quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Evangélicos, Vocês Estão Errados Sobre Suicídio e Doença Mental



Por Emy Simpson, cristã e autora do livro Troubled Minds: Mental Illness and the Church's Mission, sobre cristãos portadores de doenças mentais.
 Como tenho escrito sobre as doenças mentais e a igreja ao longo dos últimos anos, eu tenho me dirigido a igreja em geral. Mas hoje, particularmente, quero me dirigir aos meus companheiros evangélicos.
Uma pesquisa recente da Life Way Research produziu algumas estatísticas interessantes relacionados com a doença mental, entre eles duas estatísticas que revelam um contraste chocante. Entre os evangélicos pesquisados, 64% acreditam que as igrejas devem fazer mais para prevenir o suicídio. Ao mesmo tempo, 48% acreditam que a doença mental grave pode ser curada somente pela oração.
Ora aqui está o que eu acho chocante: Essa segunda estatística revela uma atitude que realmente contradiz o que 64% alegam sobre o que eles querem que a igreja faça. 
Aqui vai uma dica: Se você acredita que as igrejas devem fazer mais para ajudar a prevenir o suicídio, aqui está uma forma tangível e rápida para ajudar agora: Pare de dizer às pessoas que elas podem curar a doença mental apenas com oração.
Concordo, só porque as pessoas dizem que a doença mental pode ser superada com o estudo da Bíblia e oração não significa que essas mesmas pessoas iriam desencorajar o tratamento médico e a psicoterapia para alguém com doença mental.
Mas em inúmeras igrejas, tais crenças são amplamente sustentadas e disseminadas. E, em outras, embora a procura de tratamento não seja abertamente condenada, a oração e estudo da Bíblia continuam prescritos como o primeiro passo para tentar evitar o tratamento e isso, para muitas pessoas, tem o mesmo efeito de desencorajar essa procura. Isso, certamente, tem o efeito de retardar o tratamento e esse atraso aumenta a probabilidade de que a doença mental venha a se tornar mais grave, podendo causar graves perturbações ao funcionamento da pessoa e, potencialmente, custar sua própria vida.
Enquanto a maioria das pessoas que são portadoras de uma doença mental (mais de 25% da população adulta americana) não morrem por suicídio, a maioria dos especialistas afirmam que pelo menos 90% das pessoas que morrem por suicídio tem um transtorno mental diagnosticável, que pode muito bem ser tratado E muitas dessas pessoas não recebem tratamento para a sua saúde mental. Obviamente é o tratamento e a gestão adequada da doença mental que são a forma – possivelmente a forma mais importante – de prevenir o suicídio. E a oração por si só, embora sendo útil, não é o tratamento adequado da doença mental. Na verdade, a maneira mais segura de conduzir as pessoas para mais perto do abismo do desespero consiste em dizer-lhes que a sua doença mental é simplesmente um problema espiritual; diga-lhes em seguida para orar e, em seguida, quando a oração não funcionar, basta dizer-lhes para orar com mais fé. 
Colocar uma carga espiritual pesada sobre as pessoas que sofrem de uma doença mental grave é uma forma de incentivar o suicídio, não de impedi-lo.
 É fácil para a maioria de nós compreendermos que se você diz a alguém com câncer, diabetes ou insuficiência renal que a oração é a melhor maneira de tratar a sua doença com risco de vida, e por causa de seu conselho essa pessoa recusa o tratamento médico, você está contribuindo para a sua morte. 
Você sabe que uma doença mental grave é também uma condição que coloca a vida em risco? Você sabe disso? De acordo com a Organização das Nações Unidas e do Instituto Nacional de Saúde Mental, em média, os americanos com doença mental grave morrem 14 a 32 anos antes do que a população em geral. A esperança média de vida para as pessoas portadoras de uma doença mental grave variam de 49 a 60 anos de idade. Compare isso com a expectativa de vida média nos Estados Unidos: 78,6 anos. O suicídio é apenas uma pequena razão para esta diminuição na esperança de vida, mas é significativa. Pessoas com esquizofrenia são 50 vezes mais propensos a tentar o suicídio do que a população em geral. Entre as pessoas com diagnóstico de transtorno bipolar, pelo menos, 25 a 50% fazem uma tentativa de suicídio. Entre as pessoas com depressão maior, a taxa de suicídio é 8 vezes superior à da população em geral. Portanto, para qualquer um que, hipocritamente, disser a essas pessoas que elas não têm uma condição médica que requer tratamento e que uma atividade religiosa mais cheia de fé e entrega à Deus é tudo que eles precisam, eu digo que essa é uma atitude indesculpável.
Considere o que acontece quando, apesar de orações sinceras e frequentes das pessoas, esta receita simplesmente não funcione, como inevitavelmente é o que acontece com a maioria das pessoas. Seu conselho equivocado condenou-as a sofrer ainda mais, pois acrescentou em cima de sintomas da doença mental grave, sentimentos de inadequação espiritual ou abandono. A que outra conclusão chega essa pessoa, senão que suas orações não são boas o suficiente ou que Deus se afastou delas?
Acredite: se só a oração fosse a cura padrão para a doença mental, minha mãe seria saudável e completa, ao invés de uma pessoa devastada pelos sintomas da esquizofrenia. Na verdade, se a fé fosse uma vacina eficaz para distúrbios cerebrais, ela nunca teria desenvolvido essa doença. Se ir a uma reunião de oração evangélica assegurasse saúde mental, nenhuma das pessoas sobre as quais eu escrevi em meu livro (Troubled Minds) teriam algo a dizer. Eu entrevistei fiéis cristãos que tomam medicação, se envolvem em terapia, participam de grupos de apoio, e sim, com certeza, oram regularmente.
Deus pode curar qualquer um, e às vezes ele faz isso milagrosamente. Mas na maioria das vezes, ele não o faz. Tal reconhecimento não põe em causa a grandeza de Deus ou de sua bondade. Ele nos colocou em um mundo onde vivemos dentro dos limites das leis naturais que ele criou e com a presença de doença, decadência e morte. Doença mental, como outras doenças, é uma realidade da vida em um mundo onde partes do nosso corpo, incluindo o cérebro, ficam doentes e passam a apresentar um mau funcionamento. Veja! Nós não consideraríamos aceitável, de forma nenhuma, prescrever exclusivamente a oração, sozinha, para o tratamento de fígados doentes, corações e pâncreas; porque prescrevê-lo para cérebros desordenados? A oração é fundamental para uma vida espiritual saudável, se estamos ou não estamos sofrendo de doença grave. Mas isso não é um substituto para o tratamento médico responsável.
Eu amo a igreja, e eu sou um grande fã das muitas maneiras que Deus vem usando o povo cristão como uma força para o bem deste mundo. Mas, às vezes, na nossa ignorância, equívoco, teimosia, preguiça, medo ou desejo muito humano de acreditar que como cristãos merecemos uma vida melhor do que outros, em nada estamos ajudando, mas somente fazendo aumentar o problema. Para os cristãos que acreditam que oração e o estudo da Bíblia são as substituições corretas para o tratamento dos distúrbios mentais, esta é a hora.
É a hora de todos nós aprendermos e falarmos a verdade: e ajudarmos a salvar vidas.


Se você ou alguém que você conhece precisa de ajuda, ligue para o número do CVV: 141 e procure ajuda especializada.




Texto original: Evangelicals, You’re Wrong about Mental Illness Published September 20, 2013 by Amy in ChurchMental HealthMental Illness
http://amysimpsononline.com/2013/09/evangelicals-youre-wrong-about-mental-illness/
  

 Tradução livre e adaptada




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