domingo, 17 de julho de 2016

Religião, suicídio e dúvida

São Francisco / Cândido Portinari



“Nesta vida morrer não é difícil. O difícil é a vida e o ofício de viver. ”  
(Vladimir Maiakóvski)

"Existem alguns neuróticos em quem, a julgar por todas as suas reações, o instinto de autopreservação na realidade foi invertido. Eles parecem visar a nada mais que à autolesão e à autodestruição. É possível também que as pessoas que, de fato, terminam por cometer suicídio pertençam a esse grupo. É de se presumir que, em tais pessoas, efetuaram-se defusões de instinto de grandes consequências, em consequência do que houve uma liberação de quantidades excessivas do instinto destrutivo voltado para dentro. Os pacientes dessa espécie não podem tolerar o restabelecimento mediante o nosso tratamento e lutam contra ele com todas as suas forças. Mas temos de confessar que se trata de caso que ainda não conseguimos explicar completamente." 
(Freud em "Moisés e o Monoteísmo", 1938)


RESUMO: Estima-se que aproximadamente um milhão de pessoas comete suicídio anualmente, índice alarmante que fez a Organização Mundial da Saúde (OMS) elevar o suicídio à categoria de grave problema da saúde pública. E como a maior parte da população no mundo professa algum tipo de religião, tornam-se relevantes ensaios e estudos sobre a relação entre religião e suicídio. Nos ensaios de Dostoiévski encontramos um dos mais célebres argumentos filosóficos sobre a crença na imortalidade da alma como fator de proteção ao comportamento suicida. Crenças religiosas que, de fato, diversas pesquisas científicas no campo da suicidologia têm apontado como importantes fatores de proteção. Embora ressalvando o valor dessas pesquisas, nesse ensaio o autor procura apresentar argumentos ressaltando a importância também da dúvida como fator de proteção ao suicídio.
 PALAVRAS-CHAVE: suicídio, imortalidade da alma, dúvida

Não sei entender o suicídio de uma outra forma senão como uma psicose. Não apenas como um surto, um instante de crise em que o indivíduo está “fora de si” e, por isso, se ataca procurando aniquilar-se. Mas como um movimento delirante cuja evolução vai distanciando a pessoa da realidade e de si mesma, em um crescendo, impermeabilizando-a da influência contrária às suas ideações suicidas, seus argumentos e decisão de matar-se; distanciando-a de seus apoios sociais, de seus familiares, do afeto dos amigos, anulando todo suporte pessoal e isolando-a em suas próprias ideias, convicções e impulsos autodestrutivos, tornando-a inexpugnável até o desfecho trágico de pôr fim a sua própria vida.
É simplismo falar em egoísmo na decisão daquele que se mata, ao não pensar no sofrimento dos que ficam. Porque no auge da dor emocional insuportável que carrega, sua única e delirante vontade passa a ser o de livrar-se dessa dor. Não há futuro, esperança, solução que não seja a sua própria morte.
De fora podemos até mesmo analisá-la como uma decisão equivocada, porque, como afirmam os especialistas:
  “... O suicida não está querendo necessariamente matar-se, mas matar uma parte de si mesmo. No entanto, isso é impossível, e ele, como que num engano, acaba matando-se e morrendo inteiro”. (Cassorla, 1994).
 E na ambivalência feroz em que se encontra mergulhado, os núcleos e componentes psicóticos de sua personalidade acabam dominando suas partes sadias e racionais e o indivíduo acaba concretizando o ato.
Entretanto o movimento é esse: de isolamento, de impermeabilização cognitiva e emocional, num solipsismo doentio e cada vez mais profundo até o desfecho de sua autoeliminação. Quem já teve alguém bem próximo, profissionalmente, um paciente, ou um amigo ou parente que já fez uma tentativa de suicídio ou perpetrou sua própria morte, se fizer agora uma autópsia psicológica primária vai reconhecer que o movimento é exatamente esse. E cujo fim, no final das contas, é deixar a todos a sua volta numa sensação abismal de choque, impotência e culpa porque julgam que algo mais deveriam ter feito para evitar a tragédia. Não sem motivos o termo “sobreviventes” foi cunhado para designar a esses que ficam...
