Valéria Mendes - Saúde PlenaPublicação:27/03/2014 09:00Atualização:27/03/2014 10:05
Autossuficiência
é a palavra que pode sintetizar a dificuldade que o médico tem de procurar
ajuda quando adoece. No livro, ‘Médico como Paciente’, a autora e doutora em
psiquiatria Alexandrina Meleiro cita o benefício da ignorância como um fator
que protege a pessoa leiga de compreender o que vai lhe acontecendo e permite
que esse paciente acredite na palavra do médico. Nesse contexto, sentimentos
como onipotência e vergonha fazem com que muitos profissionais assumam a
automedicação. As consequências são variadas, mas quando o assunto é saúde
mental, vemos a categoria amargar incidência alta de dependência química,
depressão e taxa de suicídio. No Brasil, essa discussão ainda é tímida.
Psiquiatra, coordenador da Comissão de Atenção à Saúde Mental dos Médicos, membro
emérito da Academia Mineira de Medicina e idealizador da I Jornada Brasileira
de Saúde Mental dos Médicos, José Raimundo da Silva Lippi lembra que as pessoas
podem alcançar um nível intelectual muito grande, mas mesmo assim ser
emocionalmente frágil. “A saúde mental é um estado que vai sendo alcançado
através da capacidade que o ser humano tem de tolerar níveis cada vez maiores
de tensões e de frustrações. O homem saudável não é aquele que vence as
frustrações, porque elas não são elimináveis, mas sim o que tolera bem os
níveis de decepção”, explica.
O
médico afirma que quando o estresse está acima do suportável para a pessoa, se
ela não procurar ajuda, os descaminhos podem ir da ansiedade ao suicídio.
“Quando esse estresse supera o nível que o organismo resiste, os sinais começam
a aparecer. Pode redundar em não dormir bem, perder o apetite ou ter apetite
exagerado, diarreia, dores que são suportáveis para outras pessoas, mas são
muito grandes para os que estão com equilíbrio emocional desorganizado”,
salienta.
Para ele, os médicos são motivados pelo desejo de salvar vidas mas a que chamar a atenção não só da classe médica, mas também da população para a
peculiaridade da profissão e os riscos que envolvem esse labor. “Falta de
condições de trabalho, excesso de carga horária, a tensão da relação
médico-paciente são alguns fatores que aumentam a vulnerabilidade do médico em
relação a outras profissões. É alguém que precisa conviver com a frustração de
não ter salvado uma vida. Às vezes, por imaturidade ou por se considerar um
‘semideus’ sofre mais que os outros”, enfatiza. Lippi acredita que os
profissionais precisam se livrar das amarras da onipotência de acharem que
sabem de tudo, de deixar a vergonha de lado e procurar ajuda. “Nenhum médico é
obrigado a saber toda a medicina, os colegas estão aí para isso”, diz.
Lippi afirma que a depressão é a doença mental mais comum entre os médicos,
inclusive entre os psiquiatras. “Todos são suscetíveis a patologias de ordem
mental, principalmente aqueles que não se cuidam. É importante lembrar que o
remédio cuida do sintoma, mas as causas precisam de atenção na psicoterapia. O
médico pode ser um bom ‘receitador’, mas se não souber o que o cliente tem, não
vai resolver o problema”, explica. Por isso, a automedicação não deve ser vista
como solução.
Suicídio
“Os médicos se suicidam cinco vezes mais que a população geral”, afirma a
psiquiatra Alexandrina Meleiro, membro da Associação Brasileira de Psiquiatria
(ABP), coordenadora da Comissão de Estudos e Prevenção de Suicídio da ABP e
membro do Grupo de Atenção da Saúde Mental do Médico. Apesar de ser uma atitude
drástica, a Organização Mundial de Saúde (OMS) vem alertado para o aumento da
incidência na taxa de suicídio: um milhão de pessoas se mata no mundo
anualmente ou uma morte a cada 40 segundos. No Brasil, observa-se um
crescimento de 30% no suicídio entre jovens do sexo masculino nas últimas
décadas. Entre os médicos, segundo Alexandrina, os mais vulneráveis estão na
faixa etária de 35 a 50 anos.
