janela ou atravessar uma rua na hora errada, e ser atropelado, por exemplo. Também a morte de crianças órfãs e / ou de crianças que moram nas ruas muitas vezes não são investigadas ou mesmo registadas pelas autoridades em alguns países, o que torna difícil para se obter estatísticas ou realizar estudos.
De acordo com algumas das poucas pesquisas existentes – a maioria realizadas em países industrializados – a maioria das crianças que se suicidam são geralmente do sexo masculino, enquanto a maioria das tentativas de suicídio são feitas por meninas.
Um estudo norte-americano revela que o suicídio é a quarta principal causa de mortalidade entre crianças de 10 a 14 anos, e a terceira em crianças com mais de 15. Inclusive há o relato mesmo do suicídio de uma criança de 7 anos. De acordo com dois estudos suíços realizados em 2004, feito com crianças entre 11 e 15 anos e adolescentes entre 16 e 20 anos, aproximadamente 8% das meninas e 3% dos meninos admitiram terem feito uma tentativa de suicídio pelo menos uma vez sua vida.
Na maioria destes estudos observou-se uma tendência crescente de suicídio infantil e um aumento no comportamento de risco que anteriormente só era atribuída a adolescentes.

Causas de suicídio em crianças e adolescentes


O fim da Infância e início da adolescência muitas vezes são períodos difíceis e que apresentam muitos desafios, tais como alterações hormonais, maiores responsabilidades escolares, a necessidade de trabalhar ou relações pessoais problemáticas, entre outros, que podem levar a criança a desenvolver pensamentos negativos. 
No entanto, falar de um único fator precipitante seria incorreto. Embora um evento significativo, como a perda de um ente querido, divórcio dos pais, mudanças, abusos, etc., possam empurrar uma criança a cometer suicídio, estes fatores devem ser vistos, muitas vezes, como o que fazem transbordar o que já estava lotado. Dessa forma, então, é preferível falar de múltiplas causas e circunstâncias agravantes.
Fatores pessoais
O mais frequentemente mencionados são fatores psicológicos (depressão, ansiedade, de personalidade antissocial, ...) e comportamentais (agressão, abuso de álcool ou drogas).
Fatores familiares


 O ambiente familiar também desempenha um papel importante se ele não é capaz de proporcionar à criança uma atmosfera suficientemente segura durante todo o seu crescimento. Abandono, negligência, abusos, perda de parâmetros culturais (como no caso de uma mudança forçada) e a falta de projetos futuros podem encorajar tendências suicidas. Em geral, o isolamento social ou emocional é uma das principais causas de suicídio.
Outros fatores
Também devem ser considerados outros fatores que ocorrem algumas vezes ou que são específicos para um determinado país, como cyber-dependência (vício em jogos de vídeo ou internet), o bulling na escola ou violência devido à orientação sexual ou por pertencer a uma minoria.
Por exemplo, no Japão, onde as autoridades não conseguiram controlar este fenómeno, o abuso e bulling escolar foram responsáveis ​​por 14 dos 40 suicídios que foram relatados entre 1999 e 2005.
O caso das minorias
A taxa de suicídio entre os jovens em comunidades indígenas no Brasil, e aborígenes na Austrália, por exemplo, é quatro vezes mais elevada do que a taxa nacional de suicídio nesses países devido à violência física e psicológica, bem como à discriminação social.
  
Prevenção do suicídio infantil
Detectar atitudes suicidas
Detectar e compreender os sinais antes que os filhos levem a cabo seus impulsos é importante na hora de tomar as medidas necessárias para prevenir o suicídio. Os pais e outras pessoas próximas à criança, como os professores, devem prestar atenção ao seu comportamento e suas atividades para que possíveis sinais sugestivos de depressão ou pensamentos suicidas não passem despercebidos.

A seguir, uma lista de sintomas ou sinais que podem ser bastante preocupantes, especialmente se vários deles se manifestem ao mesmo tempo:
- Distúrbios do sono (dormir demais ou muito pouco)
- Perda de apetite e / ou peso
- Isolamento da família e dos amigos
- Perda de interesse em atividades favoritas
- O absentismo: faltas e atrasos constantes na escola
- Agressividade física ou psicológica
- Abuso de álcool ou drogas
- A falta de preocupação com a aparência e higiene
- Correr riscos desnecessários
- Interesse por assuntos sobre morte ou suicídio
- O envio de mensagens preocupantes pela internet
- Notas baixas ou problemas escolares incomuns
- Dificuldade de concentração
- Pensamentos negativos e de baixa autoestima a respeito das qualidades próprias e realizações

 Passos a seguir
O mais importante é a atenção dos membros da família e do pessoal da escola, que devem apoiar a criança e não ignorar ou desacreditar seus sentimentos e problemas, especialmente se a criança está passando por um período estressante ou mudanças profundas em sua vida. Esforços devem ser feitos para eliminar progressivamente pensamentos suicidas ou comportamentos destrutivos.
O pessoal da educação (professores, orientadores escolares, psicólogos escolares, etc.) deveriam ser treinados para detectar sinais de alerta e responder prontamente a esses sinais. Os pais que suspeitam que seu filho tenha pensamentos suicidas devem imediatamente procurar ajuda especializada, levando sua suspeita aos próprios membros da escola ou a um psicólogo e psiquiatra.
Reforçamos. Se os sintomas indicam uma situação séria, é importante que a criança seja encaminhada a uma consulta com um psicólogo ou um psiquiatra para determinar se é portadora de transtornos mentais ou comportamentais. Isso deve levar a um tratamento adequado: tratamento psicológico e psiquiátrico, medicamentos de prescrição e, se necessário, a hospitalização.


Se você ou alguém que você conhece precisa de ajuda, por favor, ligue para o telefone do CVV 141 e procure ajuda especializada.



Texto original: Suicidio infantil: un fenómeno complejo y difícil de explicar

http://www.humanium.org/es/suicidio-infantil/

comprometida a acabar con las violaciones de los Derechos del Niño en el mundo

 Texto livremente traduzido e adaptado.