O escritor russo Fiódor M. Dostoiévski (1821-1881), em dois artigos escritos em 1876, na obra Diário de um Escritor, sustenta a tese de que é a crença na imortalidade da alma individual que sustaria esse movimento, porque – paradoxalmente – essa crença funcionaria como uma força de atração gravitacional a nos manter vivos e a prender nossa existência à Terra.
Vejamos alguns trechos principais de seus artigos que servirão para nossas análises:
“Meu artigo é relativo à ideia mais elevada da vida humana: a necessidade, a indispensabilidade da crença na imortalidade da alma. Quis dizer que sem essa crença a vida humana se torna ininteligível e insuportável”.
Outro, e o mais importante:
“Em resumo: está claro que sem crenças, o suicídio se torna lógico e até inevitável para o homem que apenas se elevou acima das sensações comuns. Ao contrário, a ideia da imortalidade da alma, prometendo a vida eterna, sujeita o homem mais fortemente à Terra. Nisto parece existir contradição. Se, distinta da vida terrestre, temos outra celeste, para que fazer muito caso desta aqui em baixo? Mas somente pela fé na imortalidade que o homem se inicia no fim razoável da vida sobre a Terra. Sem a convicção na imortalidade da alma, o vínculo do homem em relação ao planeta diminui, e a perda do sentido supremo da vida conduz incontestavelmente ao suicídio. E se a crença na imortalidade da alma é tão necessária à vida humana é por ser o estado normal da Humanidade, provando que a imortalidade existe. Em uma palavra: esta crença é a própria vida e a primeira fonte de verdade e consciência real para a Humanidade”.
Por fim:
“Disse N. P., que semelhante confissão em meu Diário constitui anacronismo ridículo, porque estamos atualmente no século das “ideias de ferro”, das ideias positivas; no século da “vida sobretudo”. Por isso, sem dúvida, aumentou tanto o número de suicidas entre pessoas inteligentes e cultas. ”
“Onde, então, está o mal? Em que se enganou? O mal está em ter perdido a fé na imortalidade da alma. ”
De acordo com Dostoiévski o homem sem fé, destituído de crença, estaria livre para soltar as amarras da âncora gravitacional que o prendem à vida uma vez que se a imortalidade não existe e a vida resume-se em ser uma transição entre um nada anterior ao nascimento e o nada depois da morte, tudo se lhe permite. Isto é, se é o nada mesmo que nos espera por que não acabar com a vida quando na balança da existência o prato do sofrimento é mais pesado e encontra-se em vantagem sobre o prato do prazer, da alegria de viver e das realizações consistentes?
Essa tese de Dostoiévski: a crença na imortalidade da alma como fator impeditivo do suicídio em que o medo do desconhecido é maior do que o medo de enfrentar o aqui e agora é confirmada, às vezes, no depoimento de alguns pacientes. Uma paciente espírita kardecista que sofre de um transtorno depressivo maior, em um período de crise e de ideação suicida obsessiva, certa vez me disse:
 “O que me impede de me matar nessas horas não é o amor que sinto pelo meu marido e a minha filha, e que eu sei ser retribuído porque eles me amam também. É uma coisa tão louca que nesses momentos o que me impede realmente é a religião. Eu não sei o que vou encontrar. Não sei se o inferno de lá é pior do que o inferno de cá”.

Dados fornecidos por pesquisas sobre a epidemiologia do suicídio, estudos ecológicos – estudos que não levam em conta variáveis de cada indivíduo, mas sim de países inteiros - apontam que a religião, de fato, aprece como um mecanismo de proteção contra o comportamento suicida:
“Um estudo mais detalhado sobre o impacto dos comportamentos e das crenças religiosas de 26 países nas taxas de suicídio foi conduzido por Neeleman e Lewis. Os autores demonstraram que não só a religião declarada, mas também a intensidade da participação nas atividades religiosas, a religiosidade e a criação religiosa apresentaram associações negativas com as taxas de suicídio, um efeito mais evidente (a associação negativa com o suicídio) em países menos religiosos em média”. (Correa e Barrero, 2006, pág. 19).