Suicídio tem prevenção. Isso por que a quase totalidade dos casos – 99% - está
associada a um transtorno psiquiátrico. A saúde mental é negligenciada por
motivos que vão desde a falta de uma rede de apoio organizada para atender o
paciente, no caso do Brasil, até não ser reconhecida socialmente como doença em
muitos casos. No senso comum, por exemplo, a depressão é confundida com
episódios de tristeza e desventuras da vida. Todo esse contexto de preconceito,
falta de informação e tabu agrava a busca por ajuda quando o doente é o médico.
Problemas de ordem mental ainda são vistos como motivo de vergonha e assunto
para – se for para conversar – que seja baixo para ninguém ouvir. Enquanto
isso, pessoas têm suas vidas desestruturadas, muitas tentam se matar para
amenizar o sofrimento e outras tantas conseguem.
O suicídio é um tema tão complicado que é estimado um número de vítimas duas ou
três vezes maior em razão da subnotificação ao registrar a causa da morte.
Curiosamente, no caso de médicos, a psiquiatra Alexandrina Meleiro aponta em
artigo intitulado ‘Suicídio na população médica: qual a realidade? ’, publicada
na edição deste mês da Revista Brasileira de Medicina, uma situação contrária.
“Na população geral, existe uma tendência de o médico não registrar que a causa
da morte foi por suicídio. Geralmente, registra-se a causa externa da
internação, como, por exemplo, queda de altura, envenenamento, intoxicação
exógena (excesso de remédio). Um levantamento de atestados de óbitos feito pelo
Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP) mostrou que,
quando a profissão da vítima era a medicina, a palavra suicídio aparecia. Uma
das hipóteses é que, por se tratar de um colega, o rigor da notificação é
maior. E aí fica a pergunta: será que, de fato, os médicos se suicidam mais ou
houve um zelo maior quando se tratava de médico? A resposta eu não sei”,
problematiza a psiquiatra.
Alexandrina Meleiro afirma que outra razão para a subnotificação na população
geral é que os seguros de saúde e seguros de vida geralmente não cobrem
situações de ato voluntário contra a própria vida. “É comum na prática médica
registrar a causa externa para proteger a família da vítima”, explica.
O levantamento do CREMESP publicado em 2012 mostra também que, entre as causas
externas de morte de médicos em São Paulo, o suicídio aparece em segundo lugar:
21% no caso das mulheres e 18% em homens (veja gráfico). Em primeiro, está o
acidente automobilístico, mas para Alexandrina Meleiro, paira uma dúvida: “Foi
um acidente de fato ou a vítima usou o carro como meio de suicídio?”, questiona.
“Temos um alto índice de mortes por acidentes automobilísticos entre os médicos
jovens e não há diferença entre os gêneros. Há um quadro autodestrutivo em que
indivíduo teria alguma intenção suicida, são os chamados ‘autocídios’”,
explica.
