sábado, 16 de julho de 2016

Silenciar sobre o suicídio é o que mata

Óleo sobre tela: Silêncio / Fabiano Millani
 Uma amiga chegou esta manhã para me pedir um conselho. Um querido amiga dela havia morrido por suicídio.
"O que você diz quando alguém tira a sua própria vida?" Perguntou ela.
Poderia ter sido eu.
Minha amiga e eu conversamos brevemente sobre seu amigo. Eu nunca o tinha encontrado; eu não o conhecia. Mas, ao mesmo tempo em que eu a ouvia  falando sobre o suicídio dele, eu senti como se o conhecesse muito bem. Pude sentir o que se passou com ele no exato minuto em que tirou a própria vida. Eu me conectei à ele de uma maneira muito profunda.
Ficamos conectados porque eu conheço bem os demônios que ele carregava.  Eu acredito que os meus são os mesmos. Eu posso imaginar o que ele poderia ter sentido: como é você estar em um corpo que é ocupado por outra pessoa. Como é você estar se afogando. Como se você estivesse engolindo água quando todos à sua volta estão respirando ar puro. Eu tenho visto o mundo através da mesma névoa negra e atravessado a mesma areia movediça pegajosa. Eu sei. Eu estive lá.
Eu costumava pensar que a dor me fez uma pessoa isolada. Que a dor emocional profunda que eu tenho experimentado me fez diferente de você, me tornou inferior à você. Eu escondi a minha dor, porque eu tinha medo que você venha a pensar que eu sou fraca. Eu estava com medo de que minha escuridão tenha feito de mim uma pessoa feia. Eu estava com medo de que se as pessoas soubessem o tipo de pensamentos que tenho, os pensamentos que me diziam que eu não valia nada e não merecia viver, elas me tratariam realmente como se eu não merecesse viver.
Eu não falei com ninguém sobre minha dor até que foi quase tarde demais. Eu não contei a ninguém que eu queria morrer até que eu quase me matei. Mas depois que eu acordei e depois de, com muito esforço, tomar em minhas mãos a minha própria vida, a esperança nasceu. 
A esperança escancarou a porta para eu falar abertamente sobre a minha dor. E quando eu comecei a falar, comecei a ver que havia dores semelhantes em muitas outras pessoas. Meus olhos já não estavam cegos pelo medo. Eu agora enxergava outras pessoas que se sentiam com eu, conectando-nos da maneira mais profunda.
Nunca foi a dor que me isolou, mas o meu medo. O medo de não ser compreendida, o medo de ser diminuída, o medo do preconceito. Uma vez que a esperança entrou e me devolveu a vontade de viver, o medo soltou suas garras. E quando eu comecei a deixar de lado o medo, comecei a ver a beleza que vive debaixo da dor.
Minha escuridão já não me isola. Meus sentimentos de inutilidade e vergonha, meus pensamentos de que não tenho nenhum valor, os pensamentos que me dizem que eu não mereço viver, que o mundo seria um lugar melhor sem mim, não me fazem mais me sentir sozinha. Eles não me isolam porque eu os compartilho. E falo sobre eles. Eu os utilizo para construir uma ponte entre mim e outras pessoas que se sentem e pensam da mesma maneira. Nossa escuridão nos permite que entremos em comunhão, e essa ligação acende uma luz dentro de nós que nos livra da escuridão.
E sempre que alguém morre de uma maneira tão trágica, isso soa para mim como um grande lembrete de por que eu preciso continuar a falar sobre o suicídio e compartilhar a minha dor.
Alguns perguntam se eu não tenho medo de falar abertamente sobre as minhas últimas lutas e, as vezes presentes, intenções suicidas. "Você não está com medo do que as pessoas pensam? Você não está com medo de como as pessoas vão te julgar? "
Não. Eu não estou com medo de falar sobre o suicídio. Estou com medo de ficar calada. O silêncio é o que alimenta a minha depressão. O silêncio se transforma em pensamentos e em obsessões e obsessões podem levar a ações. O silêncio é a arma mais mortal de todas. O silêncio mata. Eu sei que o meu silêncio iria me matar, e eu não quero morrer.
Eu falo sobre isso para outras pessoas que estão com medo de falar abertamente sobre suas intenções suicidas para que elas saibam que não estão sozinhas. Nós nunca estamos sozinhos, acredite. Vou repetir: nós nunca estamos sozinhos, apesar de quão solitário que nos sentimos.
Minha dor não me faz diferente de você. Ele não me faz menos do que você. Minha escuridão não é feia e maldita. É uma bela ponte que me liga a você. E se conectar através da dor é a mais poderosa e transformadora conexão que já experimentei.   
Siga nessa jornada com sentimentos e fé.


Se você ou alguém que você conhece precisa de ajuda, ligue para o número do CVV: 141 e procure ajuda especializada.


Texto original: Why I'm Too Scared to Stay Silent About Suicide  By Christine Suhan
Tradução livre e adaptada





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