Botega e outros (2006) em uma pesquisa no qual apontam quais são os fatores de proteção e de risco à ocorrência do suicídio, destacando os pontos mais comuns presentes nos planos nacionais de prevenção ao suicídio de vários países, confirmam também essa importância da religiosidade:
“A prevenção do suicídio, faz-se por meio do reforço dos fatores ditos protetores e diminuição dos fatores de risco, tanto no nível individual como coletivo. Entre os primeiros, podemos citar bons vínculos afetivos, sensação de estar integrado a um grupo ou comunidade, religiosidade, estar casado ou com companheiro fixo, ter filhos pequenos. Pessoas com maior envolvimento religioso de um modo geral possuem menores taxas de suicídios. A religiosidade também auxilia no enfrentamento de doenças graves. Entre os muçulmanos as taxas de suicídio são mais baixas quando comparadas às outras religiões, provavelmente por causa do pesado julgamento moral sobre o suicídio e consequente senso de punição, além de outras características culturais, como por exemplo, a proibição do consumo de álcool.” (Botega e outros, PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 37, n. 3, pp. 213-220, set./dez. 2006).
 Igualmente estudos sobre resiliência têm apontado a religião como um fator que, para uma pessoa em particular pode contribuir para impedir o movimento que leva ao ato suicida.
É necessário reconhecer, no entanto, que muitas fantasias religiosas percorrem o imaginário de muitos dos que se matam. Análises de cartas e bilhetes, nas assim chamadas “mensagens de adeus” (Dias, 1991), deixados por suicidas são esclarecedoras sobre o conteúdo religioso a respeito da morte e do que se espera encontrar do outro lado. Esses depoimentos mostram como, para alguns, a morte simplesmente é negada como forma de desaparecimento real e acreditam verdadeiramente que continuarão vivos; para outros, a morte é vista como possibilidade de reencontro com aqueles que foram antes, parentes e pessoas amadas ou ainda como forma de libertação de uma situação humana muito difícil e de renascimento pós-morte. Ideias que configuram simbolicamente a ligação com uma religiosidade, onde:
“a finitude humana é substituída por uma noção de entrada para a eternidade desejada na vida, e a vivência do sujeito suicida parece coincidir com a transposição de uma porta para um estado também vivo” (Dias, 1991).
E cuja situação em quase nada se diferenciará da vida atual.
Portanto, é preciso considerar que na ambivalência característica do comportamento suicida, muitos travam uma batalha íntima, avassaladora, com suas crenças e valores opostos e negadores do ato, até enfim consumá-lo. De qualquer forma, e é o que a tese de Dostoiévski advogaria, um programa fecundo de prevenção do suicídio deveria conter o item da âncora gravitacional da crença religiosa – como fator de proteção – porque mesmo sendo resultado de um movimento e de uma decisão íntima e pessoal, os estudos demonstram, desde as pesquisas realizadas pelo sociólogo francês Èmile Durkheim (1858-1917) com a publicação de seu livro O Suicídio, a existência de uma interação entre os valores individuais e a cultura na qual estamos inseridos, comprovando a influência do meio social e da religião sobre as taxas de suicídio, seja propiciando a facilitação de sua ocorrência, seja como limitantes.
Muito bem, mas o quê isso significaria? O impeditivo do suicídio para alguém em sofrimento insuportável seria apenas substituir uma morte, a real, por outra, a morte em vida, o que já é o cotidiano que precede a vida dos que se matam. Então o problema principal continuaria não resolvido. A pulsão famélica de morte, não saciada, furiosamente permaneceria a fazer seus estragos.
Então não seria talvez mais digno estendermos para os que se encontram afundados nesse delírio opressivo os mesmos direitos que se defende para os pacientes de doenças terminais? Por que não lhes permitir uma morte digna, assistida, já que a sua condição mental e emocional é a de um moribundo para o qual já não existe mais vida? Diante da dor terrível que carregam, sem nenhuma esperança de solução para eles, uma morte precoce não seria uma alternativa razoável? E nesse caso a vontade de morrer já se encontra instalada, estruturada, metabolizada pela personalidade. Dessa forma, por que não ter o direito fundamental de decidir sobre a sua própria vida?