Tipo
de morte por causas externas descritas como causa básica de morte de médicos no
Estado de São Paulo entre os anos de 2000 e 2009, de acordo com o gênero (Dados
sobre mortalidade dos médicos no Estado de São Paulo, CREMESP, 2012)
Meleiro
aponta algumas hipóteses em relação ao comportamento dos médicos que cometem
suicídio:
1. Manifestam especial vulnerabilidade ou experiências de eventos
circunstanciais diferentes (recente perda profissional ou pessoal, problemas
financeiros ou de licença) em relação aos outros médicos;
2. Tendem a trabalhar mais horas que os outros colegas;
3. Tendem a abusar de álcool e outras substâncias;
4. Estão mais insatisfeitos com suas carreiras médicas que outros médicos;
5. Dão sinais de aviso da intenção de suicidar-se a outros;
6. Têm transtorno mental e emocional com mais frequência;
7. Tiveram dificuldades na infância e seus problemas familiares são comuns;
8. Automedicam-se mais frequentemente que os outros colegas
Dependência química
Trabalho realizado em 2004 na Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas da Escola
Paulista de Medicina (Unifesp) intitulado ‘Perfil Clínico e Demográfico de
Médicos com Dependência Química’ mostra que os médicos apresentam taxas
similares de uso nocivo e dependência de substâncias em relação à população
geral. A incidência varia entre 8% e 14%. O estudo coletou dados de 198 médicos
em tratamento ambulatorial por uso nocivo e dependência química.
A frequência de uso nocivo e dependência de opióides (anestésicos derivados da
morfina) e BZD ou benzodiazepínicos (popularmente conhecidos como
tranquilizantes de tarja preta) é aproximadamente cinco vezes maior entre os
médicos que na população geral. Alexandrina Meleiro aponta que o uso de
opióides é motivo de suicídio principalmente entre anestesistas.
José Raimundo Lippi alerta ainda que a facilidade de acesso a esses opiácios é
uma porta de entrada para a dependência química entre médicos. “Drogas
medicinais que só são encontradas em hospitais, principalmente as medicações
usadas em anestesia, aparecem como solução para o alívio de tensão”, afirma.
Gráficos abaixo mostram alguns resultados do estudo da Unifesp:
Drogas mais consumidas entre os médicos acompanhados:

Especialidades médica mais envolvidas em dependência química:
'Perfil
Clínico e Demográfico de Médicos com Dependência Química', trabalho realizado
em 2004 na Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas da Escola Paulista de
Medicina (Unifesp)
O estudo mostrou também os diagnósticos mais encontrados. Em primeiro apareceu
a depressão, seguida de transtorno afetivo bipolar e transtornos de
personalidade. Na sequência, esquizofrenia e transtorno de ansiedade
generalizada. Os pesquisadores apontaram ainda as situações facilitadoras para
dependência de drogas. Veja:
1)
acesso fácil aos medicamentos
2)
perda do tabu em relação a injeções
3) história
familiar de dependência
4)
problemas emocionais
5)
estresse no trabalho e em casa
6)
busca de emoções fortes
7)
auto-administração no tratamento para dor e para o humor
8)
fadiga crônica
9)
onipotência e padrão de prescrição exagerada
10)
os de especialidade de alto risco (Anestesiologia, Emergência e Psiquiatria)
DEPOIMENTO:
Super-herói de carne e osso
Uma médica e professora universitária de Belo Horizonte que não quer ser
identificada conversou com o Saúde Plena. Ela será chamada de Márcia e conta
que já se envolveu emocionalmente em histórias não apenas de colegas de
profissão, mas de amigos e nomes de referências na medicina que se perderam em
jornadas exorbitantes de trabalho que, segundo ela, variam entre 80 a 100 horas
semanais. “O médico tem adoecido por um excesso de cobrança, falta de descanso,
de sono reparador, uma dieta inadequada, falta de tempo com a família e de uma
atividade física, um quadro que leva a uma sobrecarga mental. A carga de
responsabilidade é tão grande que muitas vezes conduz a um estado de exaustão”,
afirma ela.
Nas três histórias que Márcia acompanhou de perto os profissionais não
procuraram ajuda. “A fiscalização não é rígida a esse ponto. O médico pode, por
exemplo, prescrever o remédio para esposa, mas para ele usar. Eu mesma já
prescrevi para mim. Às vezes é uma questão de praticidade e pode começar com um
medicamento para ajudar a dormir. No meu caso, nunca me tratei sozinha e nunca
fui dependente de nada, mas tenho várias histórias para contar de
ex-professores e amigos. Eles precisaram ser afastados e, em alguns casos, se
envolveram até em problemas judiciais”, relata.
O primeiro foi de uma professora referência em trauma com atuação no setor
de urgência e emergências de hospitais na cidade. “Era uma pessoa extremamente
capacitada, mas tinha uma jornada de trabalho de quase 100 horas semanais. Ela
amava o trabalho que fazia e não era casada. Não cuidava quase nada da vida
pessoal. Foi quando começou a injetar no próprio corpo um medicamento chamado
fentanil que traz uma sensação de alívio, mas é perigosíssimo porque causa
várias alterações no organismo e pode até provocar a morte das pessoas. Ela
entrou num ciclo de vício tão grande que começou a roubar o remédio do hospital
para sustentar o vício. Lembro de um dia ela chegar na sala de aula com a marca
do garrote no braço. Foi um choque muito grande por ela ser uma referência para
inúmeros profissionais e parou, inclusive, de exercer a medicina”, conta.
Márcia também se recorda de uma história que, infelizmente acabou em morte.
“Ele era um padrinho na medicina para mim. Além da graduação em medicina, tinha
também a de farmácia. É um exemplo de um profissional que trabalhava muito e
começou a oscilar entre buscar uma vida mais equilibrada e entrar na destruição
total. Nesse período, os colegas mais próximos costumavam brincar que ele tinha
a época do zig, em que comia bem, dormia bem, não bebia e fazia exercício
físico; e a época do zag, em que bebia todos os dias e, por compulsão
alimentar, comia tudo que viesse na cabeça. Teve um dia em que ele foi buscar
umas daquelas fitinhas de exame para detecção de glicose na urina e foi ao
banheiro. Como ficou um pouco de urina na mão dele e ele segurou as fitinhas,
fez o exame e acabou descobrindo que estava diabético. A pressão arterial dele
também era desequilibrada e, aos 53 anos, faleceu de infarto agudo do
miocárdio”, recorda-se.
A médica cita também o caso de uma colega casada e com filhos que pegava
muitos plantões por semana para, segundo Márcia, pagar as contas. “Ela não
descansava. Uma noite, saindo de um desses plantões, foi convidada para tomar
cerveja e aceitou. Alguém ofereceu para ela um cigarro que tinha crack. Ela
fumou sem saber e começou a se viciar. Tenho amigos que chegaram a buscá-la em
cracolândia completamente fora de si. Já faz três anos que ela está em fase de
recuperação”, narra. Para ela, a colega descobriu no crack um mecanismo de fuga
para aliviar a tensão e tirá-la da rotina maçante.
Márcia acredita que a sensação de uma suposta autossuficiência dificulta que
o médico procure ajuda. “Sou médico, sei me tratar. É como se o médico não
pudesse fracassar e não pudesse mostrar esse lado humano. E a sociedade ainda
acha que o médico sempre tem que dar conta, mas somos um super-herói de carne e
osso, tão carne e osso quanto o paciente”, pondera. Para ela, é importante
refletir: “até que ponto vale a pena trabalhar tanto parar sustentar um padrão
de vida?”.
A médica diz que gostaria de convidar os colegas a refletir sobre os seguintes
pontos: tempo de jornada de trabalho, tempo para praticar exercício físico,
tempo para estar com os filhos e com a família, cuidado com a alimentação. Ela
cita o modelo ‘Dahlgren & Whitehead’ de qualidade de vida para nortear a
atenção que as pessoas devem dar aos fatores que estão relacionados à saúde.
Veja:

Modelo
'Dahlgren & Whitehead' de qualidade de vida
http://sites.uai.com.br/app/noticia/saudeplena/noticias/2014/03/27/noticia_saudeplena,148058/falta-de-cuidado-com-a-saude-mental-leva-medicos-a-depressao-dependen.shtml
Se você ou alguém que você conhece precisa de ajuda ligue para o número do CVV: 141 e procure ajuda especializada.