Perguntas como essas trazem implicações filosóficas, teológicas, éticas e legais muito amplas e sérias. São questionamentos que provocam nossos valores pessoais, crenças e visões de mundo para além da esfera estritamente profissional do psicólogo que, cotidianamente, recebe em seu consultório pessoas com intenção de suicídio. Trata-se de um questionamento sobre se temos ou não o direito de tirar a própria vida!
Bem, então, como eu vejo o suicídio? Primeiro, como um profissional da área de saúde mental o meu posicionamento explicitamente é o de oposição ao suicídio. E penso que essa perspectiva de enxergar o suicídio como um ato negativo, como comportamento anormal, como algo que deve ser prevenido, tratado e evitado é um paradigma comum a todos os profissionais que atuam no campo da saúde mental. Não fosse assim não estariam em movimento todo um arsenal de pesquisas biomédicas, farmacológicas, de compreensão do fenômeno do suicídio, programas de prevenção, atenção primária e de ações psicoterápicas para combatê-lo e procurar diminuir sua incidência, que cada vez mais se agiganta no mundo atual.
Segundo, algumas crenças religiosas fazem parte da minha identidade própria como pessoa. Algo do que sou tem seus fundamentos, se construiu e edificou em função desses valores e crenças, sendo que a noção de imortalidade da alma é uma delas. Entretanto, fique claro, profissionalmente não me cabe – até porque esta restrição está escrita no código de ética do psicólogo – impingir meus próprios valores religiosos aos pacientes que me solicitam ajuda.
Entretanto, se não faço uma elegia da religião, se não devo fazer como faz Dostoiévski: a defesa e propaganda da ideia de imortalidade da alma de forma a combater o avanço das “ideias de ferro”, como ele denomina o ateísmo e o materialismo e que seriam, em parte, o substrato cultural correlacionado ao aumento do número de vítimas pela via do suicido, aqui faço, como uma estratégia de prevenção, um elogio à dúvida.
Porque, afinal, quando adentramos na densa floresta das questões humanas fundamentais, das questões humanas mais profundas, das questões sobre as quais têm se debruçado os pensadores de todos os tempos.... De verdade: nada sabemos.
E mesmo daquilo que já sabemos, nem de tudo temos clareza e nem tudo nos deu certeza. Há vida após a morte? O que acontece após o evento da morte do corpo físico? Somos apenas corpos físicos complexos ou possuímos uma alma? Nossas experiências subjetivas, pensamentos, sentimentos, emoções, resultam apenas de atividade eletroquímica de nossos cérebros? O cérebro é quem cria a consciência ou, ao contrário, a consciência existia antes de haver matéria? Quer saber, não sabemos. O que temos são perguntas, inúmeras perguntas na ilha de consciência em que existimos cercada por oceanos ainda insondáveis.
“É necessariamente verdade que todas as coisas que afirmamos em ciência, todas as conclusões que tiramos, são incertas, pois são apenas conclusões. São conjeturas sobre o que irá passar-se e não podemos saber exatamente o que vai passar-se porque nunca fazemos todas as experiências. É curioso como o efeito sobre a massa de um pião a girar é tão pequeno que podemos dizer “bem, não faz diferença nenhuma”. Mas chegar a uma lei correta, ou pelo menos a uma que se mantenha após crivos sucessivos, requer uma tremenda inteligência e imaginação e um completo remendo na nossa filosofia, na nossa compreensão do espaço e do tempo. Refiro-me à teoria da relatividade. Acontece que os efeitos insignificantes daí resultantes requerem sempre as mais revolucionárias modificações de ideias. Os cientistas estão, pois, habituados a lidar com a dúvida e a incerteza. Todo o conhecimento científico é incerto. E esta experiência com a dúvida e a incerteza é importante. Creio mesmo que tem um valor tão alto que se estende para lá da ciência. Creio que para resolver qualquer problema que ainda não tenha sido resolvido é preciso deixar entreaberta a porta para o desconhecido. É preciso manter aberta a possibilidade de não termos toda a razão. De outro modo, se já temos uma ideia predefinida, podemos não conseguir resolver nada.
Quando o cientista nos diz que não sabe a resposta, é um ignorante. Quando diz que tem um palpite sobre o modo como as coisas vão funcionar, está inseguro a esse respeito. Quando tem a certeza sobre o modo como as coisas irão passar-se e afirma “aposto que é assim que tudo vai passar-se”, ainda continua em dúvida. E para podermos progredir é de extrema importância que saibamos reconhecer essa ignorância e essa dúvida. É por termos dúvidas que nos propomos olhar em novas direções à procura de novas ideias. ” (Feynman, Richard, O Significado de Tudo, Gradiva, Lisboa, 2001, pp. 11-37).
Bem, se é esta a postura razoável que se deve adotar em um campo de pesquisas onde a realidade, até certo ponto, é palpável e observável o que se dizer a respeito do que possa ocorrer após o evento da morte do corpo físico? Não sabemos. Pesquisas sobre a consciência, existência fora do corpo, reencarnação, experiências de quase-morte, estão sendo atualmente capitaneadas pela ciência e desenvolvidas por importantes centros universitários do planeta de forma a ampliar o espectro do conhecimento humano sobre os limites da vida. Mas até o momento, de nada sabemos. E embora uma visão popular atualmente predominante no campo das Neurociências queira definitivamente responder que “você, suas alegrias e tristezas, suas memórias e ambições, sua noção de identidade e seu livre-arbítrio nada mais são do que a interação de um vasto conjunto de células nervosas...” (Revista Veja); considerando a consciência humana como algo cuja localização encontra-se no cérebro e que em um futuro bem próximo o mapeamento neural da consciência será feito, tal como está ocorrendo com o código genético de nosso organismo físico: na verdade o que temos são apenas hipóteses, quando não uma hybris da razão.
“Existe uma pergunta insidiosa que, nos últimos tempos, tem preocupado muitas pessoas e que parece não querer calar tão cedo: será que somos apenas nossos cérebros? Um punhado de genes em interação produzindo a ilusão de que temos um “eu”? O que terá restado da subjetividade?
Essas proposições são cada vez mais proclamadas pela mídia como conclusões científicas definitivas e não apenas conjecturas, e talvez seja isso o que nos inquieta mais. É da Neurociência que deriva a autoridade para sustentar essa visão e, nesse sentido, podemos dizer que atualmente ela é a disciplina científica que mais tem afetado a imagem que o homem tem de si. Dizer que o nosso “eu” nada mais é do que o metabolismo do cérebro tem consequências profundas, tanto do ponto de vista filosófico como do antropológico. Significa sugerir que uma questão filosófica milenar, o problema mente-cérebro, pode ser solucionada. Nossas mentes não seriam nada mais do que nossos cérebros. A imagem socrática do homem de uma alma aprisionada a um corpo, que herdamos nos últimos milênios de Filosofia, deveria agora ser abandonada.
(...). Queremos o conforto de uma cultura da resposta certa, na qual não existam brechas para a dúvida. (...). Estaríamos caminhando para uma Neurofilosofia, que estaria se tornando a ferramenta poderosa para extirpar a moléstia metafísica. Quem sabe, as próprias dúvidas hiperbólicas da Filosofia nada mais seriam do que estados cerebrais inoportunos, dos quais poderíamos nos livrar interferindo no metabolismo do cérebro, provavelmente por meio de drogas poderosas. Afinal, já existem drogas que induzem efeitos específicos, como é o caso das que produzem experiências religiosas. Não queremos mais ser incomodados por dúvidas insidiosas; o ideal da saúde, da mente sã, deve se sobrepor à busca por respostas a questões incômodas do tipo “o que somos? ”, “de onde viemos? ”, e “para onde caminhamos? ” (...). Mas as questões metafísicas têm se mostrado recorrentes. Elas sobreviveram às diversas demonstrações filosóficas de que são insolúveis. É o retorno do reprimido.”  (Teixeira, João Fernandes) http://filosofiacienciaevida.uol.com.br/ESFI/Edicoes/60/artigo220185-2.asp).
 E essa atitude, pois, metódica, de dúvida – que não significa permanente negação, mas liberdade de investigar oposta àquela posição que afirma e pensa que já descobriu – não pode ser outra, até porque em sua origem histórica a Filosofia e a Ciência surgiram por sentir profundamente o arcano e misterioso desse universo em que vivemos e a nossa condição humana dentro dele.
E dessa forma, se não conseguimos desenvolver uma religiosidade que, como um fator de proteção possa fazer nascer e mantenha sempre jorrando as fontes de resiliência desde nosso interior, constitui-se em um erro profundo – respondendo as questões propostas acima – a convicção de que o Nada é o que existe, ou pintar um quadro fabuloso sobre a vida após a morte: e tomar essas equivocadas certezas como suportes cognitivos para pretender se autoeliminar.
Ora, se não efetuamos a suspensão de conceitos, imagens e sentimentos prontos, quase sempre de cunho niilista, sobre a realidade da vida, e da vida após a morte, e não fazemos uma reflexão que nos leve a uma conclusão – que não pode ser outra – de que a realidade sempre será mais ampla do que os “quadros” que formamos dela... Enfim, se não escolhemos uma crença, permanecemos escolhidos pela dúvida.
Temos dúvidas e é útil que as tenhamos. Nas estações do trem de nossas vidas podemos nos movimentar para adiante, para alguma forma de crença e fé, mas não podemos retroceder para a estação da absoluta descrença. Porque pertencente à condição humana a dúvida é o mínimo insuperável. E na estação da dúvida ou incerteza não há como não descer. Das barreiras aí colocadas não há como ultrapassar.
Por conseguinte, mesmo que passemos pela vida sem fazer essas perguntas fundamentais, e o que é em termos filosóficos como ter os olhos fechados sem nunca os haver tentado abrir; ao fazê-las – e, sobretudo ao considerar a questão do suicídio em relação à vida após a morte – será preciso sempre considerar a advertência final a seguir:
“Para ser um bom filósofo deve-se ter o desejo forte de saber, combinado à grande cautela em acreditar que se sabe; também se deve possuir acuidade lógica e o hábito do pensamento exato. Tudo isso, claro, é uma questão de grau. A incerteza, em particular, pertence, até certo ponto, ao pensamento humano; podemos reduzi-la indefinidamente, embora jamais possamos aboli-la por completo”. (Russell, Fundamentos de Filosofia, p. 9).
Isso porque o ser humano é o único ser para o qual sempre se colocará como problema, o seu próprio ser. Daí a dúvida como estrutura constituinte de sua condição, porque diferente da pedra, do vegetal e do animal por mais profundo que ele se olhe não se vê; e por mais que venha a se conhecer, nunca saberá inteiramente de si.
             
Bibliografia
Botega e outros. Prevenção do comportamento suicida. PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 37, n. 3, pp. 213-220, set./dez. 2006).
Cassorla, Roosevelt M.S. O que é suicídio. São Paulo: Brasiliense, 1984.
Corrêa, H; Barrero, S. P. (org). Suicídio: uma morte evitável. São Paulo: Editora Atheneu: 2006.
Dias, Maria Luiza . Suicídio: testemunhos de adeus. São Paulo: Editora Brasiliense, 1991.
Dostoievski, Fiodor. Suicídio, Sentido da Vida e Imortalidade, extraídos da coletânea Diário de um Escritor. Disponível em lutaaquariana.blogspot.com/2009/04/fiodor-dostoievski-050808.html.
Durkheim, Èmile. O Suicídio. São Paulo: Edt Martin Claret, 2002.
Feynman, Richard, O Significado de Tudo, Lisboa: Gradiva, 2001.
Jamison, K. R. Quando a noite cai: entendendo o suicídio. Rio de Janeiro: Gryphus, 2002.
Pondé, Luiz Felipe. Crítica e Profecia: a filosofia da religião em Dostoievski. São Paulo: Edt 34, 2003.
Revista Veja. Afinal, A Leitura da Mente. Editora Abril. Edição 2276 – ano 45 – nº 27 / Julho de 2012.
Russerl, Bertrand. Fundamentos de Filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 1977.
Teixeira, João Fernandes: Afinal, O que somos? Disponível em: http://filosofia da cienciavida.uol.com.br/ESFI/Edições/60/artigo220185-2.asp.
Teixeira, João Fernandes. Filosofia do Cérebro.  São Paulo: Edt Paulus, 2012.


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